Durante a JMJ, como já é habitual, a Comunidade de Taizé dinamiza tempos de oração comunitária. Em Lisboa, estes momentos aconteceram na bela e despojada Igreja de São Domingos. Estas orações com cânticos de Taizé e com a presença de alguns irmãos da Comunidade estiveram abertas a todos os que nelas quiseram participar. E realmente foram muitos! Tantos que a fila de espera, cerca de uma hora antes de cada oração começar, embora sendo já interminável, nunca demoveu nenhum dos participantes. Na última oração, na 5.ª feira à noite, organizada juntamente com a Comunidade “Chemin Neuf”, muitos não conseguiram lugar dentro da Igreja. No entanto, assistiram à oração no exterior da Igreja, acompanhados pelo sistema sonoro (podem comprovar pela fotografia que um amigo nosso que estava cá fora tirou, testemunhando o que aconteceu). Sentados no chão, na zona mais movimentada de Lisboa, a antítese era evidente: o silêncio e a contemplação foram mais fortes do que o barulho e a agitação. Para quem (ainda!) não conhece a Comunidade de Taizé, este fenómeno parece ser inexplicável, mas é apenas um reflexo natural da necessidade que as pessoas têm de mais silêncio, de mais intimidade com um Deus que é só Amor, de mais envolvimento espiritual.
A oração de 5.ª feira foi a última a que podemos assistir com o Irmão Alois enquanto prior de Taizé. São momentos sempre significativos para nós que tivemos o privilégio de estar presentes em alguns eventos marcantes da vida da Comunidade de Taizé: estivemos em 2004, em Lisboa, naquele que foi o último Encontro Europeu do Irmão Roger e, no ano seguinte, estivemos em Milão no primeiro Encontro Europeu com o Irmão Alois como novo prior. A partir de dezembro, o Irmão Matthew será o novo prior e, se tudo correr como previsto, no Verão do próximo ano estaremos a rezar juntos em Taizé (sim, estamos a organizar uma viagem de peregrinação a Taizé em 2024 com a @paroquia.da.matriz.pvz ).
Taizé. Nos próximos meses, a propósito da preparação que iremos fazer para a nossa peregrinação, iremos partilhar aqui o que significa para nós, Comunidade, esta Comunidade.
Integrado na JMJ aconteceu o chamado “Festival da Juventude” constituído por eventos nas áreas da Música, Cinema, Teatro, Dança, Conferências, eventos estes formativos, numa partilha de vivência cristã com os peregrinos de todo o mundo. Destaco aqui duas atividades nas quais participamos e que foram da responsabilidade dos Jesuítas.
Na 4.ª feira, assistimos à conferência “Today’s FAQ’s about Faith and Church” dinamizada pelo sacerdote jesuíta James Martin. Numa igreja repleta de pessoas desejosas de o ouvir, o sacerdote jesuíta foi elencando as questões mais comuns sobre a fé e sobre a Igreja, sobre a importância de trabalharmos as nossas crenças e sobre o papel da comunidade na construção da identidade cristã. O sacerdote terminou a palestra com as seguintes palavras: “Lembrem-se que o convite mais eficaz à crença, à fé, à religião, ao cristianismo, à Igreja Católica e até à oração não é a resposta a uma pergunta, mas a uma pessoa: Jesus Cristo. E a maneira que funciona hoje é fazer com que as pessoas vejam Jesus Cristo em cada um de vós! A vossa própria vida é um instrumento de evangelização.” Sigam o trabalho deste padre jesuíta que tem tido um papel central na construção de pontes de relação.
Na 5.ª feira, na belíssima casa cultural Brotéria, tivemos a oportunidade de assistir ao workshop “Escuta-te em corpo”, orientado pelo padre Paulo Duarte. Durante uma hora, fomos trabalhando a noção de sermos também um corpo, dando especial enlevo à respiração, seguindo as orientações do padre Paulo, ativando em cada um de nós a consciência do presente, a gratidão do aqui e do agora, a perceção das emoções que nos habitam e nos moldam. Conheçam o pe Paulo Duarte que tem feito um trabalho muito fecundo dedicado a esta noção do corpo que somos. Em muitas publicações e outros encontros, este sacerdote jesuíta tem sublinhado que o ser humano é muito mais do que o intelecto e a fé é algo que também se sente a partir do corpo que somos e que, por isso, precisa tanto de ser escutado.
