Um texto de gratidão

Um texto de gratidão. A todos, por todos e para todos. O que vivemos esta semana contrastou com as intempéries climatéricas que têm assolado o nosso país. Enquanto no exterior temos enfrentado vento e chuva, no interior da nossa Comunidade fomos alegria e partilha. Como tantas vezes temos dito, este contraste não acontece por acaso. Uma vida com significado não é uma vida ao acaso, ela acontece para ser olhada e acontecida em nós e assim assumida na sua totalidade. Numa semana de memórias e de saudade, de percalços e de ausências, escolhemos não habitar nessa zona de perda e dar o salto, simultaneamente confiante e imprevisível, que nos leva ao outro lado, ao espaço da alegria, da dor que é trabalhada para dar fruto, da comunhão de vida com quem connosco caminha.

No dia 1 de novembro, lembramos a vida do Jorge nas nossas vidas numa festa que, para nós cristãos, é a maior de todas – a Eucaristia. A festa que o Jorge gostaria que lhe fizéssemos! A festa do encontro, da partilha, das palavras cantadas, da música tocada, dos abraços e dos braços no ar, na igreja que foi o seu coração durante a sua vida toda. Este é nosso lugar de pertença, de crescimento, de doação. “Esta é a geração dos que procuram a vossa face, Senhor”, cantávamos nesse dia no salmo, uma das mais belas músicas feitas pelo Jorge. Esta geração somos nós, os que seguimos. Aceitando os obstáculos e dando as mãos para os enfrentar, cantando e rindo quando tantas vezes as lágrimas nos caem. Que alegria sermos esta geração que caminha em comunidade, tal como sempre foi o desejo do Jorge!

Na quinta-feira, celebramos o 2.º aniversário do “Encontro em TI”, a nossa oração comunitária mensal na Igreja Matriz. Um sonho nosso antigo, este o de levar a nossa forma de orar para a comunidade e, assim, rezarmos juntos com a música, as palavras, o silêncio. No final, levamos esta partilha para a volta da mesa com quem, numa noite ventosa, se juntou a nós. E que convívio tão genuíno, tão simples e tão agradável, como é tudo aquilo que verdadeiramente importa!

Este é um texto de profunda gratidão. Como diria o Jorge, esta semana foi “uma riqueza”! Obrigada a vós que caminhais connosco nesta Estrada Clara! Seguimos juntos!

Celebramos a VIDA!

Hoje celebramos a VIDA do Jorge, não a morte. Festejemos e cantemos! Se possível, dancemos também e abracemo-nos em risos cheios da alegria que nasce de quem se sabe irmão. O Jorge é festa em nós e hoje somos nós essa festa que ele continua a fazer nas nossas vidas. Por isso, hoje celebramos!

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a ensaiar, a querer colocar as nossas vozes no sítio correto, a confiar que cada Eucaristia cantada se multiplica em Amor doado.

Celebramos a vida do Jorge quando pelas nossas palavras e gestos anunciamos um Deus que nos ama e nos faz ser aquela luz que ilumina a escuridão e que dela nos salva.

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a fazer das nossas fragilidades força, das nossas lágrimas risos, dos nossos medos coragem.

Celebramos a vida do Jorge quando somos mais do que os horários, do que as carreiras, do que as desculpas usadas para não estar, não ir, não fazer.

Celebramos a vida do Jorge quando o conjugamos neste tempo presente que é o indicativo de um caminho comunitário de uma vida orante e pensante.

Celebramos a vida do Jorge quando nos continuamos a juntar em volta da mesa para comermos juntos, para partilharmos histórias, para sonharmos projetos.

Celebramos a vida do Jorge quando somos casa uns para os outros, quando continuamos a conversar durante horas sobre o que nos inquieta e nos incomoda, quando pertencemos à vida uns dos outros.

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a escolher a confiança e o acolhimento mesmo quando são opções tão desafiantes.

Celebramos a vida do Jorge porque ele está vivo! Vivo em mim, em ti! É esta a nossa escolha, mais forte do que qualquer morte, mais poderosa do que qualquer dor, mais vitoriosa do que qualquer separação.

Por isso, hoje há festa! Vamos rir e dizer aquelas piadas nossas e tão cheias do que somos. Afinemos as guitarras, preparemos as vozes, usemos roupas bonitas, dancemos e batamos palmas. A festa que o Jorge queria que lhe fizéssemos é aquela que celebramos juntos como comunidade orante. Aquela festa que foi a sua vida toda durante mais de trinta anos, na sua paróquia. Então, venham celebrar connosco! Hoje, às 19h, na Matriz! Viva o Jorge!

