O Filho de Deus é um verbo

O Filho de Deus é um verbo – ressuscitar. É Ele quem me faz acreditar que todos os meus dias podem ser manhã de Páscoa, uma oportunidade para ver de novo a vida em movimento. É Ele quem me diz que é sempre possível viver mais plenamente, mais completamente e que novas podem ser todas as nossas decisões que conduzem à Eternidade.

O Filho de Deus é um verbo – olhar. É Ele quem me mostra que há um caminho meu que é a minha escolha, a minha construção. É Ele quem me faz olhar a vida com amor, com alegria, com serenidade.

O Filho de Deus é um verbo – levantar. É Ele quem me ergue depois de cada queda, que me levanta quando o chão me chama, quem me impede de ser menos. É com Ele que eu sigo viagem e vou em caminho.

O Filho de Deus é um verbo – agradecer. É Ele quem me faz compreender o presente que é o presente de cada dia. É Ele quem faz ser grata pelos passos que me vão trazendo até ao meu hoje.

O Filho de Deus é um verbo – abraçar. É Ele quem me diz que, no abraço que dou, ofereço acolhimento, casa, empatia. Crio espaço para o amor poder ser salvação. Amplio os meus sentidos, ergo novas visões, curo tantas feridas.

O Filho de Deus é um verbo – agir. É Ele quem me leva a derrotar a apatia, a indiferença, o egoísmo e faz ir ao encontro dos meus irmãos e sempre a caminho da Terra Prometida, essa doce Páscoa eterna.

O Filho de Deus é um verbo – acreditar. É Ele quem me traz a luz que ilumina as minhas interrogações. É Ele quem me faz crer numa Páscoa eterna, aquela onde a palavra amor não tem mais fim.

O Filho de Deus é um verbo – viver. Porque hoje, vencendo a morte, Ele mostra-me que para sempre vive e que a vida é sempre mais poderosa, eterna e universal.

O Filho de Deus ressuscitou! Por mim, por ti, por nós. É hora de fazer da história da Ressurreição a nossa própria história de vida. É hora de nos levantarmos da inércia para anunciarmos ao mundo que o nosso Deus para sempre vive. É hora de agradecer o privilégio de podermos viver este acontecimento nos nossos dias. É hora de abraçar a vida que hoje começa, a disponibilidade de futuro que hoje nos é oferecida. É hora de acreditar que jamais o medo, a desesperança ou a morte terão a última palavra. Porque Ele vive. Porque Ele está vivo. O Filho de Deus. O Verbo das nossas ações. O Verbo que veio para nós para sermos nós filhos de um Deus sempre vivo. Aleluia! Ele está vivo.

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara, Páscoa 2023

Reflexão para o mês de abril de 2023

Quero é viver!

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte.” (da 1.ª Carta de João – 1 Jo 3, 14)

As cartas de João são textos belíssimos que exaltam a identidade do ser humano enquanto filho de Deus. João aborda, em muitos destes seus escritos, o tema do amor ao próximo, anunciando a ideia de um Amor que nos torna divinos e nos salva da morte. Para João, o amor fraterno está no centro da oposição entre vida e morte. João parte da lei do Amor, proclamada por Jesus, e que é a maior loucura por Ele anunciada. Amar os inimigos, perdoar quem nos fez mal, dar uma nova oportunidade, vencer a morte com a vida. Tudo isto foi, na altura, – e ainda hoje o é! – visto como loucura, incompreensão. Traz dúvidas e incertezas. Muitas perguntas. E sempre muito espanto. Mas, sobretudo, traz consigo a chave da identidade cristã.

Só em Deus é possível aceder a esta compreensão de Amor maior. Só assumindo este amor ao jeito de Deus é possível ver e viver de um modo diferente, louco aos olhos do mundo, mas verdadeiro no coração da Eternidade. Enquanto não optarmos por viver esta dimensão divina, muito do que nos acontece permanecerá inaceitável, inatingível. É fundamental olharmos a vida, o mundo, os outros com os olhos de Deus para podermos passar a viver de um modo mais completo, mais íntegro, mais dimensional. Mais perto de Deus. Em Deus. Só assim avançaremos para a outra margem. Só assim subiremos à montanha. Só assim caminharemos pelas águas. Só assim passaremos da morte para a vida.

