A Comunidade Estrada Clara orienta encontros para adolescentes, jovens e adultos, tendo como ponto de partida a mensagem de Jesus Cristo e como objetivo primordial dar a conhecer a vivência desta mesma mensagem no quotidiano, nos contextos, nas escolhas e nos estados de cada ser humano.
Os nossos encontros “Caminho em Ti”, destinados a adultos, pretendem ser um espaço de reflexão, conhecimento e partilha. A Comunidade Estrada Clara disponibiliza-se para promover estes encontros num contexto de evangelização paroquial e interparoquial. A partir de um tema proposto (que pode ser uma passagem bíblica, um texto de um autor, uma canção, uma poesia, um pequeno filme, etc.), os participantes nestes encontros têm a possibilidade de, através de diversas atividades, fazerem um caminho de descoberta da essencialidade de Jesus Cristo nas suas vidas tendo como porto de partida esse mesmo tema trabalhado. Partindo da experiência comunitária, cada participante irá descobrir, num diálogo consigo mesmo e com os outros, o que significa dizer Jesus com a sua vida, isto é, como é possível ser, hoje em dia e em cada dia, uma testemunha viva do Ressuscitado num mundo em mudança e em crescimento. Estes encontros incluem momentos de oração, de silêncio, de escuta, de conhecimento, de partilha, de compromisso e de reflexão.
* Encontros “Caminho em Ti” *
Destinatários: adultos a partir dos 20 anos
Duração: um dia
Esquema de atividades:
– Momento(s) de Oração
– Tema (abordado em duas partes)
– Reflexão individual
– Grupos de partilha
– Reflexão partilhada
– Compromisso: “No meu caminho pessoal e comunitário, eu ….”
Este esquema pode sofrer alterações consoante os grupos envolvidos, o local de realização do encontro e outras circunstâncias. Para mais informações acerca destes encontros, contactar a Comunidade Estrada Clara: comunidade.estrada.clara@gmail.com.
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às coisas da terra.” (da Carta aos Colossences 3, 2)
Há alguns anos, numa entrevista dada ao jornal “Público”, o cardeal Tolentino Mendonça afirmou: “Não conseguimos encontrar sentido na vida com os olhos colados aos sapatos. Precisamos de infinito, nem que seja de um fragmento de infinito.” Guardei sempre como um sinal de alerta pessoal estas suas palavras e, quando leio esta passagem da carta de São Paulo aos Colossenses que serve de ponto de partida para a nossa reflexão mensal, relembro a minha promessa de procurar sempre esse fragmento de infinito que se encontra no alto, naquilo que é elevado.
Os anos passaram, mas estas afirmações do nosso cardeal poeta maior continuam a ser atuais. De facto, vivemos demasiadamente com os pés no chão, a olhar o lugar que pisamos, os sítios que percorremos. Infelizmente, esta é uma tendência muito nossa, muito humana, a de viver com os olhos no chão, naquilo que é pequenino, no que é limitado. Entendemos, muitas vezes, as nossas ações como sendo de curto alcance, de estreiteza de vistas, de finitudes já estabelecidas. Tudo isto tolda-nos e impede-nos de encontrar o que está mais além, o que de mais infinito temos para alcançar e viver.
Quando percorremos as ruas das cidades, no frenesim do nosso dia-a-dia, o habitual é mesmo este, o de nos vermos apressados, agitados, caminhantes de olhos colados aos sapatos. Ou então de olhos colados aos nossos gadgets digitais que nos alienam para um mundo virtual e, por isso, romanticamente distante, ausente e irreal. Com tanto a acontecer à nossa volta, por que razão serão os nossos sapatos a receber o privilégio do nosso olhar? Com tanto a observar e a contemplar diante dos nossos olhos, por que motivo damos primazia ao chão?