Ana

Estradas Partilhadas – Encontro 1

No passado domingo, retomamos os nossos encontros de formação para consumo interno. Já há muito que gostaríamos que estes encontros tivessem acontecido, mas por vários e variados motivos, foram sendo adiados, aguardando um tempo mais favorável. E numa semana marcada por inícios e fins, por partidas e chegadas, eis-nos a viver estes encontros aos quais demos o nome de “Estradas Partilhadas” e que acontecerão uma vez por mês, num domingo à tarde. E nem nós sabíamos o quanto precisávamos destes encontros! Uma comunidade que vive e que se pretende viva precisa de se encontrar, de se despojar das atividades exteriores e de se centrar e sentar para só estar. Uma comunidade que se quer orante e pensante necessita de saber ouvir e cultivar a partilha. Uma comunidade que quer ser luz nas estradas por onde vai carece de tempo e de espaço para um diálogo íntimo e para a observação comum da vida. Estas “Estradas Partilhadas” são, para nós, um momento de partilha, de escuta, de descoberta, tendo sempre por base a confiança e a alegria que nos faz cúmplices nesta nossa irmandade. Nestes encontros, a partir de um texto, de uma frase, de um filme, de uma música, de um acontecimento, é feita uma partilha de vida entre todos os elementos presentes. Durante duas horas, fomos donos de um tempo e de um espaço para sermos juntos. Neste primeiro encontro, mergulhamos num texto do padre Nuno Tovar de Lemos, “O peixe e o mar”, e a conversa fluiu rica e tranquilamente. Falamos de nós enquanto pessoas, das nossas experiências de vida vividas à superfície e na profundidade, da relação com as escolhas nossas de cada dia, das certezas e das dúvidas que acumulamos nas nossas estradas e da nossa construção pessoal e comunitária. E quão bonitas e luminosas foram estas partilhas! Que alegria sentimos em cada palavra dada, em cada sorriso amigo, em cada gesto confiante! Não há nada mais rico do que a riqueza de podermos ser esta comunidade familiar que sente, vive, ri, chora, pensa e faz. E não há nada mais saudável do que proporcionarmos, uns aos outros, estes espaços e estes tempos para que, juntos, nos façamos mais pessoas, mais cristãos, mais humanidade. Seguimos nesta Estrada Clara!

Testemunhos – Formação Cristã de Adultos 2022/2023

Deixamos aqui registados os testemunhos de alguns elementos da Formação Cristã de Adultos 2022/2023, que fizeram connosco este percurso de educação e de partilha na fé. De outubro de 2022 a junho de 2023, às sextas-feiras, das 21h30 às 23h, na paróquia da Matriz (Póvoa de Varzim), estes jovens adultos fizeram o seu percurso na descoberta de um Deus que está sempre disponível para quem o quer acolher, construindo assim o início de uma fé adulta, pensada e experimentada, concreta, vivida em ações, participada no quotidiano e celebrada sempre em comunidade. Com estes testemunhos verdadeiros e genuínos, queremos partilhar convosco a alegria que é para nós, Comunidade Estrada Clara, sabermos que este desejo de Deus tão próprio do ser humano está e continua presente em quem O procura e nós, Comunidade, somos infinitamente mais felizes por podermos proporcionar este tempo e este espaço de partilha, de descoberta e de interiorização. Um bem-haja a todos vós, queridos formandos!

É muito simples de explicar o laço forte criado entre adultos que em Outubro não se conheciam e teriam muitas outras coisas a fazer nas suas noites de sexta: a Comunidade Estrada Clara proporcionou-nos um belo espaço de formação, reflexão e debate, ora sobre os profetas do Antigo Testamento, ora sobre as parábolas de Jesus, para além de temas abertos que nos mostram como ser cristão na sociedade moderna.

Toda a dedicação e profissionalismo da Ana, da Beatriz, da Sofia e do Carlos, ao que se iam juntando as intervenções dos próprios participantes, fizeram destes momentos um agradável espaço de aprendizagem cristã, bem longe da memorização de fórmulas que as pessoas possam associar a qualquer catequese menos conseguida.

Uma iniciativa assim fazia e faz muita falta e espero que, como o pequenino grão de mostarda, seja espalhado por várias gerações e por muitos outros lugares e ajude a robustecer os nossos tecidos sociais que por vezes nos parecem irremediavelmente fragmentados. São um soberbo exemplo das comunidades criativas que Bento XVI imaginou como o futuro do cristianismo no novo século.

Obrigado por tudo!

Toda a minha vida procurei por mim, pois tive momentos em que duvidei de mim própria. Momentos altos e baixos. Momentos em que perdi tanto, momentos em que a vida me presenteou com algo surpreendente. No fundo do meu coração eu sabia que Deus estaria a olhar para mim, pois só assim consegui superar os momentos mais difíceis. Ainda hoje não sei onde consegui forças para ultrapassar os desafios. Quando me foi dada a oportunidade de participar da formação cristã para adultos, não pensei duas vezes, tinha chegado o momento de entrega que há muito eu queria. Foram momentos fantásticos que passei na companhia deste grupo fantástico, aliás encontrei-me e finalmente posso dizer que encontrei a minha segunda casa, agora que fui descobrindo que ser cristão é muito mais do que eu pensava, afinal não basta dizer “sou cristão”. Quero continuar a participar desta comunidade de forma direta, pois apesar de tudo ainda tenho muito para aprender e quero muito continuar a aprender.
Obrigada a todos vocês que estiveram presentes nesta jornada!

Adorei frequentar esta formação, sem dúvida recomendo esta experiência! Para além de aprendermos bem mais sobre a igreja, Deus, Jesus e enriquecermos o nosso conhecimento como cristãos, também desenvolvemos um espírito crítico e percebemos que, mesmo nós cristãos, temos o direito de questionar certas coisas e entender o real motivo por detrás delas. Esta formação retira todo o tipo de tabus ou ideias fixas das quais a sociedade está normalmente repleta, a igreja não é um sítio para velhos e é muito mais do que uma simples missa. O facto de cada vez mais jovens se interessarem por atividades na igreja, desde o canto às leituras, mostra que a Igreja é meramente um sítio onde nos sentimos em casa, onde nos sentimos acolhidos, pois todos que lá frequentam acreditam no mesmo. Esta experiência fez- me abrir os olhos para quebrar essas ideias e entender muitas coisas que tinha curiosidade! Adorei o formato das formações onde muitas vezes discutíamos assuntos comuns da sociedade e bastante interessantes! Para quem tiver um bichinho de curiosidade e quiser aprofundar a sua fé, recomendo definitivamente!