O Amor de Deus vai além do que nos é pedido. É feito sem cálculos, sem algoritmos, sem contratos. Sem dúvidas, sem trocas, sem imposições. É um Amor que acolhe, aceita, espera, acredita. Não é oportunista, mas oferece oportunidades; não impõe condições, mas é sempre incondicional; não é desconfiado, mas só vive da e na confiança. O Amor de Deus ultrapassa a simples esfera sentimental, romântica. O Amor de Deus é concreto, deriva em ação, é universal. Por isso, quando amamos verdadeira e genuinamente, estamos unidos a Deus e somos seus instrumentos. E nunca poderemos dizer que somos cristãos se não praticarmos (ou, pelo menos, tentarmos praticar!) este Amor fraterno.

O Amor cura-nos. Salva-nos. Liberta-nos. Afasta-nos do mal. Eleva-nos. Faz-nos sair do que é limitado, rasteiro, mortal. É no Amor que curamos as feridas abertas pela vida que nos acontece. É no Amor que somos salvos dos nossos abismos. É no Amor que recebemos a eternidade daquilo que seremos. É no Amor que compreendemos que a vida é sempre poderosa, sempre mais, sempre vencedora. E é no Amor que, tal como cantava Camões, nos vamos da “lei da morte libertando”.

Sabemos que somos mais quando amamos. Sabemos que crescemos mais quando ampliamos o espaço da nossa tenda para acolher aquele irmão que precisa de um abraço amigo. Sabemos que somos mais felizes quando retiramos de nós o peso do mal, da ofensa, da ingratidão. Sabemos que para sempre viveremos quando escolhemos amar. Jesus escolheu amar até ao fim. Escolheu morrer para nos mostrar que está connosco nos nossos sofrimentos, nas nossas dores, nos nossos abismos. Está ao nosso lado e diz-nos que com Ele, um dia, estaremos plenamente na manhã eterna da vida sem fim. A grande força do Cristianismo é esta aparente fraqueza humana, ou seja, a de escolher o Amor, a opção pela disponibilidade para amar, esta vontade de amar até ao fim.

Aceitar esta essencialidade do Amor de Deus implica escolher abrir-me a Deus e às possibilidades que Ele me oferece. Pede-me que, muitas vezes, assuma uma boa dose de loucura em relação àquilo que o mundo e a sociedade esperam de mim. Faz com que, tantas vezes, tenha de ir por outro caminho, aquele que só quem vive em Deus e por Deus conhece bem. Esta loucura de ser cristão está prevista naquela que Santo Agostinho considerou ser a página das páginas do Evangelho – as Bem-aventuranças, o programa, por excelência, da existência cristã. Jesus revela-nos que viver à moda de Deus é incompatível com a lógica dos vencedores e vencidos que o mundo nos oferece. Numa sociedade marcadamente baseada no egoísmo, nos interesses individuais, todos aqueles que vivem ao estilo de Jesus são incompreendidos. Se o mundo vive em função do poder e da ostentação, do lucro e dos juros, quem mostra que a vida pode ser vivida no dom e no serviço aos outros torna-se uma voz incómoda para o desenvolvimento do sistema capitalista.

Por isso, permanecemos na morte quando escolhemos a via do facilitismo, quando vivemos para o que é terreno, quando nos comprometemos com o que é finito. Permanecemos na morte quando não somos como aquele Pai misericordioso que prepara a festa para o filho que ele jugava perdido. Permanecemos na morte quando não somos como Zaqueu que tudo mudou em si para hospedar Jesus no seu coração. Permanecemos na morte quando não somos como aquele samaritano que tratou das feridas de quem tanto sofreu. Permanecemos na morte quando não somos como aquele bom Pastor que não descansou enquanto não encontrou a sua ovelha.

Vivemos por estes dias o final da Quaresma e o início do tempo Pascal. A morte e a ressurreição de Jesus trazem-nos uma mensagem clara: a vida eterna não é uma condição a que acedemos quando morrermos. Pelo contrário, a vida eterna pode ser vivida no presente, quando escolhemos existir numa comunhão constante com o nosso Deus e, consequentemente, com os nossos irmãos. A vida eterna é uma vontade nossa à qual podemos aceder através da escolha que fazemos – amar. O amor mais forte do que a morte é aquele que foi vivido por Jesus. E é a este nível de Amor que cada um de nós cristãos deve aspirar e, consequentemente, anunciar. É este Amor que nos ressuscita, que nos levanta, que nos faz sair dos túmulos onde tantas vezes nos encerramos.

