
Quinta-feira – Natal do Senhor
Silêncio
Silêncio, onde nascem as nossas vidas.
Silêncio da lua.
Silêncio do Sol.
Silencio de Deus.
Silêncio do Amor, silêncio da Beleza.
Silêncio da Liberdade, da Serenidade.
Silêncio da Felicidade, da Simplicidade.
Silêncio do Tempo.
Deus continua hoje a falar-nos como falou no presépio. Continua a dizer aos Homens que só no silêncio O podemos encontrar e nele o sentido da nossa vida. Quem não faz silêncio, não encontra nada. Apenas encontra aquilo que o barulho da sociedade dá: o dinheiro, as correrias, o poder, as influências, as grandezas materiais que quanto mais crescem mais esvaziam o Homem.
Deus do silêncio.
Deus do Presépio, faz que o teu silêncio domine a nossa vida. Que eu possa sempre encontrar o teu silêncio. O silêncio da Eternidade. O imortal silêncio. O silêncio onde Tu me falas. O silêncio da noite calma, da noite em que Tu te fazes Homem e vens habitar entre nós. Do teu presépio chega-nos esta mensagem: o silêncio da simplicidade. Esta manjedoura é onde deve nascer todo o Homem. E encontrar-se no silêncio de Deus.
Jorge, Comunidade Estrada Clara
Sexta-feira
Em cada dia ternura, santidade e luz
Prólogo de S. João (1,1-18): Evangelho imenso, voo de águia que nos impede pensamentos rasteiros, que rasga uma brecha para o eterno: para o «no princípio» (no princípio era o Verbo) e para o «sempre». E assegura-nos que uma maré imensa bate nos promontórios da nossa existência (e o Verbo fez-se carne), que somos alcançados por uma corrente que nos alimenta, que nunca desaparecerá, que na nossa vida há uma força maior que nós. Que um fragmento de “Logos”, de Verbo, acampou em cada carne, há algo de Deus em cada ser humano.
Em cada vida há santidade e luz. E ninguém poderá voltar a dizer: aqui acaba a Terra, aqui começa o Céu, porque Terra e Céu se abraçaram. E ninguém poderá dizer: aqui acaba o ser humano, aqui começa Deus, porque Criador e criatura se abraçaram, e em Jesus recém-nascido homem e Deus são uma coisa só.
«Jesus é a narração da ternura do Pai» (“A alegria do Evangelho”, papa Francisco), por isso penso que a tradução, livre mas verdadeira, dos primeiros versículos do Evangelho de João pode soar aproximadamente assim: «No princípio era a ternura, e a ternura estava junto de Deus, e a ternura era Deus … e a ternura fez-se carne, e acampou no meio de nós». O grande milagre é que Deus já não plasma o ser humano com pó do solo, do exterior, como foi no princípio, mas faz-se Ele próprio, ternamente, pó plasmado, criança de Belém. A quantos o acolheram deu o poder… Notemos a palavra: o poder, não só a possibilidade ou a oportunidade de se tornarem filhos, mas um poder, uma energia, uma vitalidade, uma potência de humanidade capaz de ultrapassar os seus limites.
Na ternura era a vida, e a vida era a luz dos seres humanos. Uma coisa enorme: a própria vida é luz. A vida vista como uma grande parábola que narra Deus; um Evangelho que nos ensina a surpreender parábolas na vida. Dá-nos a consciência de que nós próprios somos parábolas, ícones de Deus. Que quem tem a sabedoria do viver, tem a sabedoria de Deus. Do Natal, de onde o infinitamente grande se faz infinitamente pequeno, os cristãos começam a contar os anos, a recontar a história. Este é o nó vivo do tempo, que marca um antes e um depois. Em torno a ele dançam os séculos e toda a minha vida.