Se hoje estamos casados pela Igreja, a vós, Ana Luísa, Beatriz e Paróquia da Matriz o devemos e humildemente agradecemos, pois sem este projeto da Formação Cristã de Adultos Online, a vossa dedicação e entrega, tal não seria possível! Para mim, Márcio, foi ainda mais especial, pois recebi três Sacramentos no mesmo dia: o Batismo, a Eucaristia e o Crisma. Eu, Verónica, recebi o Crisma. O nosso casamento realizou-se dias depois. Foram partilhas, o conhecimento da vida, morte e ressurreição de Jesus, dos Apóstolos que o acompanharam e o amor misericordioso de seu, nosso Deus Pai. Ficamos sensibilizados com as Parábolas presentes na Bíblia que são exemplos e ensinamentos em fazer o bem, sempre e para todos. Um gigantesco OBRIGADO! 

O meu percurso na Formação Cristã de Adultos foi fantástico!! No dia em que me inscrevi era só para poder ser madrinha! Pensei que seria algo breve e rápido!!! Mas quando se iniciou a formação, logo percebi, no primeiro dia, que não seria só uma simples formação! Pelas pessoas fantásticas que ali conheci percebi que seria uma formação diferente!! Um dos meus sonhos desde pequena era saber pegar na Bíblia e entender o que estaria a ler! E a Ana, a Beatriz, a Sofia e o Carlos ajudaram-me a interpretar a Bíblia e muitas mais coisas diria! As amizades que ali construí, pessoas fantásticas! Poderia estar a escrever sem fim que não iria terminar de tão bom que foi e as tantas coisas boas que aprendi e que me fizeram ser uma pessoa diferente, uma pessoa melhor.(atenta aos sonhos de Deus.) Mas há um ponto negativo: o facto de ter terminado…

   “Tu és fonte de Vida, Tu és fogo, Tu és amor, vem Espírito Santo, vem Espírito…”

“Confirmai-nos, Senhor, no vosso Espírito”

“- Rute, recebe por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus.”

“- A paz esteja contigo.”

Para mim, uma das mais belas palavras, uma das mais belas frases deste lindo dia. Em família e em Comunidade em paz, com ternura e alegria, na minha fé Cristã consciente e madura com vontade de nela continuar a caminhar assim a confirmei e o meu a Deus também. Fé, a chama serena mas firme que vive em mim sem cessar e que me faz acreditar num hoje, num amanhã melhor. Deus vive em mim, Nele confio, creio e tudo entrego! Jesus Cristo que por amor e por todos nós se entregou para nos salvar. Assim, também, com amor e por amor a Ele, com honra, fielmente vivo e transmito os seus belos ensinamentos sempre genuinamente, fazer o bem.
Mas que bela e enriquecedora experiência esta a da Formação Cristã de Adultos. A que me fez docemente percorrer no túnel do tempo reviver e, igualmente confirmar os ensinamentos de Deus que outrora foram transmitidos. Feliz daquele (es)  que com amor e por amor a Deus em Comunidade, ao ser-se Igreja e de forma voluntária partilham os seus dons. Juntos, na exploração da Bíblia e na reflexão das belas Parábolas que Jesus Cristo contava igualmente reforçam que é na simplicidade dos nossos nobres atos do dia-a-dia, de uns para com os outros de quem se dá e dá aos que mais precisam serão sempre os que mais recebem. Deus é Amor por isso, devemos assim, viver com encantamento pela vida. Devemos sempre, verdadeiramente acolher os demais para também sermos acolhidos. Devemos encorajar, respeitar, confiar, perdoar, amar, partilhar e multiplicar o amor, o amor e a misericórdia de Deus. Devemos também sempre, fazer ao outro o que gostaríamos que a nós, a mim, assim o fizessem pois, essa é a mensagem: o Amor, sempre o Amor, o amor ao Amor ao Próximo, o Amor a Deus. Neste ano, (e sempre) em que ” Há pressa no ar”, de mãos dadas e braços e abraços abertos unidos devemos continuar nesta linda caminhada de vida de Fé, de partilha e de Esperança. Porque “ninguém é Cristão sozinho” e “onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração”, na graça de Deus sê feliz e, faz os outros felizes também. Aos meus queridos e estimados irmãos da nossa Grande Família e de Fé : Ana Luísa, Beatriz, Sofia, Carlos, a todos os que frequentaram a Formação Cristã de Adultos e também ao nosso querido e estimado Prior P.e Avelino, um gigantesco abraço fraterno.