Há uma sede inegável de infinito, o ser humano é, por natureza, um ser insatisfeito com a mediocridade do dia-a-dia, do que já é sabido e conhecido, do que não é agradável. O homem tende para a busca e esta procura não se esgota no horizonte dos nossos sapatos. A condição humana é a condição de peregrino, caminhante. O nosso olhar pede-nos mais, a nossa vida quer levar-nos para bem mais longe. Procurar as “coisas do alto” não é fugir da realidade, mas antes encontrar aqueles ideais que não acabam: a justiça, a verdade, a paz, a solidariedade. Buscar as “coisas do alto” não é sinónimo de uma vida poupada a problemas e questões, mas antes a escolha de uma vida real, concreta, com os seus trabalhos e desafios sem, contudo, perder a dimensão espiritual, elevada, infinita que nos vem de um Deus maior. Afeiçoar-nos às “coisas do alto” é priorizar o que realmente importa, é dar valor ao que não tem fim.
Todos sabemos que a vida terrena é efémera. Por isso, as “coisas da terra” serão sempre zonas de conforto que, de forma limitada, nos oferecem esse conforto e certezas. As “coisas da terra” dão-nos alegria e satisfação, mas serão sempre limitadas pela sua finitude. Devemos, por isso, aproveitá-las e vivê-las, realizando através delas a nossa vocação, mas sempre com o olhar no infinito que nos é oferecido por Deus. E só com um olhar mais amplo, conseguiremos ver melhor o terreno, aceitar o quotidiano e vivê-lo com serenidade. Olhar para o alto amplia a nossa capacidade de espanto, a nossa criatividade, o nosso desejo de edificar, de construir. A maior das graças é a de conseguir ver o nosso quotidiano a partir de Deus, é pensar a vida e as suas circunstâncias e contrariedades a partir do nosso entendimento de filhos de um Pai que nos ama infinitamente. A decisão é sempre minha. Eu posso escolher construir o meu dia na certeza de que a vida é mais. Eu posso decidir deixar de ter os meus olhos baixos sobre os problemas e as dificuldades que me aprisionam e limitam. Eu posso optar por levantar os meus olhos para a Luz e ser também eu uma luz. Quando eu escolho viver as “coisas do Alto”, as “coisas da terra” ganham outra dimensão, outra explicação, outra elevação. É no meu dia-a-dia que eu sou chamada a ser um sinal de Deus, a viver a minha condição de filha de Deus, a construir o meu caminho. É no meio do mundo que eu sou criatura amada de Deus. Mas para o ser em toda a plenitude, tenho de continuar a olhar para o Alto, para Aquele que não tem fim. A história humana está cheia de exemplos de homens e mulheres que escolheram, no meio de nós, viver nas alturas e para as alturas. Um desses exemplos é o de Chiara Lubich que procurou sempre um Ideal que não morresse, que não tivesse fim. E ela encontrou-o quando se deixou encontrar por Jesus.
Viver o infinito é fazer acontecer a sua procura. Olhar o infinito é caminhar de olhos abertos, cheios de esperança, daquela esperança que cansa de tanto esperar, mas que existe por isso mesmo. Por isso, não vivamos com os olhos colados aos sapatos. Não vivamos com o nosso pensamento colado em nós próprios, no nosso egoísmo, nas nossas autoproclamadas defesas. Não finjamos que o melhor de nós não chama por nós. Não nos percamos nas autoestradas da vida que com facilidade e rapidez nos levam para qualquer lado, mas que nos impedem de contemplar com tempo, com espanto e com atenção a simplicidade dos caminhos longos. Não fixemos os nossos olhos no fim da linha porque podemos estar a cancelar o seu início. Sigamos o conselho de São Paulo e tenhamos as “coisas do alto” como as nossas guias. Que a partir desta busca pelas “coisas do alto” saibamos perspetivar as “coisas da terra”, num diálogo infinito olhando a nossa vida concreta de um modo largo, amplo, maior. E assentemos os nossos pés nas estrelas, nessa Estrela Maior que é Jesus, aquele que soube viver as “coisas da terra” olhando sempre “as coisas do alto”.
