A reflexão de uma das mulheres que seguia Jesus
(a partir do Evangelho do Domingo de Ramos – Lc 19, 28-40)
“Nunca vi Jerusalém assim. As ruas cheias, não apenas de gente, mas de expectativa. Como se todos estivessem à espera de algo, mesmo sem saber bem o quê. Havia ramos nas mãos, vozes levantadas, crianças a correr, mantos estendidos no chão. E, no meio de tudo isso, Ele.
Ouvia os gritos: “Hossana ao Filho de David!” Cantavam como se estivessem a coroar um rei. E, por um instante, deixei-me levar por aquela euforia. Era impossível não o fazer. Depois de tudo o que tínhamos vivido com os milagres, os encontros, as palavras que nos mudaram por dentro, parecia justo que, finalmente, alguém O reconhecesse.
Mas havia algo que não estava bem. Enquanto todos olhavam para Ele como um rei, o seu olhar não era o de quem chega ao lugar que sempre quis. Era um outro olhar. Um olhar que atravessava a cidade como se a visse ao longe. Como se, por detrás dos ramos e das vozes, já estivesse a contemplar outra situação… mais dura, mais impactante.
Aproximei-me um pouco mais. O jumento avançava devagar, contrastando com a agitação à volta. E Ele deixava-se conduzir assim, sem pressa, sem resistência. Então, nesse momento, lembrei-me de outras palavras que tínhamos escutado pelo caminho. Palavras sobre entrega, sobre rejeição, sobre um fim que não parecia vitória. Palavras que não compreendemos totalmente e que, agora, voltavam ao meu espírito e me inquietavam. Talvez, por isso, a minha alegria não era inteira. Era verdadeira, mas trazia com ela uma preocupação que eu não sabia explicar.
Olhei para os ramos espalhados no chão. Tão verdes. Tão vivos. Pensei como era estranho que o caminho de um rei fosse feito de folhas que amanhã já estariam secas. Talvez seja sempre assim com Deus. Nós celebramos o momento. Ele vê sempre o caminho por inteiro.
A multidão continuava a gritar. Eu também levantei o meu ramo. Dentro de mim, havia apenas uma certeza que não sabia ainda nomear. A certeza de que aquele caminho não se fazia de aplausos efémeros, mas de escolhas e de permanência.”
🖋 Ana Luísa Marafona