Falar para Crer – 5.º Encontro

Na próxima 4.ª feira, dia 11 de outubro, retomamos os encontros de formação “Falar para CRER”, organizados pela paróquia da Matriz em colaboração com a Comunidade Estrada Clara. Nestes encontros, refletimos acerca da atualidade da mensagem cristã e do modo como é possível sermos cristãos em todas as circunstâncias da nossa vida. Tem sido um caminho muito enriquecedor este que temos feito nestes encontros. Como o próprio nome destes encontros indica, é fundamental conversar, falar, dialogar para chegarmos a um entendimento e a uma compreensão em relação à vida que nos acontece a todos. E esta vida ganha cada vez mais propósito e significado sempre que a pomos em palavras partilhadas, escutadas, trabalhadas. Por isso, agradecemos a todos que têm vivido estes encontros connosco, partilhado as suas vivências, nos têm escutado com atenção e disponibilidade e têm estado presentes na confiança e na alegria comum que vivemos. OBRIGADA!

Deixamos aqui os registos do quinto encontro “Falar para CRER”, realizado no dia 12 de julho com o tema “Ser Católico hoje”. Neste encontro, fizemos a leitura trabalhada de um texto do padre Tomás Halik a propósito do caminho sindonal que está a ser vivido por nós, Igreja em construção. O texto falava-nos da importância de sabermos olhar para nós cristãos e de percebermos que caminho é este que temos percorrido e o que podemos fazer para continuarmos a ser este Povo que caminha sempre em direção a uma vida eclesial mais verdadeira e mais autêntica. Em seguida, em pequenos grupos, os participantes do encontro refletiram acerca de duas questões muito concretas: de que forma a vida pastoral da nossa paróquia foi, ao longo deste ano, expressão de Deus ressuscitado; que propostas pastorais apresento para o próximo ano. Todas as reflexões dos diferentes grupos foram partilhadas em grande grupo.

Recordamos que estes encontros “Falar para CRER” estão sempre abertos a todos os agentes da Pastoral (Catequistas, Jovens, Conselho Paroquial, Leitores, Grupos Corais, etc.) das comunidades paroquiais. Não é necessária inscrição, basta aparecer. Próximo Encontro “Falar para CRER” – 11 de outubro de 2023 (4.ª feira), às 21h, no Salão Paroquial da Matriz (Póvoa de Varzim)

Dias, relógios e vidas

Reflexão para o mês de outubro de 2023

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Ensinai-nos a contar os nossos dias para chegarmos à sabedoria do coração.” (Salmo 90)

Por estes dias, ao “arrumar” fotografias que tenho no computador, deparei-me com esta que o Jorge nos tirou, a mim e à Sofia, em 2014, no final de um agosto cheio de luz, num cafezinho muito acolhedor, na bela cidade francesa de Cluny, depois de uma viagem de 24h em autocarro até Taizé. O Jorge gostava muito de relógios. Temos vários e variados relógios em várias e variadas divisões da nossa casa porque ele apreciava a estética, a beleza, a história que os relógios espelhavam. Demorei-me nesta fotografia que foi tirada só por causa daquela parede enfeitada (as duas moças acima mencionadas foram só um pretexto, claro!). Mergulhei nas memórias bonitas que ela me trouxe e deixei-me ficar a pensar em relógios, em tempo, em épocas. Naquele mistério que o tempo traz consigo. Nas perguntas que os dias nos fazem e no tempo que nem sempre é suficiente para as ouvir. No que significa correr atrás de um tempo, deixar um tempo passar ou até fugir de um tempo.

No salmo 90, atribuído a Moisés, num dos versículos mais bonitos que conheço, o salmista pede a Deus que o ensine a contar os seus dias para poder atingir a sabedoria do coração. Este “contar” os dias nada tem a ver com ter os dias contados ou com a aritmética matemática. Contar os dias é saber dar-lhes significado, relevância. Aprender a contar os nossos dias é descobrir que a nossa história pessoal está dentro de uma história maior, a história da Salvação, a história de um povo que caminha rumo a um Deus que o espera sempre e para sempre. Contar os nossos dias é também um modo de confiar. A fé é sobretudo isto, escolher a confiança na vida, no presente, no que nos é dado. Confiança na adversidade daqueles dias frágeis, mas sempre abraçados por Deus. Contar os nossos dias é aprender a reconhecer a presença de uma Força que nos sustém e que nos acompanha no nosso quotidiano, fazendo-nos olhar para a vida com um significado maior, um propósito de infinito. Quem aprende a viver a sabedoria que vem de Deus, tudo avalia à luz da eternidade, da intemporalidade, do infinito. A salvação está aqui, na possibilidade que nos é dada a cada dia de ver de modo diferente, de fazer de modo diferente, de ser de modo diferente.

O tempo de Deus não é o nosso tempo, ouvimos tantas vezes dizer. E isto é assim porque o tempo de Deus não se mede em relógios, em horas marcadas, em agendamentos. Ser cristão é ter uma relação diferente com o tempo. Para o cristão, o tempo não é uma crueldade nem um impedimento. O tempo não pode ser a desculpa que se arranja para se desinvestir naquilo que verdadeiramente importa – a vida plena, em comunidade familiar, a vida com os outros no Outro. Durante estes anos temos ouvido muitas destas desculpas que limitam o acesso a uma vida maior, a experiências significativas. “Quando tiver carro, eu vou à Oração.”, “Quando acabar esta formação que estou a fazer, eu apareço nos ensaios.”, “Quando estiver de férias vou convosco ao encontro de Verão.” E o carro vem, a formação termina, chegam as férias, mas o desinvestimento naquilo que, aparentemente, parece não dar lucro, nem visibilidade, nem créditos continua… E aquela pessoa que podia, mais à frente, encontrar um propósito maior para a sua existência, perde essa oportunidade de se conhecer mais. E os seus dias passam a valer menos porque se resumem a cumprir ordens ou a fazê-las cumprir, a amealhar ordenados, a agendar atividades numa corrida desenfreada para chegar a uma meta numa competição de egoísmos crónicos. E essa pessoa vive só a relacionar-se em função de uma troca, de um ganho, não sabendo viver o Amor gratuito, dado sem ser por nada.

