Reflexão para o mês de março de 2026
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Não será antes este o jejum que Eu prefiro: quebrar as cadeias injustas, repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres sem abrigo?” (do Livro do Profeta Isaías)

A Quaresma costuma entrar na nossa vida por portas muito pessoais. Pensamos no que vamos deixar, no que vamos acrescentar à oração, no pequeno ou grande sacrifício que queremos assumir. Tudo isso é legítimo e faz parte de uma tradição espiritual muito rica. A questão surge quando, sem darmos conta, reduzimos a esta conversão a um movimento apenas interior, quase privado, como se o caminho para Deus não tivesse consequências visíveis e concretas na forma como habitamos o mundo.
O profeta Isaías transmite uma pergunta muito direta de Deus ao seu povo: “Não será antes este o jejum que Eu prefiro: quebrar as cadeias injustas, repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres sem abrigo?” Esta é uma pergunta que continua a ser desconcertante hoje. Porque nós entendemos facilmente um jejum feito à mesa. Percebemos o esforço de abdicar de certos alimentos, de certos confortos, de certos hábitos. Mas Isaías desloca o centro do jejum para outro lugar: para a justiça, para a partilha, para a atenção concreta a quem vive em necessidade.
O povo a quem Isaías fala também jejuava. Também cumpria práticas religiosas. Também se esforçava por fazer o que era prescrito. E, no entanto, Deus diz-lhes, com uma franqueza que continua atual, que aquele jejum não O satisfaz plenamente. Porquê? Porque pode existir prática religiosa sem verdadeira transformação do coração. Pode existir sacrifício pessoal sem abertura real ao sofrimento dos outros. Pode existir uma vida espiritualmente organizada que, ainda assim, passa ao lado das feridas concretas do mundo.
Isaías não despreza o jejum. Purifica-o. O verdadeiro jejum, diz o profeta, começa a notar-se na forma como tratamos as pessoas, sobretudo as mais frágeis. Começa quando a nossa relação com Deus se traduz em gestos que libertam, que sustentam, que devolvem dignidade. E isto é particularmente exigente no contexto em que vivemos. As desigualdades sociais não são uma realidade distante. Estão presentes nas nossas cidades, nas periferias, nas histórias silenciosas de precariedade, na solidão escondida de muitas pessoas, na dificuldade real de quem trabalha muito e continua a não conseguir viver com dignidade.
O grande risco espiritual do nosso tempo é o da habituação. Ver tantas vezes a mesma ferida até deixar de a sentir. Passar ao lado com uma explicação rápida na cabeça e a consciência aparentemente tranquila. Consolarmo-nos com a ideia de que já fazemos muito ou fazemos o que pudemos. A indiferença não é apenas falta de ação. É um hábito silencioso, quase impercetível e automático, que nos fecha o coração.
Chamados a viver a Quaresma como tempo favorável de conversão, somos convidados a rasgar esta indiferença. O jejum que agrada a Deus não se limita ao que faço por mim, mas manifesta-se na forma como eu respondo àqueles que sofrem. Por outras palavras, a verdadeira conversão começa quando a indiferença é rompida e o coração deixa-se habitar pelo outro. O jejum a que Deus nos chama vai mais fundo do que o prato vazio. Jejuar é abrir espaço em nós para acolher o sofrimento dos irmãos. É deixarmos de nos alimentar do medo, do privilégio e da desculpa. É parar de pedir a Deus que nos escute e começarmos a escutar quem grita ao lado. O jejum que agrada a Deus é inseparável da justiça, da solidariedade e do cuidado concreto com o meu próximo. Jejuar sem atenção ao outro corre o risco de se tornar uma prática vazia. Partilhar sem fé pode ser apenas uma atividade de filantropia.
É importante dizer com clareza: ninguém resolve sozinho problemas estruturais complexos. A desigualdade social tem causas económicas, políticas e culturais profundas. A Quaresma não nos pede heroísmos isolados nem soluções simplistas. O que nos pede é outra coisa, mais exigente e mais realista ao mesmo tempo: que não deixemos o coração acomodar-se à indiferença. O caminho cristão faz-se da tensão fecunda entre interioridade e compromisso e requer que sejamos capazes de rever a forma como habitamos o mundo e como nos situamos perante as desigualdades que vemos. Cada gesto de atenção, cada escolha ética, cada ato de solidariedade é, portanto, um espaço onde a Quaresma se torna realidade viva e onde somos fiéis ao Evangelho.
Talvez a pergunta mais honesta para este tempo quaresmal, à luz de Isaías, não seja apenas: “De que é que eu vou abdicar?”. Talvez a questão precise de ser outra: “Como vou viver de maneira que a minha fé transforme o meu trabalho, as minhas relações, as minhas escolhas e o meu quotidiano em justiça, partilha e cuidado?”.
Viver a Quaresma significa, portanto, despertar da anestesia da indiferença. Pequenas atitudes tornam-se então significativos: ouvir quem ninguém escuta, oferecer tempo e recursos, escolher a justiça nas relações profissionais, educar os filhos no cuidado pelo próximo, tomar decisões de consumo conscientes. Cada gesto é um exercício de transformação que atravessa o coração e se concretiza na vida real.
A Quaresma nunca cabe inteira nas nossas listas de propósitos. Ela começa, sim, no silêncio do coração, mas recusa ficar lá fechada. A conversão verdadeira tem sempre uma porta aberta para fora, para os outros. A Quaresma não nos pede que salvemos o mundo; pede-nos que não passemos ao lado dele. Que não nos habituemos ao que fere. Que não façamos da indiferença um lugar confortável para a consciência descansar. E, assim, quando chegarmos ao fim deste caminho quaresmal, poderemos descobrir que o verdadeiro jejum não nos esvaziou, mas tornou-nos mais humanos. E é nesse lugar, tão simples e tão exigente, que Deus deseja encontrar-nos.



