Ermes Ronchi in “Avvenire”
Sábado
Humildade
A mensagem dos Evangelhos é clara: o nascimento de Jesus é um acontecimento universal que diz respeito a todos os homens. Só a humildade é o caminho que nos conduz a Deus e, ao mesmo tempo, precisamente porque nos conduz a Ele, leva-nos também ao essencial da vida, ao seu verdadeiro significado, à razão mais fiável pela qual vale a pena viver a vida. Só a humildade nos abre à experiência da verdade, da alegria genuína, do conhecimento que conta. Sem humildade, estamos “desligados”, somos excluídos da compreensão de Deus, da compreensão de nós mesmos. É preciso ser humilde para nos compreendermos a nós mesmos, e mais ainda para compreender Deus. Os Magos podiam ter sido grandes de acordo com a lógica do mundo, mas tornam-se pequenos, humildes, e por esta mesma razão conseguem encontrar Jesus e reconhecê-lo. Aceitam a humildade de procurar, de se pôr a caminho, de perguntar, de arriscar…
Cada homem, no íntimo do seu coração, é chamado a procurar Deus: todos nós, temos aquela inquietação e o nosso trabalho consiste em não apagar aquela inquietação, mas deixá-la crescer, pois é a inquietação de procurar Deus; e, com a sua própria graça, pode encontrá-lo.
Queridos irmãos e irmãs, gostaria de convidar todos os homens e mulheres a ir à gruta de Belém para adorar o Filho de Deus feito homem. Cada um de nós se aproxime do presépio que tem em casa ou na igreja, ou noutro lugar, e procure fazer um ato de adoração, intimamente: “Creio que tu és Deus, que este menino é Deus. Por favor, concede-me a graça da humildade para poder compreender isto”.
Esta é a razão da nossa alegria: fomos amados, fomos procurados, o Senhor procura-nos para nos encontrar, para nos amar ainda mais. Este é o motivo da alegria: saber que fomos amados sem qualquer mérito, somos sempre precedidos por Deus no amor, um amor tão concreto que se tornou carne e veio habitar entre nós, naquele Menino que vemos no presépio. Este amor tem um nome e um rosto: Jesus é o nome e o rosto do amor que é o fundamento da nossa alegria.
Papa Francisco in “Audiência Geral (22.12.21)”
Domingo – Sagrada Família
Toda a família é sagrada
A família de Nazaré, nós chamamo-la a Sagrada Família porque toda a família é sagrada. Sagrada porque faz parte do plano de Deus – a família é um instrumento da salvação de Deus na história dos homens. Cada um de nós precisa de uma família, é fruto, é consequência de uma família e é construtor de família. Nesse sentido, a família é um marco onde podemos tatear o plano de Deus, a vontade de Deus, o desígnio salvador de Deus na história. A família não é apenas uma invenção cultural, a família tem uma força, tem uma dignidade, tem um papel que é anterior à própria cultura – porque ela é a raiz da própria vida.
A família é um dinamismo – a família não é uma coisa que existe, não é um mapa. É um engano dizer: “A minha família é uma família tradicional” – não há famílias tradicionais… Nós olhamos para o Presépio, não há famílias tradicionais, há famílias! Há esse chamamento de amor e de encontro… e isso é vivido numa construção permanente. a família é um lugar de ação, é um lugar de construção.
A família é um fazer, a família é uma ação – porque a relação não é uma coisa estável, a relação é alguma coisa que se aprofunda continuamente, que se descobre, que se redescobre, que se trabalha, que se investe, que se qualifica… Isso é a família. Por isso, para nós, a família é uma tarefa. Não é aquilo que nós conhecemos ontem. Não basta o conhecimento de ontem para viver a família, é preciso o amor de hoje, e é preciso o investimento que todos nós somos chamados a fazer na nossa família. E cada um tem um papel.
O outro aspeto da vida da família é a família não se fechar em si mesma, mas ter uma capacidade de acolhimento. Uma família só se reforça se ela não se torna um projeto fechado, se ela não é uma cápsula, mas é de facto uma escola de amor, uma escola de aprendizagem onde se aprende a amar, onde se aprende a abraçar, onde se aprende a respeitar, onde se aprende a ouvir, onde se aprende a cuidar dos outros… é esse lugar de aprendizagem para depois se praticar no mundo – porque não é só a “minha família”… cada um de nós tem muitas famílias: os nossos amigos são também uma família, a nossa comunidade é também uma família, o lugar onde trabalhamos é também uma família, o mundo tem de ser para nós uma família… nós cristãos olhamos para o mundo dizendo que é “a família humana”, e nós temos de facto de levar ao mundo a arte de ser família, a arte de integrar, a arte de compreender, a arte de perdoar, a arte de promover, a arte de dialogar, isso é que temos de levar para o mundo!