Enchemos, tantas vezes, os dias de preocupações, de azáfamas, de agitações como se fossemos nós os senhores dominadores da nossa vida. Gastamos tanto de nós e do nosso tempo num tempo que muito pouco ou nada nos dá. A vida é tão frágil, tão efémera. Por isso, é simultaneamente tão preciosa, tão única. Não a desperdicemos em cálculos, em ressentimentos, em egoísmos. Não contemos os nossos dias de forma vaga, indiferente, desinteressada. Que nenhum dia nos encontre por viver de forma autêntica.

A vida é mais, sempre mais, mais que os dias gastos em acumulações de trabalho, mais do que os esforços feitos para se atingir uma perfeição, mais do que o mero acumular de graus académicos ou estatutos sociais. O cardeal José Tolentino Mendonça, no seu livro “A mística do instante”, recorda-nos que “é quando percebemos que a vida é mais que deixamos de viver tão preocupados com o mínimo, tão prisioneiros dos pormenores ridículos que nos escravizam.” E alerta-nos para algo que em nós é recorrente: “Carregamos a vida de coisas, indispensáveis e, sobretudo, dispensáveis, tralha impura que nos prende. E depois, às tantas, estamos seguros, estáveis, garantidos, mas já não estamos, já não somos, porque hipotecamos a nossa verdade fundamental a todas as preocupações.” Entristecem-me aquelas pessoas para quem o tempo só tem valor monetário e financeiro. Aquelas pessoas que muito pouco ou mesmo nada fazem de forma gratuita e que não conhecem o que está para além do que é comercializável. Que gerem as suas vidas em função do “o que é que vou ganhar com isso”. Que fazem escolhas tendo por base o que é calculável. Que não são sensíveis a um simples saber estar sem se estar a obter um lucro qualquer com isso. Que não compreendem para que serve a poesia. Que acham uma perda de tempo perder tempo com uma caminhada para se admirar o nascer do sol. Que não se conseguem rir das situações mais simples e, sobretudo, deles próprios. Que até são capazes de oferecer muitos presentes no Natal e nos aniversários, mas que não conseguem saber dar-se aos outros. E que, sem o saberem, estão a perder a vida…

Quando entrego os meus dias, quando os abro à vontade de Deus, quando me deixo invadir pela beleza que é sempre o presente no presente, então assim acontece a multiplicação do meu tempo, do amor, da vida que quando é vida é sempre em abundância. Ser cristão é ser de um tempo sem princípio nem fim. Um tempo que é sempre doação, sempre dádiva, sempre dom. Um tempo qualitativo, epifânico, regenerador.

O Jorge gostava muito de relógios. Também gostava muito da música “Clocks” dos Coldplay e tocava-a frequentemente no piano. Mas o que ele mais gostava era de poder gastar as horas dos seus dias em ser um genuíno cristão de acolhimento, de esperança, de alegria. A vida dele pode, para nós, ter tido poucos dias, mas o tanto que ele nos deixou dá-nos a certeza de que esses seus dias foram vividos com a tal sabedoria necessária, com o desprendimento que nos liberta e com o coração sempre cheio daquela eternidade que nos salva e que é única. É por isso que todos os dias eu agradeço esta doação da vida do Jorge e sou feliz por saber que continuamos a fazer comunidade com quem caminha connosco e a encher os nossos dias de vida para os outros. Sempre. Agradeçamos a Deus a nossa entrega de cada dia, especialmente naqueles dias difíceis, duros, adversos. Peçamos a Deus esta sabedoria necessária para continuarmos a ser caminho, ajudando-nos a confiar e a viver uma existência cada vez mais autêntica. Que Ele nos torne atentos, disponíveis, ricos em dádiva de vida.

Together – Encontro do Povo de Deus

A Igreja vive um tempo único e excecional de sinodalidade. Como povo que caminha, vamos todos, todos, todos em busca de um sentido de comunhão, de irmandade, de acolhimento, de construção de um caminho que só pode ser feito em conjunto através do diálogo, da partilha, da reconciliação, da união. De 4 a 29 de outubro, e depois de um caminho de três anos nas dioceses dos cinco continentes, decorrem os trabalhos da XVI Assembleia Geral Ordinária dos Bispos sobre o tema: “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Neste tempo de reflexão, unidos com a estrutura pensante e orante da Igreja, rezemos juntos, com esperança e gratidão, por este caminho sinodal para que possa fazer da Igreja que somos uma comunidade de escuta, um espaço de cuidado, um lugar de Vida com todas as vidas.