A Fé não nos livra de uma morte física, mas para quem crê, a morte não é a última e definitiva realidade. A ressurreição de Jesus é a resposta de Deus à vida por Ele vivida, ao seu modo de viver no Amor até ao extremo. O Amor ensinado por Jesus é profecia e antecipação para todos nós, seus amigos, destinados, com Ele e por Ele, a esta mesma ressurreição. Que a Páscoa que celebramos a cada ano faça de nós, em cada dia, uma pessoa de passagem, em caminho, em andamento ao encontro da Terra Prometida. Que saibamos escolher sempre a via do Amor para a vida em Amor. E assim jamais morreremos. E assim para sempre viveremos.

10 anos de Papa Francisco

13.03.2023

Hoje celebramos os 10 anos do Pontificado do Papa Francisco.

10 anos de um Papa que soube trazer para uma Igreja, tantas vezes adormecida, um caminho novo que nos pede para voltarmos às origens e para saborearmos a simplicidade de uma vida dedicada ao(s) Outro(s).

10 anos de um Papa que nos mostra em cada dia a urgência de sermos cristãos de Ressurreição, pessoas em crescimento, em construção de uma fé adulta e sempre alicerçada na esperança.

10 anos de um Papa que, como ele próprio afirmou, o foram “buscar ao fim do mundo” para ser ele, neste tempo, a mostrar-nos agora um mundo novo.

10 anos de um Papa que vive o maior dos mandamentos cristãos – o do Amor. Aquele Amor que salva, que acolhe, que acompanha, que nos leva pela mão, que nos faz ser filhos de um Deus Maior.

10 anos de um Papa presente, interpelante, apaziguador, atento, perspicaz, orante e pensante.

10 anos de um Papa incómodo para quem vive uma fé instalada, confortável e cheia de respostas prontas.

10 anos de um Papa demasiado “moderno” para quem se amarra aos tradicionalismos ocos e desprovidos de sentido e que impedem o olhar para a essencialidade de cada ser humano.

10 anos de um Papa mariano que, à semelhança de Maria, soube dizer o seu “sim” mesmo não sabendo nada, mas apenas confiando e esperando.

10 anos de um Papa construtor de diálogos improváveis, de pontes que são só união, de estradas que são autênticas viagens de Emaús.

10 anos de um Papa destruidor de preconceitos, de julgamentos severos, de ideias mesquinhas que só limitam o desenvolvimento integral da Humanidade.

10 anos de um Papa de sorrisos e de afetos, de abraços amigos e de bênçãos calorosas porque ele sabe que o acolhimento deve ser sempre a marca indelével de cada cristão.

10 anos de um Papa sem aparato, sem vaidades, sem presunções a contrastar com uma sociedade que parece só viver a partir da exuberância e do exagero.

10 anos de um Papa feliz. “Estou feliz porque me sinto feliz. Deus faz-me feliz.”, disse numa entrevista recente.

Obrigada, Papa Francisco! Que privilegiados somos por podermos viver no mesmo espaço temporal. Mas, acima de tudo, por amarmos e sermos amados pelo mesmo Deus.

Falar para CRER – 1.º Encontro

No passado dia 8 de fevereiro, realizou-se o primeiro encontro “Falar para CRER” organizado pela paróquia da Matriz em colaboração com a Comunidade Estrada Clara. O tema abordado neste encontro inicial foi o da vida em comunidade enquanto concretização do mandamento novo de Jesus. No primeiro momento deste encontro partiu-se da leitura de uma homilia do Cardeal José Tolentino Mendonça sobre a essencialidade da identidade cristã sob o signo “Vede como eles se amam”. Em seguida, em pequenos grupos, os participantes deste encontro foram convidados a refletir acerca das consequências da concretização do mandamento do Amor que Jesus nos ofereceu como possibilidade transformadora de vida. Por fim, em grande grupo, todos partilharam como será possível materializar a novidade da mensagem cristã nos nossos grupos paroquiais e na nossa comunidade pastoral. Neste encontro, estiveram presentes cerca de 40 elementos dos vários movimentos paroquiais da nossa comunidade pastoral.