As JMJs são também este espaço de aprendizagem, de observação, de cultura, de pensamento. Que bom é poder assim viver esta Igreja que somos!
As JMJs são música e canções. Por Lisboa, espalharam-se palcos onde muitos grupos cristãos levaram as suas melodias, testemunhando a fé através da arte. E o hino destas JMJ cantado a tantas vozes, com as palavras e a música perfeitas, motivando cada um a partir ao encontro da VIDA.
Nesta dimensão musical da JMJ, partilho aqui dois momentos especiais, que foram para nós sinais da certeza de que o Amor que vivemos nesta dimensão terrena é eterno.
Na cerimónia de acolhimento ao Papa, quando os símbolos das JMJ eram levados ao palco, o @tiagobettencourt cantou a “Viagem”. Uma canção poderosa, de caminho, de aceitação das partidas, de esperança de reencontros numa voz com sabor a casa. Um hino à eternidade! E nada é um acaso! Dias antes, publicávamos, como de costume no nosso site, o texto da reflexão mensal. Eu já tinha um texto meu preparado, mas algo me lembrou que o Jorge tinha escrito, já em 2008, um texto intitulado “Viagem” sobre o simbolismo da viagem que é a Vida. Uma vez que dali a dias partiríamos para Lisboa, entendi ser uma recordação bonita colocar as palavras dele a acompanharem-nos no caminho. E assim foi! Por isso, quando dias depois ouvimos esta canção “Viagem” naquele ambiente de luz, logo os nossos corações se encheram de comoção pois acreditamos que as nossas energias se ligam e se fundem e a presença de quem amamos faz-se sempre inexplicavelmente presente e continua viva em nós.
Na vigília com o Papa, ninguém ficou indiferente quando a doce @carminho cantou “Estrela”. Quando a vimos naquele palco magistral, numa noite tão cheia e tão serena, o nosso coração voltou a encher-se de alegria, aquela alegria que só brota de quem entende que a vida acontece nestes detalhes aparentemente insignificantes, mas que são tudo. E isto porque esta música “Estrela” tem sido a nossa companhia nestes dois últimos anos no “Encontro em TI”, o nosso momento de oração mensal na Igreja da nossa paróquia, esse que foi um projeto antigo e muito desejado pelo Jorge.
A música. Nós. A vida a dar-nos sinais. E ele, com Ele, a falar-nos através das músicas. E sempre connosco, a olhar-nos. Que felizes somos!
A experiência das JMJ vai além da viagem, dos workshops, das celebrações, do Papa, do hino, dos locais. Viver as JMJ é fazer a experiência da vida em comunidade, do que é estar com os nossos irmãos noite e dia, aprendendo a conhecer os seus silêncios e gargalhadas, a entender pedidos e escolhas, a oferecer-lhes caminhos novos e lugares de acolhimento. É por isso que a participação nas JMJ tem de ser feita em grupo, uns com os outros. Tudo o que as JMJ nos possibilitam viver é agigantado quando é vivido em comunidade. A vida torna-se sempre maior quando é partilhada e a experiência nas JMJ é prova disto. Um workshop em que participo é sempre mais interessante quando a ele assisto com o meu grupo. A experiência na vigília do fim de semana é inesquecível porque a vivo com os meus amigos que não me deixam sucumbir ao calor e ao cansaço e me fazem cantar mais, rir mais, abraçar mais.
Para nós, estas JMJ foram diferentes do habitual. Pela primeira vez, fomos sem estarmos responsáveis por um grupo de jovens e sem ficarmos alojados em casas de família ou escolas. Nuclearmente, formamos um grupo de cinco elementos que, mais tarde, passou a comunidade de oito. E foi, genuinamente, a concretização do viver em comunidade, em partilha, em oração, em caminho. E ser e estar em Igreja significa isto mesmo! Cada um de nós vive o que acredita, vive a sua relação pessoal com Deus, mas esta dimensão só se torna plena e verdadeiramente revolucionária e impactante quando é partilhada e vivida em comunidade. As alegrias e as tristezas, os avanços e as quedas, as perguntas e as respostas só se tornam verdadeiramente VIDA quando são vividas com os outros num caminho que é feito e construído para nos levar ao Outro que é Tudo com TODOS em nós. Foi isto que vivemos em Lisboa. E quão maravilhosa foi esta nossa partilha em comunidade! Com tempo e disponibilidade para estar, sentir, rir, conversar, observar. Com atenção e dedicação para sermos mais pessoas e possibilitar a este pequeno grupo a riqueza que é a vida que nós temos e escolhemos em nossa casa, a vida em comunidade.
