
“Mas primeiro tive de entender como pode o sol brilhar com este despudor amarelo sobre um mundo em que tu já não estás.” (Inês Pedrosa in Fazes-me falta)
Cinco anos. ✨
Hoje celebramos e agradecemos a vida toda, plena e inteira, do Jorge no meio de nós. Num exercício constante de ressurreição. Numa decisão permanente de continuarmos. Numa resolução constante de fazer as pazes com o que dói.
Sobreviver à morte de quem amamos não implica apenas resistir: impõe transformação. É deixar a ferida abrir espaço para a flor que teima em crescer entre as pedras. Viver depois de se experimentar esta dor não significa ficar à deriva: significa sim aprender a remar e seguir viagem. É decidir viver com um novo tipo de presença. Mais profunda, mais silenciosa. A presença da ausência do Jorge no meio de nós é um sinal de que a sua vida continua na nossa. E esta saudade, sendo partilhada, custa menos.
Há coisas que só quem ama entende: a ausência torna-se presença e aquilo que é o fim pode, afinal, ser o princípio de outra coisa maior que nós. Hoje há novos projetos, novos sonhos, novas mãos a construir o que começou com ele. E o Jorge continua vivo em tudo o que é luz, em cada gargalhada, em cada cântico, em cada passo que continuamos a dar em comunidade.
Jorge. O inventor de futuros. O que ria antes de reclamar, o que rezava antes de escolher, o que confiava no que estava por vir. E é nestas memórias que encontro a eternidade: no riso que fica, na bondade que deu fruto, na fé elevada.
Gosto muito de pensar que o Jorge já percebeu todos os mistérios que nós ainda tentamos decifrar. E que se ri de nós, lá do alto, com aquele ar de quem soube e sabe sempre mais do que devia. Um dia, nesse lugar onde o tempo não conta e o amor não tem pressa, voltar-nos-emos a ver. Para escrever as letras que faltam para as músicas que fizeste. Para pensar em novos temas para o retiro em Soutelo ou para o encontro em Caminha. Para ir comprar terra para os teus vasos ou os ingredientes para o bolo de cenoura. Para pegar no carro e ir até Paray ou Taizé. Para cantar as músicas da Betânia. Para ir “esplanar”. Para ler Virgílio Ferreira.
Cinco anos. E uma vida toda para toda a vida. Sempre.
Ana