Os encontros “Falar para CRER” têm como objetivo primordial ser um espaço de partilha e de reflexão acerca da vida comunitária. Partindo das vivências de cada cristão, é fundamental refletir acerca da atualidade da mensagem cristã e pensá-la na vida concreta do dia-a-dia, fazendo-a acontecer em atitudes, em ações, em projetos. E em comunidade, em partilha, as ideias fluem de um modo mais construtivo e comum e vamos crescendo em conjunto, alicerçados numa fé trabalhada, adulta, esclarecida e, assim, mais próxima de um Deus que nos quer pessoas inteiras e sempre Ressuscitadas! O próximo encontro “Falar para CRER” acontecerá já esta próxima 4.ª feira, dia 8 de março. Refletiremos acerca da Eucaristia, do seu significado litúrgico e pastoral, do seu impacto na vida cristã, do que simboliza enquanto momento comunitário. Este encontro está aberto a todos os todos os agentes da Pastoral (Catequistas, Jovens, Conselho Pastoral Paroquial, Leitores, Grupos Corais, Confrarias) das comunidades paroquiais. Contamos com todos os que se quiserem juntar a nós.

2.º Encontro “Falar para CRER” – 8 de março de 2023 (4.ª feira), das 21h às 22h30, no Salão Paroquial da Matriz (Póvoa de Varzim)

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de março de 2023

Que queres que te faça?

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Jesus parou e mandou que lho trouxessem. Quando o cego se aproximou, perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» Respondeu: «Senhor, que eu veja!»” (Evangelho segundo São Lucas – Lc 18, 40-41)

O episódio do cego de Jericó é um dos muitos relatos de cura descritos nos Evangelhos. Estas recuperações milagrosas narradas pelos diferentes evangelistas nunca são apenas um mero tratamento físico que é dado aos vários doentes que se apresentam diante de Jesus. Estas curas vão para além disso e ultrapassam a noção redutora de biologia. Estas curas são sempre muito mais emocionais do que somente físicas. Cuidando-se do interior dá-se um novo impulso ao que é exterior.

Nesta passagem, o enfoque é dado à cegueira. Nos Evangelhos, a cegueira tem um significado espesso que importa acentuar. Esta cegueira refere-se, sobretudo, à parte emocional, ao bloqueio afetivo que, tantas vezes, nos impede de ver e, consequentemente, ser.  Quando os olhos da alma estão fechados, não conseguimos vislumbrar o que Deus tem para nos mostrar. Por conseguinte, não conseguimos ver a outra margem nem antecipar uma passagem. Só conseguimos ver o imperfeito, o erro, o inconveniente. Como é possível, então, começarmos realmente a ver? Ultrapassando esta cegueira emocional que consiste em não esconder o desejo de Deus que habita em nós e em não desprezar a nossa vontade de caminhar ao encontro de uma Vida maior.

Nos nossos dias, estamos, muitas vezes, ameaçados pela cegueira do conformismo, da intolerância, da hipocrisia, do preconceito. Vivemos dominados pela cegueira da pressa que a sociedade nos impõe e pelo auto-centralismo. É preciso permitir que a Boa-Nova de Jesus nos retire as vendas e nos mostre o caminho de luz, onde poderemos ser homens e mulheres de olhos grandes que contemplam a vida na sua vulnerabilidade, profundidade e existência. Todos nós precisamos desta cura do olhar. Todos nós precisamos que Jesus nos faça ver de um modo diferente, precisamos que Ele nos permita aceder a uma visão nova da realidade. Um modo de entender para além dos preconceitos, das parcialidades, dos julgamentos.

Em várias passagens do Evangelho, encontramos a importância do olhar, do ver, do observar. Deste ver com o coração, do aprender a ver para além das evidências, do ver o que não se vê. E não se trata de nenhum truque mágico, pois se assim fosse estaria ao nível do impossível, do irrealizável, do distante. A perspetiva com que vemos a vida é determinante para a sabermos viver. Jesus ensina-nos a ver a vida para a vida viver. Um olhar novo, puro e límpido faz-nos ser de forma mais plena, mais íntegra, mais contemplativa. Aprender a ver de uma nova perspetiva traz-nos uma maior espiritualidade para a nossa vida quotidiana. Faz-nos ler os acontecimentos diários com uma luz diferente, com uma confiança serena, com uma certeza de um Amor sempre maior.