Tanto para guardar no coração e trazer para a vida, inteira e única. Começo pela beleza da arte vivida naquele palco e assumida por cada um que assistiu àquela celebração. Quando a Via-sacra começou, já nós havíamos iniciado o nosso caminho de regresso a casa (por questões pastorais, não pudemos ficar o resto dos dias em Lisboa). Foi uma experiência diferente, esta a de ouvir a celebração através do rádio e, assim, imaginando o que estaria a acontecer naquele espaço onde poucas horas antes tínhamos estado. Depois, em casa, vendo na televisão, confirmamos que aquilo que imagináramos ser maravilhoso, era realmente grandioso e impactante.
Nesta Via-Sacra, nada houve que brilhasse por si só. Tudo foi um só porque todos, com todos e por todos, souberam ser luz, presença, comunidade, ação, movimento, entrega. O coro e a orquestra uniram magistralmente todos os momentos, numa suavidade constante e coerente. E aquele doce cântico de Taizé a fazer de forma tão sentida e marcada a passagem das estações. Os magníficos bailarinos do Ensemble 23 foram o tudo em corpo e em alma: irmandade, alegria e dor, caminho, dúvidas e certezas, emoção e, acima de tudo, testemunho. Um testemunho de tudo aquilo que é vivido por cada um de nós, nas nossas circunstâncias, no nosso quotidiano simultaneamente diferente e comum. Toda a encenação da sensibilidade de @matildetrocado foi arte de vida, comunicação de luz, busca sentida de um futuro comum. Os delicados desenhos do pe @nunosj foram caminhos de autenticidade transformadora, impactantes no momento certo, poderosos na mensagem a anunciar, genuínos memoriais daquela vida que não tem fim. Os textos do pe Nuno Tovar de Lemos foram todas as nossas palavras, anseios, perguntas, raízes. E o silêncio. Sempre o silêncio. O silêncio avassalador e, ao mesmo tempo, tão sereno que aquele sem fim de peregrinos foi capaz de fazer porque soube sentir toda a beleza, a harmonia, a conversão. Esta Via-sacra não foi uma mera lembrança emotiva da condenação e morte de Jesus. Esta Via-sacra foi a arte a servir-se da vida toda e toda a vida em forma de arte.
Aos pouquinhos, como se estivesse a regressar de uma outra dimensão, vou começando a rever as fotografias que tiramos, vou recolhendo testemunhos dos que viveram esta experiência das JMJ, vou ouvindo em loop a avassaladora “Viagem” do @tiagobettencourt , vou lendo os discursos impactantes do Papa, vou assistindo, em emoção intensa, às gravações das diferentes cerimónias na televisão e anotando todos os detalhes. E assim nestes dias pós-jornadas vou serenando o espírito, fazendo o silêncio necessário para discernir o que é importante, guardando as emoções no sítio certo e da forma correta, ouvindo o que o coração me traz para encontrar as palavras luminosas que possam exprimir, com fidelidade e generosidade, o que estes dias das pré-jornadas e das Jornadas nos ofereceram.
Enquanto estava neste quase recolhimento espiritual, alguém partilhou comigo esta poderosa fotografia e a sua história, que mais não é do que a concretização perfeita do que o Papa Francisco havia dito uns dias antes. Estamos TODOS! E só é possível estarmos TODOS quando TODOS estão. Esta imagem é fortíssima! Comoveu-me profundamente não só a força destes braços amigos que suportam e elevam o jovem Lourenço, mas sobretudo a alegria genuína e gigante deste jovem, um sinal forte da vida e da eternidade que todos nós carregamos. A tal alegria que não é fútil nem acaba quando tem as suas raízes bem alicerçadas no Amor. A alegria que nos traz o Amor destes amigos que nos erguem para lá dos nossos limites e que nos fazem do tamanho do Universo.
