Arquivo mensal: Novembro 2025

Quantas graças cabem numa semana?

Quantas alegrias deixamos que ocupem o nosso coração? Quantos caminhos nos conduzem a uma vida de gratidão? Durante esta semana que ontem terminou, estas questões foram a minha companhia. Há semanas que se medem em dias. E há outras que se medem em graças. Esta foi uma dessas — uma semana onde o tempo pareceu abrir-se em mil gestos de Deus.

Deus faz sempre realmente muito mais do que aquilo que nós esperamos. Nesta mesma semana, há cinco anos, o Jorge tinha acabado de partir e, consequentemente, outras perguntas invadiam-nos o coração e o corpo: “E agora? Como continuamos daqui para a frente? Como vamos viver todos os próximos anos sem ele? Quem nos vai orientar, ter ideias, entusiasmar? O que vamos fazer?”. Na altura e nos dias e meses seguintes, não encontrei respostas. Mas, sem saber o que aconteceria depois, fomos continuando este caminho. Sem mapas, mas sempre com confiança. E assim as respostas foram chegando ao longo dos tempos que se seguiram. Em forma de um momento de oração comunitário que se iniciou, de um renovado projeto de formação cristã de adultos, de ensaios que se consolidaram, de um retorno às animações das Eucaristias, de novos caminhos e caminhantes que têm surgido nesta nossa Estrada… E essas respostas também nos chegam através dos aniversários que continuamos a celebrar, da vida de cada um que persistimos em agradecer, dos abraços multiplicados e dos risos dobrados em fé e irmandade. Chegam também em novas formas de missão na nossa comunidade e que são oportunidades felizes e fecundas de vivermos ainda mais este nosso compromisso de uma vida toda para toda a vida em Igreja.

“Todos somos precisos porque todos somos preciosos.” Esta belíssima frase foi dita hoje pelo nosso querido amigo e pároco e veio fechar, com chave de ouro, esta semana tão rica que nos foi dada viver. As fotografias que aqui partilhamos são o espelho desta vida que nos acontece. E mostram a certeza que, afinal, numa só semana pode caber o Céu inteiro e que esta vida tão rica em projetos e missão comunitária é aquela que é vivida sempre na dádiva e no encontro, connosco, com os outros e com o Outro.

Ana

4 anos de Encontro em TI

Há quatro anos, vimos nascer um sonho que já vivia no nosso coração há muito tempo — um momento de oração comunitária a que demos o nome de “Encontro em TI”, título este de um dos nossos cânticos mais bonitos. Esta ideia, que durante anos foi também sonhada e rezada pelo Jorge, encontrou finalmente forma precisamente um ano depois da sua morte. E, talvez por isso, este encontro tenha sempre consigo um significado tão profundo desde a sua origem: nasceu do amor, da fé e da vontade em continuar a fazer caminho.

O “Encontro em Ti” surgiu como resposta a um desejo antigo de criar um espaço de oração comunitária, diferente, único, próximo e autêntico — um tempo e um espaço em comum onde a fé se pudesse viver em simplicidade e verdade. Não se tratava apenas de reunir pessoas, mas de proporcionar um encontro vivo com Deus, onde cada um pudesse sentir-se acolhido e amado, independentemente do seu caminho.

Desde o primeiro momento, o “Encontro em Ti” tem mostrado a sua originalidade e força interior. A música, a oração partilhada, o silêncio que fala ao coração, os gestos simbólicos e as palavras simples — tudo isto foi ganhando corpo e alma, tornando-se num verdadeiro ponto de luz na caminhada da Comunidade Estrada Clara.

Hoje, celebrar quatro anos deste “Encontro em Ti” é muito mais do que assinalar uma data. É reconhecer a fidelidade de Deus, que transforma tudo em vida nova e a vontade em missão. É agradecer por todos os que disseram “sim”, por quem acredita connosco, por quem reza e trabalha para que cada encontro seja sinal do amor de Deus em nós.

“Encontro em Ti” é um testemunho de que Deus faz nascer vida onde parecia haver silêncio, e que os sonhos nascidos no coração — mesmo quando parecem adormecidos — florescem no tempo certo. Que este encontro continue a ser um espaço de comunhão e de presença na nossa comunidade.

