Mensagem para a Quaresma 2026
Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

A Quaresma é uma oficina temporal. Não é um peso extra nos dias, mas sim um espaço aberto dentro deles. É um intervalo onde Deus só nos pede disponibilidade e permanência.
A Quaresma não é uma corrida de sacrifícios nem uma coleção de renúncias bem-sucedidas. Também não é um teste de força espiritual. É antes um treino de disponibilidade, onde não medimos o que somos capazes de fazer, mas sim o que permitimos que Deus faça em nós.
A Quaresma começa, muitas vezes, com listas: o que vou cortar, o que vou fazer, o que vou cumprir. Mas Deus começa num outro lugar. Começa no espaço interior onde ainda não sabemos bem como mudar, apenas sabemos que precisamos. O deserto quaresmal que atravessamos nestes quarenta dias não é sinónimo de ausência, é sinal de simplificação. Ajuda-nos a retirar o excesso para revelar o que é essencial.
A Quaresma pede-nos conversão. E a conversão é uma transformação. Deixar-se transformar é consentir que Deus trabalhe no invisível, como fermento na massa, como seiva no tronco, como a luz antes da madrugada. A conversão é um convite em aberto para que a mente, tantas vezes cansada de ruídos, de opiniões, de defesas e de comparações, reaprenda a ver com simplicidade, a amar sem julgamentos, a acreditar sem medos. Talvez o maior obstáculo que experimentamos seja o das narrativas interiores que já não questionamos: “eu sou assim”; “já não consigo”; “não vale a pena tentar”. A transformação interior começa quando estas frases perdem autoridade, quando deixamos de as tratar como destino e apenas as aceitamos como provisórias. Deixar-se transformar é permitir que Deus nos ame para além da imagem que defendemos de nós próprios. É acreditar que Ele vê possibilidades onde nós vemos limites, futuro onde nós vemos repetição, vida onde nós vemos desgaste. Converter-se não é rejeitar quem fomos, é antes permitir que não sejamos apenas isso e dar permissão a Deus para rever significados, curar memórias, desalojar ideias antigas sobre quem somos e o que valemos.
Quaresma. Uma oficina de transformação. O lugar escondido onde Deus trabalha. Onde Ele ajusta intenções e endireita desejos. Onde Ele amacia durezas e acende pequenas luzes onde parecia só existir escuridão. Onde Ele labuta na intenção e se assume como artesão paciente.
Quaresma. Uma oficina de renovação. O espaço onde Deus não nos tira a nossa identidade, mas devolve-a. O tempo onde Deus fortalece o que somos chamados a ser. O lugar onde Deus já habita e nos ama.
Nesta Quaresma, não procuremos a melhor versão de nós próprios. Procuremos, antes, um coração atento e ofereçamo-nos por inteiro. E Deus trabalha a partir daqui. Que esta Quaresma não termine numa meta de perfeição, mas numa disponibilidade nova: deixar que a transformação continue para lá do calendário e nos tornemos mais inteiros e mais habitados por Deus, essa presença operante.