Esta ideia da alegria e da necessidade de viver a alegria como tão bem reforçou o nosso Papa trouxe-me à memória um texto do nosso querido Vergílio Ferreira que uma vez utilizamos nuns exercícios de dramatização numa das atividades com os nossos grupos de adolescentes:
“Não te queixes. Os outros têm já tanto de quê. Não fales de coisas tristes. Os outros têm já tanto que chegue. Não fales em solidão. Todos os outros estão tão sós. Fala de alegria, da força, de tudo o que nos instaure em imortalidade. Assenta de uma vez que o homem é imortal.”
Texto de Jorge Ferreira, Comunidade Estrada Clara (este texto foi escrito pelo Jorge em julho de 2008)
Cada um de nós tem de fazer da sua vida uma viagem. E, muitas vezes, para nos descobrirmos e nos conhecermos, há momentos em que esta viagem tem de ser feita na solidão, na relação connosco próprios. Sabemos que para cada pessoa há uma viagem distinta a fazer, um caminho distinto a percorrer. A pessoas diferentes correspondem viagens e caminhos diferentes. Não podemos ter a vida que os outros têm nem eles podem ter a nossa. Somos únicos. Ninguém pode escolher por nós nem nós por os outros. A escolha é sempre nossa. Muitas vezes cedemos à tentação de nos deixarmos ir na corrente, de sermos cópias do que outros já são. Comportamo-nos como os outros para mais facilmente nos sentirmos aceites e não sermos alvo fácil da avaliação dos outros que, quase sempre, é atroz.
Percorrer esta vida sem respeitar quem eu sou significa não andar, não evoluir, estar parado. Parece-me que todos experimentam, numa ou noutra vez, ser diferente dos outros. Uns têm sucesso, evoluem e distinguem-se. Mas à maior parte das pessoas acontece não ter muito êxito na primeira experiência e desistem porque pensavam que se pode obter tudo logo na primeira investida. “É a vida!”, “Não se pode seguir os sonhos!”, “Tens de ser realista.”, “Esse curso não tem saída nenhuma!”, “Não percas tempo com o teu grupo de jovens, agora tens de ter uma vida séria.”, são apenas alguns exemplos ditos por quem passou a pertencer à maioria, à normalidade. Por aqueles que se inscrevem no clube Dia-a-dia, procuram outros iguais a eles, gritam pelo mesmo clube, passam a gostar de coisas que não gostavam, comem o que nem sonhavam existir e olham para as vidas dos outros como meta a alcançar, idolatrando-as. As suas próprias vidas começam a desaparecer. Vivem, mas não vivem. Entre festas e comida, empregos e carreiras, férias e filhos, lá vão andando e cumprem apenas os requisitos mínimos, esquecendo-se da dádiva de uma Vida maior.
Por isso, é-se diferente quando se decide caminhar, quando decidimos saber mais e melhor. É-se diferente quando aceitamos que não podemos ter tudo, mas o que temos, podemos capitalizar em energias renovadoras. É-se diferente quando aceitamos que não podemos ser como os outros, mas podemos valorizar os recursos que temos e começar daí. E ser diferente implica também aceitar que a nossa viagem, em certos momentos, pode ter de ser feita, muitas vezes, no silêncio e na solidão. Sim, sozinhos. Porque num dado momento podemos ter de perder um amigo que não escolheu o mesmo curso que eu, mas eu tenho de continuar. Ou porque não há ninguém que queira fazer comigo uma dieta para me dar força, mas eu tenho de a fazer. Ou porque ninguém quer ir passear comigo, mas posso ir eu. Estudar é um ato solitário. A solidão não é uma morte, mas um estado por vezes necessário ao ato do crescimento. E é deste tipo de solidão que todos fogem. Solidão que nos ensina a refletir e ser responsável. Ter medo deste tipo de solidão implica a pouca reflexão e leva à prática de atos instintivos. A solidão pode ser um momento de redirecionar a nossa vida. Abraão e Moisés ouviram Deus falar-lhes na solidão. Os relatos bíblicos apresentam-nos, cada um deles, em tempos diferentes, na busca de um sentido para a vida, refletindo sobre o seu verdadeiro significado. Abraão, na sua solidão, descobre que Deus não pode estar sujeito às disposições religiosas locais, mas que, a existir, deve ser imenso e estar em toda a parte e ser Um e único para todos os homens. Moisés, na sua solidão, descobre que Deus lhe confia uma missão, a de libertar os seus irmãos que sofrem no Egipto. E descobre que não pode ficar indiferente a esse chamamento. Verdadeiros milagres da solidão. Verdadeiros milagres para a história e para cada um de nós. A ação criadora tem origem na solidão, na quietude. Muitas decisões e mudanças nascem nestes momentos. É certo que o homem é um ser social e com os outros se realiza, mas o que acontece àquela vida que nunca para para refletir e ponderar? O que acontece a uma vida que não tem momentos calmos de contemplação? O que acontece a uma vida que não contempla o sagrado?