Esta necessidade de oração comunitária fez com que o Papa Francisco anunciasse a realização de uma Vigília Ecuménica de Oração que tem lugar hoje, 30 de setembro, em Roma, na Praça de São Pedro. Esta vigília integra-se no evento “Together – Encontro do Povo de Deus”, presidido pelo Papa Francisco, e conta com a presença de líderes das Igrejas Ortodoxa, Protestante e Evangélica. Ao lado do Papa Francisco, estarão representantes ecuménicos, cardeais e jovens de vários países e de diferentes confissões. Como disse o Papa aquando do anúncio deste evento, esta vigília faz parte de um processo sinodal e ecuménico: “O caminho para a unidade dos cristãos e o caminho de conversão sinodal da Igreja estão ligados”. Esta vigília será orientada pela Comunidade de Taizé e evoca o Tempo da Criação, numa celebração de gratidão pelo dom da unidade, pelo caminho sinodal e pelo dom da paz. Com momentos de silêncio, de escuta da Palavra de Deus, de cânticos e de preces, esta vigília é uma oportunidade para juntos vivermos esta tão desejada unidade eclesial e sentirmos que é em comunidade que melhor experimentamos a presença de um Deus que nos ama e se faz presente. A vigília ecuménica de oração vai ser transmitida em direto pelos canais do Vatican Media. Das 16h30 às 18h00, é transmitido o programa que antecede a Vigília e, das 18h00 às 19h00, a oração presidida pelo Papa Francisco.

Estradas Partilhadas – Filme

Filme sugerido por Beatriz Cruz

Nas Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa e encontrei um velho amigo: o filme “A Missão”! Encontrei-o na Cidade da Alegria, entre as ruas que assinalavam todas as Jornadas que ocorreram até agora. Não estava à espera da mistura de sentimentos que me despertou …

“A Missão” é um filme de Roland Joffé, com música de Ennio Morricone, que estreou em Portugal a 19 de dezembro de 1986. É um filme bastante antigo, que me marcou pela beleza da fotografia, da banda sonora, da interpretação de atores que admiro bastante, como Jeremy Irons, Robert de Niro e Liam Neeson, mas principalmente pela mensagem transmitida, que se mantém perfeitamente atual. O filme situa-se em 1750, na América do Sul, na altura em que começam as perseguições e a expulsão dos Jesuítas em Portugal. Robert de Niro interpreta Rodrigo Mendoza, um mercenário, traficante de escravos, que mata o irmão em duelo, por ciúmes. Não podendo ser condenado por lei, porque a morte em duelo era legal, fecha-se ao mundo por pensar que o que fizera estava acima do perdão! Jeremy Irons interpreta um padre Jesuíta, o Irmão Gabriel, responsável pela Missão de San Carlos, situada acima das cataratas e em plena selva na América do Sul, que acolhia os índios Guarani. O irmão Gabriel propõe como penitência a Mendoza carregar a armadura e as armas, isto é, tudo o que representava a sua antiga vida, até à Missão, incluindo a subida das cataratas.

Impressionou-me a viagem, mas principalmente a cena em que um dos jesuítas, vendo a dificuldade com que ele subia as cataratas com semelhante carga, e pensando ser suficiente o que fizera até ali, corta a corda que segurava o embrulho, que cai. Impressionou-me a descida de Mendoza, o amarrar de novo a corda, o voltar a subir, sempre em silêncio, sem uma queixa…  Comoveu-me a cena em que os índios, tantas vezes perseguidos por ele para serem vendidos como escravos, ao vê-lo e ao que havia sofrido para chegar ali, cortam eles mesmos a corda. Comoveu-me a aceitação de “ser finalmente suficiente”, o choro, os risos e os abraços que acompanham esse “perdão”, essa absolvição. Algum tempo depois, Mendoza torna-se jesuíta. Por esta altura a Missão sai do controlo de Espanha e passa para o de Portugal. É enviado um representante da Igreja às Missões, para decidir se seriam mantidas ou destruídas. A partir daí o filme centra-se em escolhas…

O filme fala do perdão … Não apenas do perdão que pedimos aos outros, mas principalmente daquele perdão que por vezes temos dificuldade em nos conceder por nos considerarmos pouco merecedores… Fala do encerramento em nós mesmos quando esse perdão não ocorre … Fala da generosidade daqueles a quem magoamos e que ainda assim nos ajudam nesse encontro com o perdão … Fala de recomeços, sempre possíveis e sempre a tempo… Fala de felicidade, quando já não a considerávamos possível… E fala também de escolhas… Fala dos vários caminhos que sempre temos à nossa frente… Fala dos argumentos que encontramos para seguir cada um deles… Muitas vezes argumentos pessoais, umas vezes objetivos outras vezes emocionais, e muitas vezes de escolhas sem argumentos concretos, mas apenas confiando…  Fala de encontros e desencontros nessa troca de argumentos… Fala de princípios e da dificuldade em os manter face às circunstâncias… Fala da perseverança, fala da amizade, fala da partilha, fala do respeito… E fala, acima de tudo, do Amor! De como a vida só tem sentido no Amor! De como o amor pode servir de desculpa para atalhos… De com o Amor vivido concretamente é difícil, muitas vezes frustrante, angustiante, de como nos faz sentir impotentes face ao Mal… Fala de caminhar no escuro guiado apenas por esta Luz do Amor!