José Tolentino Mendonça in “Homilia no Dia da Sagrada Família (30.12.2017)”
Segunda-feira
A proximidade de Deus
O Evangelho abre-se sobre a grande esperança da noite de Natal. O Evangelho conta, de forma surpreendente, e até inacreditável, como Deus age para com a humanidade. Em Jesus, Ele vem pedir a cada um e a cada uma, geração após geração, para participar na sua obra de reconciliação. Então, mesmo nas horas mais sombrias, a promessa do Natal é fonte de encorajamento para os que se comprometem na construção da paz.
No Natal, compreendemos que a paz é um dom de Deus e que, em primeiro lugar, é importante acolhê-lo. Somos chamados a uma verdadeira mudança do coração, voltando-nos para a Criança no presépio. Sem esta mudança no mais profundo de nós mesmos, não há paz verdadeira. Quando celebramos o Natal, Deus faz nascer em nós a paz do coração. Vamos buscá-la à confiança que temos de que Deus ama os homens.
No Natal, celebramos um Deus que se faz próximo, mas não queremos esquecer que, mesmo para nós que somos crentes, Ele permanecerá sempre para lá daquilo que podemos compreender. Abramos generosamente o nosso coração e a nossa inteligência a estas duas dimensões do mistério de Deus: a sua proximidade e a sua transcendência.
Meditar a proximidade de Deus, manifestada no Natal, provocará sempre o espanto. O Verbo fez-se carne. Deus fez-se vulnerável. Deus escolhe revestir a fragilidade humana. Cristo junta-se a nós no mundo, faz-se homem como nós para melhor nos estender a mão. Pela vinda de Jesus, Deus compromete-se a uma verdadeira partilha. Assume a nossa humanidade e, através dela, a nossa própria pessoa.
Ousemos reconhecer, na pequena criança do presépio, a presença de Deus, acolhamos a sua paz e, com ela, a esperança de paz para o mundo inteiro. Deixemo-nos conduzir pela confiança. E assim as nossas vidas podem tornar-se como pequenas luzes de Natal que brilham nas trevas, mesmo se a chama parece por vezes vacilante.
Irmão Alois de Taizé in “Ousar acreditar – a celebração da fé em Taizé”
Terça-feira
Receber para dar
Natal é o maior ato de fé de Deus na humanidade, confiando o Filho unigénito nas mãos de uma jovem, Maria. A comunicação da grande alegria é simples: Deus está em nós. O divino fez-se humano em Jesus de Nazaré. Nele nasceu a luz verdadeira e a única esperança, a fonte das fontes da alegria.
Receber para dar. Dar é o primeiro verbo de um tempo novo. Em todo o Evangelho o verbo amar traduz-se com o verbo dar (não há maior prova de amor, que dar a vida; há mais alegria em dar que receber.) É a lei da vida. Para estar bem o homem deve dar. A criança salvadora do Natal de Belém é o redentor da Páscoa. Esta é a nossa fé. Esta é a fé da Igreja que nos alegramos de anunciar.
Ao Deus feito criança pedimos a alegria da paz para o mundo e para a Igreja, para ser uma comunidade de comunidades. A Ele confiamos também o coração dos que quiserem ser servidores da alegria que a Paz do Natal comunica. Acolhamos a verdadeira luz do mundo na beleza simples do Natal. Esta simplicidade cristã é um ponto de chegada e não um ponto de partida. Todavia, para chegar à beleza simples é necessário partir de Cristo, a alegria da nossa paz.
D. José Cordeiro in “Homilia da Missa da noite de Natal 2012”
Quarta-feira
Escolher a confiança
Onde podemos encontrar a fonte para uma fraternidade universal, no seio da nossa família humana e com toda a criação? As várias tradições espirituais dos povos da terra amadureceram diferentes respostas.
Para os cristãos, é tempo de aprofundar a compreensão da fé. Não para nos pormos à frente ou dizer que temos a resposta para tudo, mas para nos juntarmos com mais eficácia numa procura comum com os que não querem simplesmente submeter-se ao seu destino, mas escolhem empenhar-se nas grandes questões de hoje.