Gosto particularmente dos dias a seguir às festas. A seguir ao Natal, a seguir à Páscoa, a seguir às festas do futebol, às festas populares, ao S. Pedro, a seguir às férias. Gosto porque sinto que a vida continua indiferente às festas e enfeites dos homens. Festas, muitas vezes, vividas sem sentido, vividas só para o exterior, para mostrar que se está alegre e feliz. Numa sociedade cheia de barulho e apelos ruidosos, precisamos de encontrar um equilíbrio que nos dê serenidade, que nos faça por a render os nossos dons. Onde está o quadro que foi pintado no meio duma multidão? Onde está o livro que foi escrito no meio do barulho? Onde está a música escrita no meio de uma festa? Não existem. Onde estão as vidas feitas só de barulhos, de shoppings, de modas, de ídolos? Estão vazias.
É no silêncio que tantas vezes descobrimos os maiores significados da nossa vida. Tantos, que há coisas que nem sabemos revelar aos outros. Tão particular o que descobrimos, tão íntima a vivência que, por vezes, não conseguimos partilhar. E guardamos para nós. Ou para dizer noutra ocasião. E crescemos nesse momento. O silêncio não é um buraco onde tudo desaparece. É uma oportunidade de crescimento. O silêncio e a interioridade obrigam-nos a enfrentar e resolver os problemas que temos.
Nas nossas viagens, depois do entusiasmo inicial, depois de cantarmos, depois de conversarmos, de rirmos bem alto, há momentos em que todos se calam e se acalmam e simplesmente pensam. Momentos quietos, mas nos quais ninguém dorme. Momentos em que todos olham pela janela. Momentos em que vemos os pinheiros a andar para trás. E nós para a frente. A natureza tem este poder: o de chamar cada um de nós para aquela solidão preenchida, para o silêncio, para a interioridade, para esse lugar único onde cada um de nós consegue descobrir verdadeiramente quem é. Aquela tal viagem. A viagem.
A Beatriz escreveu um breve testemunho sobre sua participação nas Jornadas Mundiais da Juventude. As que se vão realizar em Lisboa serão as suas sextas Jornadas. E que caminho bonito foi este que a Beatriz foi fazendo ao longo destas Jornadas.
Santiago de Compostela (1989)
Fui pela primeira vez às Jornadas em 1989, em Santiago de Compostela. Ainda estava tudo a começar sendo que estas foram as quartas Jornadas a acontecer, e apenas as segundas fora de Roma. Estas Jornadas em Santiago duraram apenas um fim de semana, de 18 a 20 de agosto, e nela participaram 600 000 pessoas.
Lembro-me que o acolhimento ao Papa João Paulo II foi feito na praça em frente à Catedral. Nós ficamos alojados num colégio, e lembro-me de encarar tudo como um acampamento de fim de semana, tendo até levado um fogão de campanha, pequenino, onde cozinhamos a refeição mais simples que se possa imaginar: arroz branco com rodelas de chouriça … Ainda não existiam as senhas para as refeições, nem locais onde as ir levantar. Na altura não tinha grande noção do evento em que estava a participar. Fui com o grupo da paróquia do qual fazia parte na altura, andei com o grupo, subi ao monte do Gozo com o grupo e descemos, logo de seguida, em virtude de algumas pessoas do grupo sofrerem de problemas respiratórios e as condições no monte serem demasiado adversas para elas: muita terra no chão (onde é o lugar dela), mas também no ar e principalmente nas pessoas! Nada que me espante agora, após 5 Jornadas, mas, na altura, ia com um grupo e acompanhei-o sempre. Portanto, a noite da vigília com o Papa foi passada no Colégio, com muita ressonadela por parte das ditas pessoas com problemas respiratórios que trouxeram a terra do monte Gozo nos seus narizes… Uns anos depois, numa viagem a Santiago de Compostela, um dos artigos à venda nas lojas para turistas era um saquinho com terra do monte do Gozo …!!!