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Este é o dia que fez o Senhor: nele exultemos e nos alegremos!» (Salmo 118, 24)
Gosto de setembro. Apesar das férias terminarem, dos dias ficarem mais pequenos e das roupas começarem a pesar nos corpos. É o fim da confusão nas ruas da cidade, dos amores de Verão que só duram enquanto o sol brilha, da apatia massificada que inexplicavelmente contagia quem por ela se deixa seduzir. Gosto de setembro. São dias de começos, de inícios, de novidades, de encontros, de agendas, de projetos. É importante marcarmos determinados dias e momentos desde que lhes possamos atribuir um significado de futuro, de perspetiva, de crescimento. Não é pintar esses dias de saudosismos e de lembranças nostálgicas que nos levam a acreditar que o que aconteceu ontem foi o melhor das nossas vidas, mas sim escolher um dia para fazermos escolhas e projetos que nos levem a sermos pessoas mais elevadas. Marcar um dia para lermos um livro, para arrumarmos os nossos armários, para estarmos em silêncio, para combater os amuos e os negativismos. Marcar alguma coisa é para isso mesmo, para marcar! Para nos fazer crescer e evoluir, para nos obrigar a deixar para trás a preguiça e o desânimo, para nos levar a abrir novas janelas. Por vezes, precisamos destas metas traçadas que nos dão força para tomarmos decisões e que nos impelem a caminhar para a frente e a descobrir que podemos ser muito melhores do que aquilo que somos.
Quando tantas vezes se fala em datas, horários, marcações, por vezes pensamos em regras, imposições e obrigações, acarretando assim um significado negativo e nada natural e próprio do que é humano. Acredito que esses dias marcados podem contribuir para o nosso equilíbrio, para o nosso bem-estar e serenidade. Se encaramos esses dias como obrigações, eles, de facto, não passarão disso mesmo… obrigações! Obrigações que por si só nos reprimem, nos limitam e nos enfraquecem. Há sempre a possibilidade de fazermos dias novos, de caminharmos de começo em começo, de irmos de início em início. De deixarmos para trás o que nos amedronta e nos prende ao chão. De deixarmos que apareça a vida inteira que há dentro de cada um de nós.
Por isso, é preciso que esses dias apareçam para exigirem de nós tudo aquilo que podemos dar. Descobrir que em cada ser humano há a possibilidade de recomeçar, de criar, de fazer de novo, de inventar. Enquanto crentes, entendemos que em Deus tudo pode ser novo a cada dia e que nunca nada se esgota ou termina em época alguma. Na história do povo de Deus, há imensos dias marcantes na vida de todos aqueles que quiseram fazer brilhar a sua luz no meio dos homens. O dia em que Abraão deixou a sua terra para encontrar a Terra Maior, o dia em que Moisés descobriu que pertencia a um Deus infinito, o dia em que Maria sentiu que o seu filho tinha qualquer coisa de especial, o dia em que Jesus deixou a sua casa para iniciar a sua grande viagem, o dia em que Pedro começou a seguir Jesus, o dia em que as mulheres chorosas foram ao sepulcro e de lá vieram a cantar. Dias de luz, de decisão, de caminho. O dia em que Chiara Lubich não acompanhou os pais e escolheu ficar numa cidade destruída. O dia em que o irmão Roger se deixou encantar por aquela pequena e simples aldeia no sul de França. O dia em que Nelson Mandela se tornou um homem livre para lutar pela liberdade dos outros. O dia em que Jorge Bergoglio se apercebeu que já não voltava para a sua amada Argentina. Em Deus há sempre dias novos, dias de mudança. Não é preciso que estejam marcados num calendário, apenas é preciso que estes estejam marcados nas escolhas que fazemos e sabemos fazer a cada dia que é nosso e que nos pertence. Não é preciso esperarmos por um dia especial nem por nada de extraordinário para deixarmos que o melhor aconteça em nós. O que é fundamental é estarmos disponíveis, atentos, com o coração aberto. Deixarmos fluir e ouvir o que Deus tem para nos dizer, Ele que nos fala de tantos modos e formas através de tudo e de tanto que nos rodeia.