Aparentemente banal, mas inegavelmente extraordinária é a questão que Jesus coloca àquele cego. “O que queres que te faça?”. Esta pergunta é também para nós, hoje, no nosso mundo, nos nossos quotidianos. “O que queres que te faça?”. Sim, porque a escolha é sempre nossa. Deus nunca se impõe. Ele apenas se disponibiliza. Sou eu que digo sim à construção de uma relação plena, amadurecida e trabalhada com Ele. “O que queres que eu te faça?”. Responder a esta questão implica-nos, traz-nos responsabilidades, faz-nos assumir o leme da nossa embarcação. Ao dar uma resposta, eu penso-me, eu vejo-me, eu conheço-me e, assim, vou crescendo na minha relação de fé adulta e construída. “Uma pergunta é uma máquina de fazer ver.”, diz o Cardeal Tolentino. De cada vez que nos questionamos, de cada vez que procuramos saber mais, de cada vez que nos expomos ao pensar, estamos a encontrar uma nova forma de ver, de conhecer, de viver. As perguntas sobre a vida não nos livram de todas as dúvidas nem nos fazem encontrar todas as repostas que desejaríamos, de imediato, obter. Mas são estas questões que nos encaminham, que nos despertam, que nos abrem horizontes. A vida é sempre mais feita de perguntas do que de respostas precisamente porque cada dia é um momento de temporalidade e de infinito.

A resposta daquele cego é a nossa resposta. O seu pedido é o nosso pedido, é o grito de uma vida nova, é expressão de um desejo de um começo novo dirigido a Deus. E este grito lançado traz consigo novas questões. Querer ver implica sempre confiar no que não se vê para, então, se conseguir ver. E o que é que eu escolho ver? Como perspetivo eu a minha realidade, o meu dia-a-dia, aquilo que eu sou e como sou? Ver implica aprendizagem, construção, busca.

Aquele cego em Jericó pediu a Jesus, “Senhor, que eu veja”. Que seja também este o nosso pedido. Senhor, que eu te veja sobretudo quando a tempestade aparece, quando o medo me domina, quando a morte se instala. Senhor, que eu veja a tua Luz que não se apaga e que brilha desde o início da vida. Senhor, que eu te procure como te procurou aquele cego, mesmo sem te conseguir ver.

“Senhor, que eu veja”. Ensina-me a ver, a saber ver, a aceitar o que estou a ver, a ver na tua presença e com a tua presença. Ajuda-me a compreender que tudo o que me acontece faz parte do meu processo de vida, da minha história, da minha identidade. Senhor, que eu saiba viver através do que me é dado acontecer. Que eu te encontre sempre no que me acontece. Que eu veja a vida dinâmica, orgânica, edificada em ti.

“Senhor, que eu veja.” É este o pedido diário de cada cristão. Uma prece para todos os dias. Para todos os dias em que a vida acontece, recomeça, segue viagem. Senhor, que eu te veja porque tu tornas a minha vida maior, tu amplias as minhas possibilidades, tu acolhes os meus desafios. Tu fazes da minha vida uma história de amor, uma viagem interior, um anúncio de possibilidades infinitas.

Estrada Quaresmal 2023

Os meus ruídos salvam-me

Mensagem para a Quaresma

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Dentro de mim, há espaço para luzes e sombras, para o bem e para o mal. Quando o mundo exterior se acalma, presto atenção aos meus ruídos interiores, frutos de emoções desaproveitadas, de desenganos, de incómodos.

Nesta Quaresma, vou acolher estes meus ruídos. Vou olhá-los e aprender a lavrá-los para que se tornem fertilizante para uma terra fecunda, a dar Vida.

Os meus ruídos são silêncios. De indiferença e de omissão. De egoísmo e de preconceito. De exigências desumanas e de desamor.

Os meus ruídos evocam-me memórias. Do que não sonhei. Do que não cuidei. Do que não defendi. Do que disse. Do que senti. Do que não ofereci.

Os meus ruídos provocam-me. Com perguntas para as quais não tenho resposta, com dúvidas para as quais não encontro certezas.

Os meus ruídos existem. E lembram-me que a vida só pode ser caminho, construção, colocar e retirar, andar e recuar.

Os meus ruídos falam-me. E dizem-me que não tenho em mim todas as respostas, que não domino todos os acontecimentos.

Os meus ruídos ensinam-me. Que o caminho que vou percorrendo resulta das escolhas que vou fazendo com aquilo que me é dado saber, abrindo espaço para acontecer.

Os meus ruídos mostram-me. Que posso cair, mas que o Amor de Deus ergue-me sempre de novo. Que posso ter medo, mas que não o atravesso sozinha. Que posso sofrer, mas estou sempre bem acompanhada.

Por isso, os meus ruídos também me salvam. Porque me fazem acreditar que há um Deus que só sabe ser Amor, um Deus que sabe dançar comigo, um Pastor que me conduz àqueles belos prados verdejantes.

Os meus ruídos também me permitem aceitar em mim a fragilidade da vida, a imprevisibilidade dos acontecimentos. E assim caminho entre pedras e planícies, entre voos e mergulhos, entre abraços e separações.