Assim sendo, no domingo, assistimos à missa pela televisão, e mal os peregrinos portugueses que haviam pernoitado no monte chegaram, o autocarro partiu de regresso a casa …. Dentro vinham pessoas muito lavadas e pessoas completamente negras de pó! Foram uma Jornadas sui generis, mas ficou qualquer coisa.
Paris (1997)
As minhas segundas Jornadas foram em Paris, em 1997. Tinha acabado de sair de uma situação profissional e estava “entre empregos”. E o que faz uma pessoa que está à procura de trabalho? … Inscreve-se nas Jornadas, claro! Fomos um pequeno grupo de quatro pessoas: eu, a minha irmã, e dois amigos. Inscrevemo-nos através da Comunidade Emanuel, e isso foi um acaso feliz, que influenciou muito do caminho que fizemos depois. A Comunidade Emanuel tinha, e tem, por costume realizar umas pré-Jornadas, habitualmente em Paray le Monial. Foi a primeira vez que lá fui e fiquei maravilhada. Paray é a cidade onde o Sagrado Coração de Jesus apareceu a Santa Margarida Maria, e toda a cidade vive em torno desse acontecimento. Tem uma Basílica lindíssima, e uns prados onde a Comunidade Emanuel realiza diversos encontros: para adolescentes, para jovens, para adultos, para casais, para sacerdotes … As pré-jornadas decorrem ao longo de quase uma semana, com oração, concertos, workshops, adoração e, principalmente, muita animação musical. Paray funciona como ponto de encontro, nas Jornadas, para os diversos núcleos da Comunidade Emanuel espalhados por França e, no final da semana, todos se dirigem, em caravana, para Paris.
Em Paris, ficamos alojados numa família francesa, que nos acolheu com muito carinho, cedeu-nos o quarto dos filhos e, todas as noites, esperavam por nós para uma pequena conversa antes de dormirmos. Tenho recordações de muita gente (na celebração final estavam 1 200 000 pessoas), muitas bandeiras, muitos espetáculos, muitas caminhadas, muita alegria e muitos sorrisos. A celebração final foi no Hipódromo de Longchamp, na qual participamos e da qual regressamos entusiasmados pelo convite do papa João Paulo II a não termos medo de ser “os santos do novo milénio”.
Roma (2000)
A experiência foi tão boa que entusiasmei outros amigos a participarem nas Jornadas de Roma, no ano 2000, de novo com a Comunidade Emanuel, para poder regressar a Paray e repetir a experiência da internacionalidade e comunidade das Jornadas. Estas Jornadas coincidiram com o Jubileu, que incluía a passagem pela Porta Santa na Basílica de São Pedro. Lembro-me da fila interminável para lá chegar e da frustração acompanhada por muito riso, quando a fila em que íamos passou, não pela porta principal, mas por uma ao lado… Roma ficou-me no coração como uma cidade lindíssima, onde em qualquer rua ou esquina encontrávamos lugares que valia a pena visitar. Ficamos alojados numa paróquia que nos acolheu com muito carinho, com um pároco que acompanhava a celebração da Eucaristia à guitarra, e que nos acompanhou todo o caminho para Tor Vergata a tocar, acompanhado pelos cânticos dos jovens paroquianos. Estiveram presentes 2 000 000 pessoas na vigília. Lembro-me do calor e do regresso a casa com regadelas por parte das pessoas nas casas por onde passávamos, e da oferta de fatias de melancia para refrescar. Ficou a alegria e o carinho do povo italiano.