«Rezar e fazer o que é justo». Esta foi, nos terríveis anos da Segunda Guerra Mundial, a intuição do pastor Dietrich Bonhoeffer. Quando esteve preso, refletiu sobre o essencial da vida cristã. No meio da tragédia da guerra, ele ergueu-se. Na escuridão do seu tempo, viu com clareza: “A nossa existência cristã consistirá hoje apenas em duas coisas: em orar e praticar o que é justo entre as pessoas. Qualquer pensar, falar e organizar as coisas do cristianismo tem de renascer desse orar e praticar.”
Como traduzir hoje esta intuição? Cada um poderia dar a sua própria resposta. Em Taizé diríamos: aprofundando a nossa vida interior e a solidariedade ou, com outras palavras, alimentando a nossa vida de oração e alargando as nossas amizades…
Para descobrir nas nossas vidas os sinais da presença de Deus, o testemunho de Dietrich Bonhoeffer pode ajudar-nos. Ele estava muito consciente do mal absoluto que operava no seu tempo, mas um impulso interior permitiu-lhe escolher, como tantos outros até hoje, em situações de extrema violência, a esperança e a confiança em Deus, sem perder a esperança na humanidade.
Nas circunstâncias atuais, também nós podemos escolher a confiança. Somos livres para discernir, no nosso mundo, uma luz com origem noutro lugar. Mesmo quando estamos a passar por uma provação, mesmo quando Deus parece não responder ao nosso clamor, essa luz já está a nascer como a estrela da manhã nos nossos corações (2 Pedro 1,19).
Irmão Alois de Taizé in “Vida interior e solidariedade – Mensagem para 2023”
Quinta-feira – Solenidade de Santa Maria, mãe de Deus
O mistério que nos visita
Cada um de nós tem de investir, tem de dar, tem de se entregar, tem de modificar, tem de se pôr de pé; mas, ao mesmo tempo, tudo é graça, tudo é dado, tudo é dom. A vida é conquista mas também é dádiva, a vida também é um mistério que nos visita, também é a graça que se vem sentar a nosso lado, também é aquilo que nós não sabemos explicar mas que acontece e que muitas vezes é a experiência decisiva, muitas vezes é a epifania e o milagre na nossa vida. A nossa vida avança numa linha reta, mas também é feita de ruturas, de saltos, também é feita disso que só o exercício profundo da confiança nos pode fazer tocar.
Por isso, neste primeiro dia do ano, nós sabemos isto: numa mão temos a força da conquista que temos de fazer, dia a dia, hora a hora, plasmando o tempo, sendo nós os oleiros do tempo; mas a outra mão é a mão que recebe, é a mão que a vida vai encher, onde Deus vai colocar caminhos para vivermos – essa mão que é o milagre, essa mão que nos vai encher o coração de gratidão, essa mão que é o mistério de Deus que vem ao nosso encontro, essa mão que é o amor com que Deus em cada dia de uma forma incondicional nos abençoa. A vida não se resume àquilo que nós podemos fazer, nós precisamos de ser redimidos nesse encontro com o Outro e com todo o outro. É na conjugação, é na rede, é na roda, é na dança que a vida surge, que as coisas mais importantes rebentam, nascem, florescem. Por isso, temos de abrir o nosso coração e sentirmo-nos abençoados. Hoje celebramos a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Maria é para nós um modelo de vida. Aquela rapariga da Galileia tem tanto a ensinar-nos nas atitudes fundamentais da sua vida, na capacidade de dizer “Sim”, um sim a uma história muito maior do que ela e ela abre as portas do seu coração a isso, assumindo que isso tem um custo, que isso se paga também em sofrimento, em compreensão, em solidão – ela assumiu essa história. E depois, a fidelidade que Maria vive em cada momento a essa história. Ela deve muitas vezes ter olhado para Jesus e não ter entendido nada, mas guardava isso no seu coração, guardava imagens, guardava palavras, pedindo a Deus que desse um sentido àquilo que ela via e não entendia, sentindo que tinha ela própria também de fazer um caminho para descobrir Jesus. Maria não é aquela que entende tudo logo. Ela terá feito um caminho duríssimo de compreensão progressiva do mistério de Jesus. É também esse caminho que nós fazemos, um caminho progressivo de compreensão do mistério que nos visita.
José Tolentino Mendonça in “Homilia na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (01.01.2017)”