Oração ao Tempo

Reflexão para o mês de fevereiro de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Neste mundo, tudo tem a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio.” (do Livro do Eclesiastes)

Sempre gostei muito do “Poema do Tempo” que vem no livro bíblico do Eclesiastes. Sabia que, um dia, haveria de escrever um texto sobre esta bela passagem que nos expõe, com simplicidade e delicadeza, ao conceito do tempo como uma arte singular. Acontece também que, por estes dias, foi tornado público o dueto que une Caetano Veloso e António Zambujo com a lindíssima canção “Oração ao Tempo”, um tema original do próprio Caetano, tema este escrito, curiosamente (ou não!) em 1979 (ano do meu nascimento!). Portanto, impelida por tantos sinais, percebi que era chegado o tempo próprio de refletir sobre… o próprio do tempo!

Somos feitos de tempos, de idades, de estações. Somos moldados e transformados pelo tempo que vai fluindo e emergindo em nós e nos outros. Ao mesmo tempo, vivemos uma relação tensa com o tempo. Queremo-lo rápido quando dói, lento quando é feliz, previsível quando nos assusta. Habitamos uma época que tem muitas dificuldades em esperar. A rapidez tornou-se critério de valor e a lentidão é frequentemente confundida com fracasso. Usamos e abusamos daquele ditado antigo que nos diz que o tempo voa. Por causa disto, consumimos desenfreadamente, sem saborear a própria vida que cheia está de detalhes que não se revelam a quem não seja sensível ao tempo. Dizemos inúmeras vezes que não temos tempo e outras tantas vezes damos por nós aborrecidos com o tempo que nos sobra. Que tenho eu feito, afinal, deste tempo que me é dado? Como posso eu ser instrumento deste tempo que me habita? Quem sou eu neste tempo da minha história?

Este poema bíblico ao Tempo reconhece a ambiguidade do próprio tempo e não nega a sua complexidade. De uma forma clara, enfatiza, em cada verso, que “tudo tem o seu tempo”, isto é, um tempo próprio, um “kairós”, um tempo oportuno que, muitas vezes, não coincide necessariamente com a nossa urgência interior. E é precisamente aqui que a fé que escolhemos assume uma importância vital. Deus nunca é indiferente à nossa história e acreditar nisto é viver o tempo com o coração no lugar certo.

Diz-nos o autor sagrado que há um tempo para construir e para destruir, para chorar e para dançar, para guardar silêncio e para falar. A vida não se move numa linha reta de progresso contínuo, mas num ritmo feito de avanços e recuos, de luz e de sombra. E Deus não está ausente de nenhum desses momentos. Na perspetiva cristã, o tempo deixa de ser apenas sucessão para se tornar, acima de tudo, relação. Deixa de ser apenas cronologia para se tornar história da salvação. Deus também entra no tempo. Faz-Se criança, cresce, espera, cansa-Se, sofre. Ao fazê-lo, santifica cada etapa da vida humana. Nada fica fora: nem os começos confusos, nem os meios cansados, nem os fins que carregam medo. Deus age dentro do tempo. A encarnação é, sem dúvida, a maior declaração de confiança no tempo humano.

Há um tempo para procurar e um tempo para perder. E perder também é parte do caminho espiritual, ainda que nos custe, tantas vezes, admiti-lo. Perdem-se certezas, imagens de Deus demasiado perfeitas e inatingíveis, projetos que julgávamos definitivos. Mas, muitas vezes, é precisamente nessas perdas que se abre espaço para uma fé menos ingénua e mais verdadeira, mais adulta e inteira.

Há um tempo para chorar e um tempo para rir. A fé não nos pede que saltemos etapas emocionais em nome de uma espiritualidade mal entendida. Jesus chorou. Esperou. Angustiou-Se. O tempo da fragilidade também é tempo habitado por Deus. E alegria que experimentamos é fruto de um sim para uma vida maior.

Talvez o maior desafio seja aceitar que nem todos os tempos são produtivos. Há tempos estéreis, aparentemente inúteis, onde nada parece avançar. Mas a lógica do Reino não é jamais a da eficiência. É sempre a da fidelidade. Permanecer, mesmo quando não se vê fruto, também é oração. A nossa relação com o tempo põe em evidência a nossa impaciência espiritual. Queremos compreender antes de viver, resolver antes de atravessar, fechar capítulos antes de os termos lido até ao fim. Mas a fé amadurece no intervalo, nesse espaço desconfortável onde ainda não se vê claramente e, mesmo assim, se continua a caminhar em confiança. A fé não nos protege do imprevisível e das dificuldades, mas oferece-nos uma forma diferente de os habitar. “O tempo de Deus” não é mágico nem irreal. Acontece no quotidiano, no que se passa entre o que desejamos e o que conseguimos viver. Acontece quando, apesar da impaciência, escolhemos confiar. Quando deixamos de perguntar “quando é que isto passa?” e começamos, timidamente, a perguntar “o que é que isto me pede?”.

Oração ao Tempo. Rezar o tempo é aprender a entregá-lo. É vivê-lo como lugar de encontro, não o desperdiçando com medo do futuro nem com a nostalgia do passado. Oração ao Tempo. Se tudo tem o seu tempo, então este agora, com as suas perguntas, limites e possibilidades, é também o tempo de Deus na nossa história. Procuremos uma reconciliação profunda com o tempo para podermos ver cada dia como uma epifania de Deus. A nossa vida está cheia deste tempo. Tratemos dele como quem cuida de um tesouro e vivámo-lo com gratidão e esperança. Cantemos este tempo, celebremos a experiência única e irrepetível da nossa temporalidade.

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