Colónia (2005)
Em 2005 decidimos ir a Colónia com os nossos jovens, ainda através da Comunidade Emanuel, mas agora com transporte próprio. Fizemos mais uma vez as pré-jornadas em Paray, cidade que me ficou no coração desde as Jornadas de Paris, e depois seguimos para Colónia em caravana com os grupos da Comunidade Emanuel.
A Alemanha foi uma surpresa muito agradável para mim. Tinha uma ideia de os alemães serem pessoas rígidas e pouco empáticas, e foi com muito agrado que vi o seu perfeito oposto. Ficámos alojados em Bergheim, em casas de famílias, que nos acolheram com muito carinho. Partilharam algumas refeições connosco e vi o que agora é comum em Portugal, mas não o era na altura: fazerem encomenda de gelado para entregar em casa no final da refeição … Onde estava a Glovo, Ubereats e outras que tal na altura! Colónia revelou-se uma cidade lindíssima, os polícias (com muitos metros de altura) muito atenciosos, a catedral maravilhosa e um povo muito acolhedor. Durante esta Jornada, participamos em vários eventos, visitamos lugares maravilhosos e vivemos cada experiência em comunidade. Foi uma Jornada em que muitos dos elementos do nosso grupo descobriram a sua veia mais artística, pois formou-se um grupo de animação de Metros e comboios, sempre pronto a atuar com cantos e danças! Mas também disponíveis para bater palmas a quem o fizer. A vigília foi em Marienfeld, já com o papa recém-eleito Bento XVI, onde participaram 1 200 000 pessoas. Estas Jornadas ficaram marcadas pela presença de dois Papas, João Paulo II recentemente falecido, e Bento XVI. Havia imagens dos dois Papas espalhadas por toda a cidade. Foi uma Jornada com dois Papas!
Madrid (2011)
Seis anos depois decidimos repetir a experiência, nas Jornadas de Madrid, em 2011, mais uma vez com autocarro próprio e com o nosso grupo de adolescentes e ainda com a Comunidade Emanuel. As pré-jornadas em que participamos foram em Toledo, apesar de também haver em Paray, por uma questão de logística. Toledo é uma cidade linda e tivemos a oportunidade de visitar a cidade antiga e de participar em inúmeras atividades.
Seguimos para Madrid e tivemos a sorte de ficar alojados num colégio mesmo no centro da cidade. Mais uma vez muitas pessoas, muitas bandeiras, muitas línguas, muitos sorrisos, muita alegria e muito calor! Passeamos, visitamos Museus, participamos em atividades das Jornadas, descansamos, rimos e cantamos. A vigília foi no aeroporto de Cuatro Vientos com o papa Bento XVI. Participaram 2 000 000 de pessoas. Foi uma vigília diferente das anteriores, muito molhada e ventosa, mas passada entre risos, gritos e muita agitação. Fiquei comovida com a preocupação que o Papa mostrou com os peregrinos, no dia seguinte, mal chegou ao local.
E assim considerei a minha participação nas Jornadas terminada. Fiquei de coração cheio com a experiência vivida, com a união na multiculturalidade, com o conhecimento de tantos países e de tantas pessoas, línguas, culturas, com a presença forte e atual da Igreja no mundo, com os sorrisos e abraços trocados … Gostei muito de ter participado, mas entendo que seja para a juventude, como o nome indica, por muitos e variados motivos, sendo um dos quais a disponibilidade para encarar alegremente, com generosidade e espírito aberto todas as situações que acompanham a Jornada em si: a deslocação para o país, o alojamento, a alimentação, a massa humana presente em todos os locais e a vigília no fim de semana de encerramento das Jornadas.
Gostei? Muito! Quero repetir? …….!
Então por que motivo vou à minha sexta Jornada?
Passo a explicar: temos um jovem amigo que se juntou ao nosso grupo há dois anos e nunca participou nas Jornadas!!!!! Com 25 anos!!! Não pode ser!!! Depois soubemos que outro nosso amigo também iria pela primeira vez. E como eu sou uma pessoa de comunidade…. Então decidimos ir!… De espírito aberto, com generosidade, alegremente, e com intenção de rirmos muito, de nós, dos outros e com os outros! Além disso, ainda me faltava uma Jornada com o Papa Francisco para encerrar a minha participação. E há um espírito de alegria, de entusiasmo, de movimento que só se sente nas Jornadas. Afinal, tenho muitos motivos para ir! E assim vou! Vamos! Apressadamente como Maria! Ou pelo menos o mais apressadamente que a minha provecta idade permitir!!!!!!