A vida não é simples. Por vezes sentimo-nos cheios de entusiasmo, de alegria, de vontade de iniciar projetos, somos capazes de levar o mundo nos braços… Outras vezes sentimo-nos frustrados, cansados, em sofrimento, desiludidos, injustiçados, atraiçoados, abandonados… Li uma vez que a nossa vida não tem sentido na solidão. Ganha um sentido crescente na medida em que a entregamos a um projeto, a um outro e ao Outro em definitivo. A vida deve ser tudo isto: uma entrega confiante a um Projeto Maior! Um Projeto para os outros e com os outros! A vida tem sentido no exagero da alegria, da esperança, da beleza, da entrega, da partilha, do compromisso, da confiança…A vida deve incluir o outro e dar-lhe importância! A vida deve ser maior do que eu!

O filme fala disto e de muito mais! Traz em si as nossas dúvidas, as nossas escolhas, as nossas certezas, os nossos desesperos, a nossa esperança e a nossa alegria! Fala do que é essencial! E cada um de nós pode descobri-lo ao longo do filme! O filme é antigo, sim. Mas vale a pena redescobri-lo!

Reflexão para o mês de setembro de 2023

Velha Infância

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: «Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu.” (do Evangelho de São Mateus 18, 2-3)

Jesus responde à interpelação dos seus discípulos que estavam muito preocupados acerca de quem, de entre eles, seria considerado o maior, o melhor, o mais importante. Estavam tão cheios de eles próprios e tão inquietos acerca do lugar principal que seria dado a alguém que nem se aperceberam que a pergunta que fazem a Jesus estava cheia de orgulho, desejo de poder e hierarquias. A resposta que Jesus lhes dá é avassaladoramente simples ao dizer-lhes que só entrarão no Reino de Deus se se tornarem como as crianças. Nesta resposta há duas dimensões importantes: a condição de se ser criança e a referência ao Reino de Deus. Ser como as crianças é dar espaço ao que sentimos, ao que vivemos, ao que vem até nós, sem julgamentos nem preconceitos. Esta sugestão que Jesus nos faz nada tem a ver com a infantilidade ou com a imaturidade. Jesus pede-nos que sejamos como as crianças, pois estas estão abertas às suas emoções, sem usarem máscaras, sem se desculparem com medos, sem utilizarem receios. À humanidade de hoje Jesus continua a dizer que todos devemos permanecer como crianças no sentido de que é a simplicidade a chave que nos abre os olhos do entendimento, que desbloqueia preconceitos, que amplia horizontes. Ser crianças na arte do espanto, na arte de se alegrar com o que genuinamente importa.

Então, para sermos grandes temos de ser pequenos. E o que é isto de sermos pequenos? Somos pequenos quando nos deixamos envolver pela beleza, pela simplicidade. Quando nos deixamos fascinar pela vida e não nos deixamos manipular pelos porquês, pelas pedras, pelos obstáculos. Quando olhamos para a vida abraçando as dúvidas, as dores, as interrogações, persistindo e continuando caminho. Quando nos deixamos guiar pela sensibilidade, pela atenção, pela comoção. Quando aos olhos do mundo, muitas vezes, não cumprimos os requisitos de excelência, de sucesso, de carreirismo, mas acedemos àquela sabedoria maior que só pertence ao coração.

Jesus sugere-nos que permaneçamos pequenos para sermos cada vez maiores no espanto, na admiração, na entrega. Para que os nossos olhos continuem carregados de alegria e de simplicidade. Para não ficarmos doentes por carregarmos tantos “ismos” que a idade adulta parece acarretar – o pessimismo, o adultismo, o egoísmo, o individualismo, o materialismo, etc.

Só assumindo esta condição de crianças, poderemos aceder, compreender e viver o Reino de Deus. Este Reino anunciado por Jesus só se torna visível e concretizável quando nos permitimos a nós próprios querer vê-lo. E para ver este Reino temos de usar o coração e a vontade de querer vê-lo. Podemos usar a razão para tratarmos da questão de Deus, mas para termos uma relação pessoal com Ele precisamos de vivê-la e vê-la com o coração. Para conhecermos este Deus que nos ama é imprescindível deixarmo-nos comover, envolver, querer fazer parte. Deixar de lado os preconceitos, as reservas, os medos. Confiar. Ir. Contemplar a vida com o coração. Procurar permanentemente a beleza e a harmonia. Deixar que os nossos olhos sejam sensíveis à beleza que existe. Sermos pessoas maravilhadas, encantadas, rendidas à beleza da simplicidade, confiantes na harmonia, ou seja, sermos como as crianças são.

Nos Evangelhos, Jesus recorre, com frequência, à importância que deve ter preservarmos a essencialidade de sermos crianças. De facto, não há nada que tenha mais valor do que o olhar puro, o olhar de criança, o olhar de espanto. A riqueza a desejar não reside nem numas luxuosas férias nas Maldivas, nem nos carros ultramodernos, nem nas importantíssimas posições de chefia. Nada. Tudo isso passa, tudo é efémero, tudo se constrói e destrói. A  riqueza maior, a que nos salva, está no dom de nos envolvermos, na capacidade de nos comovermos, na propensão para sentirmos, na aptidão para estarmos atentos aos outros. Um olhar embrutecido impede-nos de saber contemplar a beleza da vida, de saber ver o que realmente importa, de conseguir escolher o que vale verdadeiramente mais. É muito fácil deixarmos que o nosso olhar se prenda na tristeza, no desânimo, na indiferença. É muito fácil tornarmo-nos as tais pessoas muito sisudas que ainda ontem mergulhavam em risos felizes nas lagoas em Caminha e hoje se deixam dominar por agendas repletas de compromissos muito sérios que lhes roubam tempo para fazer algo tão simples como olhar para as estrelas ou emocionar-se com um poema que é recitado. É muito fácil seguirmos esta corrente dos meros cumpridores de horários, das pessoas muito sérias, cheias de preocupações excessivas, de estatutos a exibir e que acham uma pobreza e um retrocesso existencial o deixarem-se envolver nas emoções e serem simples, como o são as crianças.