Os meus ruídos trabalhados em mim são boia de salvação. Fazem-me acreditar que, no meio da tempestade, há um Deus que fica sempre comigo.

Os meus ruídos pedem-me que confie no que ainda não vejo. Naquele amanhã novo da decisão de viver mais. Na loucura de uma cruz que é sempre salvação para o mundo. No desconhecido que anuncia aquela manhã gloriosa de Primavera em flor.

Os meus ruídos são a ponte que me leva à outra margem. A um lugar onde o silêncio é apaziguador, onde a Vida é sempre vida em tom maior, onde Ele me espera de braços abertos.

Os meus ruídos levam-me a um Deus que me conhece antes de eu mesma me conhecer, um Deus sempre novo que quer fazer da minha vida, em cada dia, uma Páscoa sem fim.

Quaresma. Escutar o que me fala em mim. Quarenta dias de procura, de trabalho, de conhecimento interior. Não para penitenciar. Não para desesperar. Quarenta dias de oportunidade. Para escutar estes ruídos. Para os transformar. Para fazer da minha vida um dia de Páscoa eterna.

Falar para CRER

A paróquia da Matriz vai promover, em parceria com a Comunidade Estrada Clara, os encontros “Falar para CRER”. Numa época em que é cada vez mais imperioso e urgente que os cristãos saibam “dar razões da sua esperança” (1 Pe 3, 15), estes encontros surgem com o objetivo de fomentar o conhecimento da vida cristã, de refletir acerca do que é acreditar e de permitir a partilha de experiências comunitárias. Atualmente, é visível e inegável o poder da palavra, a força da comunicação. É importante falar, mas mais importante é saber falar e saber do que se fala quando se está a falar. É em partilha, em conversa, em relação que vamos aprendendo, descobrindo, assimilando ideias, conhecimentos e conceitos e construindo, assim, a nossa identidade. Tudo isto é igualmente válido para a vida em Igreja. Há muita desinformação a circular, ideias pré-concebidas, preconceitos enraizados que precisam de ser desconstruídos e isto só é possível através da formação. O poder da comunicação é universal e, em contexto religioso, leva-nos a consolidar as nossas crenças, a perceber aquilo em que acreditamos, a viver o que cremos.

Neste sentido, os encontros “Falar para CRER” pretendem ser um espaço de partilha e de reflexão sobre o Outro, que é Deus, e com os outros, que somos todos nós. Os temas abordados terão por base a atualidade da mensagem da vida cristã e o modo como podemos (e devemos!) trazê-la para o nosso quotidiano, para as nossas escolhas e para os nossos contextos. Refletiremos sobre a possibilidade de viver nas nossas vidas a vida de Jesus Cristo e, de um modo muito particular, como podemos ser cristãos esclarecidos e comprometidos com a comunidade paroquial em que estamos inseridos. A metodologia utilizada será a do diálogo partindo sempre de um texto, sendo depois a partilha feita também em pequenos grupos comunitários. Estes encontros terão uma periocidade mensal e estão abertos a todos os elementos das comunidades paroquiais. Não é necessária inscrição. Contamos com todos os que se quiserem juntar a nós.

1.º Encontro “Falar para CRER” – 8 de fevereiro de 2023 (4.ª feira), das 21h às 22h30, no Salão Paroquial da Matriz

A vida toda para toda a Vida

Dia da Vida Consagrada.