*Celebração do Batismo e da Confirmação de Adultos – 2 de julho de 2023 – Igreja Matriz da Póvoa de Varzim*
O segundo grupo deste segundo ano de Formação Cristã de Adultos, promovida pela Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Matriz) em parceria com a Comunidade Estrada Clara, culminou com a celebração do Crisma pelo Bispo Dom Delfim Gomes no dia 2 de julho de 2023, na nossa Igreja Matriz. Recordamos, com imensa alegria e muita gratidão, esse dia festivo em que os nossos doze crismandos (a Fátima, a Inês, a Joana, a Joana, a Letícia, da Letícia, o Márcio, o Pedro, o Ricardo, a Rute, a Telma e a Verónica) receberam o Espírito Santo e foram fortalecidos com os seus dons. Lembramos também o percurso particular do Márcio e da Telma que, escolhendo, numa idade adulta, assumir uma vida cristã, receberam os sacramentos do Batismo e da Eucaristia. Foi uma celebração comunitária de fé, de ação de graças e de louvor por este caminho percorrido e pela descoberta de um Deus que nos ama e que nos quer sempre a caminho com Ele e com os nossos irmãos. Que este tenha sido o dia primeiro de um percurso numa fé adulta, consciente, pensada e experimentada, questionada e trabalhada sempre numa dimensão comunitária. Um bem-haja a todo este grupo pelos momentos de partilha, de reflexão e de conhecimento e pela certeza que nos dão de que viver em Deus é, essencialmente, um viver com e para os outros. A nossa eterna gratidão ao nosso pároco e companheiro de caminho, pe Avelino Castro, por este desafio de podermos ser testemunhas de Luz e de Vida. E a nossa alegria tornou-se completa e plena com a presença amável, irmã e acolhedora do nosso Bispo, Dom Delfim Gomes, neste dia em que a Igreja se torna mais Igreja, em que confirmamos que somos Cristãos sempre em comunidade e nunca sozinhos.
Deixamos aqui os registos do quarto encontro “Falar para CRER”, organizado pela paróquia da Matriz em colaboração com a Comunidade Estrada Clara. Este encontro aconteceu no dia 21 de junho e o tema foi “Deus é Amor – o Amor a Deus e o Amor ao próximo”. Neste quarto encontro, fizemos a leitura trabalhada de um excerto da primeira encíclica do Papa Bento XVI, “Deus caritas est”. O texto falava-nos desta dimensão do Amor de Deus e deste Deus que é Amor e da forma como este Amor é concretizado e concretizável na relação humana e na dimensão comunitária. Em seguida, como já vem sendo habitual, em pequenos grupos, os participantes do encontro foram convidados a refletir acerca de duas questões: onde encontro, na minha vida, este Deus que me ama; como sou eu capaz de responder a este amor de Deus. Por fim, em grande grupo, todos partilharam as suas reflexões.
Nestes encontros, continuamos a refletir acerca da atualidade da mensagem cristã e do modo como é possível dizermos que somos cristãos em todas as circunstâncias da nossa vida. Tem sido um caminho bonito este que temos feito nestes encontros. Há uma variedade interessante de vivências e de experiências, mas que têm culminado num ponto comum e significativo – a necessidade de conhecer mais para amar mais, a vontade de partilhar mais para dar mais, o desejo de escutar mais para anunciar mais.
Recordamos que estes encontros “Falar para CRER” estão sempre abertos a todos os agentes da Pastoral (Catequistas, Jovens, Conselho Paroquial, Leitores, Grupos Corais, etc.) das comunidades paroquiais. Não é necessária inscrição, basta aparecer. O próximo encontro é já esta 4.ª feira! Em jeito de balanço final das atividades pastorais, o tema a tratar irá focar a perspetiva sinodal da Igreja como caminho de construção. Juntem-se a nós.
Próximo Encontro “Falar para CRER” – 12 de julho de 2023 (4.ª feira), das 21h às 22h30, no Salão Paroquial da Matriz (Póvoa de Varzim)