Ofertório

Reflexão para o mês de novembro de 2025

“Todos esses deram do que lhes sobrava, mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver.” (do Evangelho segundo São Lucas)

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Esta fotografia foi tirada ontem na celebração do V aniversário do falecimento do Jorge. Olho para nós e vejo futuro, vida e caminho. Cinco anos depois, continuamos a viver a nossa Ressurreição aqui na terra. Continuamos nesta festa eterna e a descobrir novas alegrias uns nos outros e uns com os outros. Continuamos a escolher sermos dádiva e a deixar que a gratidão seja sempre maior que qualquer tristeza ou desesperança.

Há momentos em que a vida se torna canção. Uma canção que nasce do amor e do tempo, da partilha e da fidelidade. Connosco estes momentos acontecem quando nos juntamos para rezar a cantar, em particular nas eucaristias em que cantamos. Ali, entre notas, alguns risos e silêncios, vivemos algo mais do que música: vivemos a oferenda. E o amor a fazer-se som coletivo. Ali, damos o que somos e deixamo-nos cantar uns com os outros, oferecendo a vida como quem oferece uma melodia — sabendo que não somos os únicos a compô-la. E assim fazemos da nossa existência um coro, uma oração que se oferece. Um encontro que faz da música oração, um diálogo de amor que se transforma em comunhão. Um ofertório.

Há um altar que se levanta dentro de cada um de nós. Não é de pedra, nem de ouro — mas de tempo, de silêncio e de desejo. E é aí, nesse espaço escondido e frágil, que se realiza o verdadeiro ofertório da vida. Cada vida tem o seu altar e cada gesto pode ser uma oferenda. Não são precisos grandes feitos, só um coração inteiro e disponível para se dar. Cada dia pode ser uma liturgia. Cada gesto, um altar. O sorriso que se oferece a quem já perdeu a esperança, a palavra que se cala para que o outro fale, o perdão que rasga o véu do orgulho, o tempo que demos a alguém — tudo isso é pão e vinho do coração, matéria sagrada que Deus acolhe e transforma.

Há muitos altares no nosso quotidiano: a cozinha onde se prepara uma refeição com cuidado, o quarto onde se vela uma noite de doença, a sala onde se escuta alguém sem pressa, o local de trabalho onde se procura ser justo e honesto. Em todos esses lugares, o Espírito celebra discretamente a sua liturgia. Por isso, ofertório não é apenas o momento em que o pão e o vinho são levados ao altar — é o movimento escondido de toda a vida que se oferece. É quando o coração, cansado ou confiante, se volta para Deus e diz: “Tudo o que tenho e tudo o que sou, é Teu.”

Ofertar é um exercício diário de confiança. É acreditar que, mesmo quando o que damos parece insignificante, Deus transforma-o e o multiplica-o. É viver com o coração aberto, sabendo que o amor nunca se perde, que a entrega nunca é em vão. O ofertório é o lugar onde deixamos de ser donos e nos tornamos filhos. Onde deixamos de controlar e aprendemos a confiar. Onde o nosso fazer se encontra com o fazer de Deus. O menino dos cinco pães e dois peixes não sabia que o seu pequeno gesto seria milagre. Ofereceu o pouco que tinha e Jesus multiplicou-o. Assim acontece connosco: o ofertório é o lugar onde o impossível se torna fecundo.

Por isso, o ofertório não é um ato isolado, mas uma forma de viver. É dar graças em cada manhã, é oferecer o trabalho como oração, é consolar como quem partilha o próprio coração, é carregar a cruz sem perder a esperança da ressurreição. E quando, no fim do dia, recolhermos o que resta — as alegrias, as falhas, os gestos pequenos —podemos voltar a dizer, como Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra.” Porque a vida cristã é, toda ela, um grande ofertório. E quem se oferece, deixa Deus fazer de si milagre.