Quando se pensa em “vida consagrada”, associa-se esta expressão ao estado mais comum, a vida sacerdotal ou religiosa. No entanto, a vida consagrada tem uma dimensão muito mais ampla. Ser consagrado/a significa dedicar a vida a uma Vida Maior, a um projeto de construção com os Outros por causa desse Outro que é o nosso Deus. Consagrar é tornar sagrado, assumir como relevante, rotular como importante. E esta noção de consagração envolve qualquer escolha de vida e significa sempre uma disponibilidade de coração, de pensamento, de confiança.  Há vinte anos, eu, o Jorge e a Beatriz fomos escolhendo (e digo escolhendo porque este é sempre um caminho que se vai fazendo) esta vida consagrada, dedicada à nossa Comunidade, ao nosso projeto de vida que é a nossa vida toda. Nunca nos guiamos pela ideia limitada que há, segundo a qual a vida em Igreja é só para os tempos livres, para quando é possível, para quando não há mais nada para fazer, para quando se é novo ou velho. Connosco acontecia o contrário, ou seja, tudo o que não acontecesse na Igreja (catequese, grupos de jovens, eucaristias, encontros, passeios, retiros, jornadas) não nos despertava muito interesse. Foi e continua a ser esta a nossa escolha, a de construirmos um projeto de vida cristã que tem como princípios a oração, a espiritualidade, a música, a cultura, o silêncio, o pensamento, o acolhimento, a partilha de ideias e o compromisso diário com uma Vida Maior. Os elementos que connosco partilham esta Estrada – e que são pais e mães, adultos e jovens – são testemunho desta proposta de vida cristã. Costumamos dizer que somos muito felizes com as escolhas que fazemos porque são as nossas escolhas. Nestes últimos dezassete anos, nós os três partilhamos uma vida em comum no espaço onde vivemos, rezamos, conversamos, choramos, sonhamos, sofremos e acreditamos. Por tudo isso, acreditamos que esta nossa vida comunitária poderá ser um incentivo para outras pequenas comunidades de vida em comum que existam em Igreja. “A vida toda para toda a vida”, foi o que prometemos os três num dia bonito de verão diante de um projeto de Vida. E assim continuamos. Feliz dia dos Consagrados!

Ana

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de fevereiro de 2023

Uma Luz que não se apaga!

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus.” (Evangelho segundo São Mateus – Mt 5, 16)

“Estórias Abensonhadas” é o título de um livro do criador de palavras e escritor Mia Couto. Considero esta expressão muito feliz e muito verdadeira. Somos, de facto, este misto de bênçãos e de sonhos, somos “abensonhados”. E a nossa vida, com todas as suas alegrias e tristezas, avanços e recuos, risos e choros, é um conjunto de histórias que reflete esta inegável variedade. Em todos os tempos, Deus escolhe-nos, chama-nos pelo nosso nome e conhece quem somos.

Nesta passagem do Evangelho de São Mateus, Jesus reforça-nos esta bênção. Somos feitos de Luz. Jesus diz-nos que nós já somos esta Luz. E Ele confia em nós, nunca o deixando de o fazer em momento algum. Jesus encoraja-nos a tomar consciência disso mesmo, ao procurarmos ser e viver essa Luz. Ser esta luz através das nossas obras, dos nossos movimentos, das nossas idas e vindas. Todos nós cristãos somos chamados a agir de um modo comprometido. Jesus convida-nos a segui-lo e espera que este nosso seguimento se manifeste num estilo de vida. Anunciamos Jesus através daquilo que somos, de quem somos, daquilo que vivemos e escolhemos.

Por isso, não pode existir um cristianismo que não esteja envolvido nos desafios atuais que a nossa sociedade apresenta. O cristão deve estar onde a dignidade é ameaçada, onde a injustiça quer dominar, onde os irmãos são rejeitados. Ser cristão não é nunca viver à parte. Ser cristão é fazer parte da parte, de todas as partes. O cristianismo autêntico, real, concreto vive-se, mostra-se, apresenta-se. Por isso, a vida do cristão é sempre a sua primeira mensagem. O cristão humaniza os ambientes, os contextos em que habita. O cristão torna visível, com a sua vida, a profundidade das coisas, o mistério de Deus.

Todos nós temos essa luz que atrai quem nos rodeia. Felizmente, não faltam exemplos de pessoas que fazem da sua vida um hino à bondade, ao altruísmo, à relação. Mas aqueles que acreditam que esta nossa luz vem de Deus, sabem que esta luz é mais verdadeira, mais universal, mais comunitária. A luz do cristão nunca brilha sozinha. A luz do crente nunca existe no singular. Não é a minha luz, é a luz de Deus para o mundo. Através do meu caminho, das minhas escolhas, eu deixo que Deus venha ao mundo. Deus diz-se presente no mundo atual através daquilo que o cristão é. Por isso, a nossa tarefa enquanto discípulos de Jesus é deixar transparecer essa luz que em nós habita, é ser sinal da sua presença divina no meio dos homens.

A missão do cristão é manter esta luz acesa quando, tantas vezes, é mais fácil diminuí-la ou até mesmo apagá-la. E não precisamos de culpar os outros, as circunstâncias, o mundo. A responsabilidade é, muitas vezes, apenas nossa. Quando deixamos de falar em esperança, quando vivemos a indiferença, quando não sabemos ser gratos, quando silenciamos a vontade de pertencer, quando fazemos cálculos em vez de amar. De cada vez que esta luz se apaga, deixamos que a aridez da nossa alma cresça. Tornamo-nos profissionais da tristeza, da negatividade, do desespero. Tornamo-nos menos quando não nos permitimos ser mais. Assim, o maior projeto humano é não deixar que o mundo, tantas vezes agreste, nos seque, é não permitir que os incêndios quotidianos nos queimem a vontade de sonhar, é não possibilitar que o fim da linha faça parte do nosso desenho.

