A reflexão de Marta, irmã de Lázaro
(a partir do Evangelho do dia – Jo 12, 1-11)
“A casa estava cheia de gente, de vozes, de vida. Ainda me custa acreditar que Lázaro está novamente sentado à mesa. Às vezes, passo por ele e preciso de olhar duas vezes. Ainda há poucos dias chorávamos a sua morte! Agora ele está aqui como se o túmulo tivesse sido apenas um pesadelo.
Hoje cozinhei com ainda mais cuidado. Gosto de preparar a mesa, de ver se nada falta, de garantir que todos têm lugar. É a minha maneira de agradecer, de amar.
Enquanto levava os pratos, observava: Lázaro conversava com alguns dos discípulos; Jesus escutava, com aquele olhar que parece sempre mais profundo do que as palavras; Maria estava sentada perto dele em silêncio. De repente, ouvi o som do frasco a abrir. Levantei os olhos a tempo de ver Maria inclinar-se sobre os pés de Jesus. O perfume espalhou-se pela casa inteira. Um aroma forte, quase exagerado, e tão intenso que interrompeu todas as conversas. Conheço Maria. Ela não sabe amar pela metade. Ouvi murmúrios. Judas falou de desperdício. Alguns concordaram em silêncio. Talvez até eu própria, em outros tempos, tivesse pensado o mesmo. Afinal, sei bem quanto custa ganhar o pão de cada dia.
Mas depois olhei para Jesus. Ele não parecia incomodado. Havia no seu rosto uma gratidão silenciosa, mas também uma tristeza que não sei explicar. Então percebi algo. Enquanto eu preparava a mesa para celebrar a vida de Lázaro, Maria tinha percebido que outra coisa estava a acontecer. Algo mais profundo. Algo que se aproximava. Eu organizava a casa. Ela preparava o coração. E Jesus acolhia os dois gestos. Talvez seja isto que ainda estou a aprender: que o amor tem muitas formas. Às vezes, é servir a mesa com cuidado. Outras vezes, é quebrar um frasco de perfume sem fazer contas.
Hoje, enquanto arrumava, o cheiro do perfume ainda enchia todas as salas. E pensei que o amor verdadeiro é assim. Espalha-se pela casa inteira. Permanece no ar muito depois do gesto. E lembra-nos que, quando Jesus se senta à nossa mesa, nunca nenhum gesto de amor é exagerado.”
🖋 Ana Luísa Marafona