O ofertório não é só dar, é também deixar-se dar. É permitir que a nossa vida se torne um dom, mesmo nas suas fragilidades. Porque o que é oferecido com amor nunca se perde. No fundo, é aí que se encontra o propósito: no gesto simples que se entrega, no sim repetido todos os dias, na alegria de saber que, quando nos damos, é o próprio Deus que passa por nós.

Jesus mostrou-nos o caminho: Ele que Se fez oferta total, corpo entregue e sangue derramado, ensinou-nos que o amor só é verdadeiro quando se faz entrega. A sua vida oferecida é a medida de todo o amor verdadeiro. E cada vez que participamos na Eucaristia, somos chamados a fazer o mesmo: a deixar que a nossa vida se transforme em dom, a permitir que o que somos se torne presença de Deus no mundo. E, como no final de cada Eucaristia, o amor que se dá não termina no cântico final – prolonga-se nos corações que o escutam. Assim também a vida: quando é vivida como oferenda, torna-se melodia que Deus reconhece como Sua. Porque o Amor, quando é oferecido, tem sempre um eco divino. O cristão é aquele que vive neste ofertório constante: entre o que recebe e dá, entre o dom e a resposta.

Voltemos à canção. Deus faz das nossas vidas uma partitura e convida-nos a tocá-la com o que somos. Cada um com o seu ritmo único, o seu instrumento pessoal. E o mais extraordinário é que, mesmo quando nos enganamos na nota, Ele continua a compor connosco, pacientemente, até que o nosso som se torne oração. E talvez aqui esteja a beleza da nossa criação: perceber que o ofertório é aquela nossa canção que não tem fim. Cada dia acrescenta um verso, cada pessoa um novo timbre. E Deus, silencioso maestro, recolhe tudo – o riso e o pranto, a alegria e a dor – e faz dele a sinfonia que somos. Que a possamos escutar com o coração que somos, sempre.

Cinco anos

“Mas primeiro tive de entender como pode o sol brilhar com este despudor amarelo sobre um mundo em que tu já não estás.” (Inês Pedrosa in Fazes-me falta)

Cinco anos. ✨

Hoje celebramos e agradecemos a vida toda, plena e inteira, do Jorge no meio de nós. Num exercício constante de ressurreição. Numa decisão permanente de continuarmos. Numa resolução constante de fazer as pazes com o que dói.

Sobreviver à morte de quem amamos não implica apenas resistir: impõe transformação. É deixar a ferida abrir espaço para a flor que teima em crescer entre as pedras. Viver depois de se experimentar esta dor não significa ficar à deriva: significa sim aprender a remar e seguir viagem. É decidir viver com um novo tipo de presença. Mais profunda, mais silenciosa. A presença da ausência do Jorge no meio de nós é um sinal de que a sua vida continua na nossa. E esta saudade, sendo partilhada, custa menos.

Há coisas que só quem ama entende: a ausência torna-se presença e aquilo que é o fim pode, afinal, ser o princípio de outra coisa maior que nós. Hoje há novos projetos, novos sonhos, novas mãos a construir o que começou com ele. E o Jorge continua vivo em tudo o que é luz, em cada gargalhada, em cada cântico, em cada passo que continuamos a dar em comunidade.

Jorge. O inventor de futuros. O que ria antes de reclamar, o que rezava antes de escolher, o que confiava no que estava por vir. E é nestas memórias que encontro a eternidade: no riso que fica, na bondade que deu fruto, na fé elevada.

Gosto muito de pensar que o Jorge já percebeu todos os mistérios que nós ainda tentamos decifrar. E que se ri de nós, lá do alto, com aquele ar de quem soube e sabe sempre mais do que devia. Um dia, nesse lugar onde o tempo não conta e o amor não tem pressa, voltar-nos-emos a ver. Para escrever as letras que faltam para as músicas que fizeste. Para pensar em novos temas para o retiro em Soutelo ou para o encontro em Caminha. Para ir comprar terra para os teus vasos ou os ingredientes para o bolo de cenoura. Para pegar no carro e ir até Paray ou Taizé. Para cantar as músicas da Betânia. Para ir “esplanar”. Para ler Virgílio Ferreira.

Cinco anos. E uma vida toda para toda a vida. Sempre.

Ana