Nesta passagem do Evangelho, não é por acaso que Jesus refere, quase em simultâneo, luz e mundo. Isto acontece porque não se pode dissociar estas duas realidades. Um cristão precisa do mundo e Deus desafia-nos a abraçá-lo, a acolher as suas circunstâncias e a viver de um modo íntegro neste lugar de tanta contradição. O cristão não é uma realidade abstrata ou inconcreta. O cristão é chamado a exercer, com a sua luz, um poder modificador. Este é o maior tesouro que Deus nos dá. Podermos ser, com Ele e por Ele, Luz para um mundo novo. Por isso, devemos perguntar-nos: o que faço com esta luz que me é dada? Como pode a minha vida refletir esta luz que me foi oferecida?

A nossa luz brilha sempre que os nossos olhos não se fecham, sempre que continuamos a caminhar até à Terra Prometida, sempre que decidimos seguir viagem. Esta Luz é vida que vive em cada dia nosso. Vivermos em relação é condição fundamental para descobrirmos em nós luzes que levávamos e não víamos. Todos temos esta luz. E temos escolhas. Podemos esconder esta luz e fingir que não é nosso o papel de fazer do mundo um lugar de gratidão. Ou podemos revelar esta luz e iluminar os dias que nos são dados, mostrando ao mundo como é possível fazer caminho em paz, fraternidade, comunidade.

Deus chama-nos a todos a sermos esta luz, sem condições ou restrições. A todos nos é oferecida esta possibilidade, a de sermos luz. É desafiante? Muito. É exigente? Tantas vezes. É caminho de vida? Sempre. A essencialidade do nosso ser humano só se completa quando aceitamos dar a vida pela vida desta luz. É sempre dando que recebemos. É sempre iluminando que somos iluminados. Que possamos ser, em cada dia, a Luz que vem de Deus, esta luz que nunca se apaga em nós. Que a nossa Luz brilhe sempre entre nós.

Colorir a Fé

O ano de 2023 é sinónimo de Jornadas Mundiais da Juventude. E ser sinónimo de juventude é olhar a vida com alento, com alegria, com ação. A Igreja põe sempre toda a esperança nos jovens e naquilo que eles podem ser. Quem lida com eles e, sobretudo, quem faz parte do seu percurso de educação e formação cristãs, sabe o quão exigente e desafiador é este mesmo caminho. Os tempos vão mudando, as atividades vão-se modificando, outras escolhas vão-se fazendo. O trabalho com jovens, em Igreja, deve ser sempre cuidado, acolhido, amado. Tendo durante muitos anos trabalhado com esta faixa etária, a Comunidade Estrada Clara congratula-se com o facto de ver que os jovens, com os seus sonhos, vontades e percursos, querem, com a sua vida, fazer da vida da Igreja uma Vida Maior. Por isso, foi com muito gosto que participamos no encontro “Colorir a Fé”, a convite das animadoras dos grupos de adolescentes e jovens da nossa paróquia (Matriz). O objetivo deste encontro foi o de sensibilizar os adolescentes e jovens dos grupos para a ligação umbilical existente entre a música e a dimensão religiosa e a forma como ambas se complementam. O encontro foi dividido em “workshops” sobre a relação entre a música e a vivência cristã. Os participantes puderam experimentar instrumentos musicais e praticar o canto e também analisaram e exploraram a ligação entre música e letra em várias canções. A Comunidade Estrada Clara orientou o workshop “Música e Espiritualidade” onde proporcionamos aos adolescentes e jovens um momento de meditação através do silêncio interior de cada um em harmonização com uma música que ouviram, tendo depois partilhado as sensações sentidas. Todos concluíram que a música é um suporte único para a oração, seja ela individual ou comunitária. Através da música que ouvimos em silêncio ou através dos cânticos que entoamos, a nossa oração torna-se mais vivida, mais bela, mais presente. E assim a nossa vida interior vai crescendo. E assim nós vamos vivendo Deus. Um agradecimento carinhoso às animadoras da nossa paróquia e o oferecimento da nossa disponibilidade para continuar a colaborar nestes encontros que são sempre caminho para o desenvolvimento integral de cada cristão.