É por tudo isto que ser Cristão é uma verdadeira loucura aos olhos de um mundo que nos exige sucessos, conquistas, materialismos. É por isso que ver o Reino de Deus neste nosso mundo é uma tarefa que só se proporciona a quem realmente se dispõe e se propõe a vê-lo, com os olhos do coração, com a simplicidade das crianças, com a alegria que brota de quem encontra um feliz tesouro, a Eternidade do presente. E este Reino reservado aos simples é concretizável também na medida em que eu me deixo envolver naquilo que é a minha própria vida. Eu ligo-me emocionalmente aos outros através das experiências que vivemos em conjunto. Viver esta JMJ fez-me voltar a confirmar esta necessidade de envolvência e, sobretudo, de nos deixarmos envolver. Ou seja, de não sermos indiferentes à Vida e deixarmo-nos ser e estar em irmandade. O jornalista eufórico que gritou de alegria ao ver o Papa passar. Os jovens vindos do outro lado do mundo a cantar e a ser alegria nas múltiplas ruas de uma Lisboa jovem. As famílias que seguiram tudo e todos pela televisão. Os amigos que carregaram a cadeira do jovem Lourenço para que ele conseguisse ver o Papa. Exemplos tão bonitos do que é ser pequeno. É tão simples quando não nos permitimos ser complicados. É um mundo novo que é possível construir com tão pouco e, ao mesmo tempo, com tanto.

Ser como as crianças. Voltar à infância e recuperar o espanto, a admiração, a curiosidade, a busca. Numa entrevista dada à jornalista Anabela Mota Ribeiro, o Cardeal José Tolentino Mendonça chama a atenção para a importância de retomar essa arte do espanto: “A infância é uma máquina de espanto. Já todos passamos por essa máquina, mas é bom que a conservemos.” É imprescindível acolhermos a disponibilidade para aprender, para descobrir, para ver, para ouvir, para deixar-se encantar e olhar mais longe. A abertura é a condição do espanto. Permanecer em espanto toda a vida e deixar-se conduzir pela simplicidade foi a resposta que Jesus deu à interpelação dos seus discípulos. Busquemos nós, em cada dia, este grande tesouro da simplicidade. Larguemos os pesos da apatia, da indiferença, da superioridade, do materialismo. Saibamos cultivar aquela alegria das crianças com os olhos cheios de espanto e de gratidão pela vida. Escolhamos a pequenez grande que reside na beleza que nos rodeia e que, tantas vezes, não se mede em cálculos e valores. Abracemos a felicidade que a simples vida em comunidade de vidas nos traz e nos enche de significados. E que possamos ser sempre como as crianças para, juntos, vivermos esse Reino prometido.

Terá o Papa Francisco lido os nossos textos?

Viagens pela JMJ, Lisboa 2023

Com um sorriso, esta pergunta surgia-nos à medida que ouvíamos as intervenções do Papa Francisco nesta JMJ Lisboa. De facto, quase tudo o que o Papa foi dizendo em jeito de observação, orientação e esclarecimento já por nós foi sendo escrito nas nossas reflexões mensais ao longo destes quase dois anos. É claro que o Papa Francisco não acompanha o nosso site. Como se explica, então, este “plágio” de muitas das nossas reflexões nos seus discursos nesta JMJ? A resposta é muito evidente. Conhecendo e partilhando a mensagem de Jesus Cristo, vivendo conscientemente o Cristianismo, estando atentos ao mundo que nos rodeia, estando disponíveis para o acolhimento e para a presença do Outro nos outros e escolhendo viver cada dia com as suas alegrias e tristezas, os seus desafios e assombros, de facto, só poderíamos usar todos a mesma linguagem, as mesmas palavras, as mesmas afirmações, não importando muito se somos uns simples leigos da vinha do Senhor ou um admirável Papa. Tudo o que o Papa Francisco foi partilhando na JMJ reflete claramente tudo o que nós também já pensamos, vivemos e acreditamos desde há muito tempo. Por isso, que bom sentir que estamos em sintonia! Que felizes somos ao vermos os nossos pensamentos nas palavras do Papa! Que alegria está em nós ao nos reconhecermos plenamente em tudo o que foi partilhado pelo Papa! Para quem anda mais afastado da Igreja, para quem está mais distraído, para quem não conhece o que este Papa vem dizendo há anos, tudo o que ele disse poderá soar a inovação, modernização, mudança de paradigma e até alguma contradição com a ideologia da Igreja. Contudo, tudo o que o Papa foi anunciando na JMJ não é novidade para quem vive a e em Igreja, pois é tudo o que Jesus Cristo já havia dito há mais de dois mil anos. Cabe-nos agora, nos nossos contextos e realidades, atualizar e continuar a praticar o que foi e tem sido dito.

Assim, partilhamos aqui algumas das frases proferidas pelo Papa Francisco durante a JMJ em paralelo com algumas das nossas frases dos textos de reflexão mensal.

Ana