No domingo de Páscoa, o dia maior dos Cristãos, celebramos precisamente esse dia primeiro e cantamos alegre e jubilosamente, com o salmista, “Este é o dia que fez o Senhor. Nele exultemos e nos alegremos.” Acreditamos que o Senhor faz todos estes dias para nós, acreditamos que nos é dada a oportunidade de fazer de cada dia um dia grande, grato, maior. Cada dia que nos é dado para viver é sempre uma possibilidade e se é uma possibilidade é a vida a acontecer. É uma tarefa diária e constante a de cuidarmos dos nossos dias. Mesmo quando esses dias amanhecem cinzentos, chuvosos, cansativos, tristes. A vida é feita destas turbulências que tantas e tantas vezes nos servem de plataforma de lançamento para dias maiores, imensamente claros e luminosos. Vivamos, então, todos os dias com a certeza de que há sempre uma possibilidade, uma oportunidade, um caminho. Agradeçamos cada dia, cada momento, cada partilha. Todos os dias a vida terrena nos lembra que é efémera. E todos os dias podemos lembrar a maravilha que é viver cada dia. Em simplicidade. Em gratidão. Em espanto. Procuremos a essencialidade da vida naquilo que a vida nos dá. Não nos gastemos em rancores, incompreensões, maledicências. Busquemos o que é bom, o que nos faz bem, o que nos ilumina. E em cada dia saibamos fazer estas escolhas.
Gosto de setembro. Dos dias novos que vão chegar. Dos projetos de um futuro maior. Das escolhas que todos faremos. Da paz e da serenidade que o silêncio nos traz. Dos livros que vamos ler. Das palavras que vamos cantar. Das perguntas que vão aparecer e das mudanças que surgem depois como resposta. Gosto dos dias que vou escolher e dos propósitos que serão o meu lema. Felizes dias novos. É preciso fazer de cada dia um domingo de Ressurreição, o primeiro dia da semana, o dia em que Jesus Vivo lembra a cada homem e a cada mulher que há uma Vida que não acaba aqui. Seguimos juntos!
A Festa da Francesinha Colegial 2022. Poderiam ter sido só quatro dias de convívio, comida, música e festa para a angariação de fundos para as atividades paroquiais. E se só assim fosse, já teria valido a pena. Acontece que esta Festa da Francesinha foi para além de tudo isso. Foi sinónimo de alegre partilha, novos encontros, olhares luminosos, abraços reconfortantes, palavras amigas, trabalho em equipa, ajuda presente. Foi a parábola da multiplicação dos pães e dos peixes. Foi o famoso “team building activity” que hoje tantas empresas procuram, mas que, em Igreja, já existe há muito tempo, mas com outra nomenclatura. Foi o procurar aplicar o melhor de cada um para oferecer o melhor de todos. Foi o deixar de dizer “eu” para passar a dizer “nós”.
Para quem acredita e se dispõe a isso, a vida está cheia de anúncios de Deus. Quando escrevi a reflexão para o mês de agosto, estava longe de imaginar que iria assistir, tão imediatamente, à concretização destas palavras: “Ninguém se pode tornar cristão para si mesmo. Nós somos cristãos com os outros. Enquanto Cristãos, a nossa missão é a de acolher, cuidar, abraçar, salvar.” Deus continua a querer fazer-se presente nos nossos quotidianos e de muitos modos. Fazendo parte de uma Festa da Francesinha Colegial, por exemplo.
Foi a primeira vez que, como Comunidade Estrada Clara, participamos neste evento comunitário. E sentimos uma grande alegria por vivermos estes dias em grupo, por mais este pedacinho de estrada percorrido, por as nossas estradas poderem ser partilhadas com outros em direção ao Outro. Sentimos que, mais uma vez, é sempre possível fazer brilhar a Luz de cada um no mundo. A servir francesinhas, a registar os pedidos, a tirar finos, a descascar batatas, a entregar sobremesas. E assim também se diz Comunidade com a vida.
Um agradecimento amigo aos nossos “chefes”, Arminda e Mário, que nos fizeram sentir sempre em casa de uma forma bonita e são exemplo de dedicação, trabalho e alegria deste evento. A nossa gratidão ao padre Avelino por, mais uma vez, nos lançar estes “desafios”, acreditando connosco e seguindo caminho, ao nosso lado, na nossa Estrada Clara.
No primeiro fim de semana de agosto, alguns elementos da Comunidade Estrada Clara participaram no encontro “Logoterapia e Análise Existencial” promovido na Casa da Torre, em Soutelo, Braga. O encontro foi orientado pela professora universitária e psicóloga Ana Cláudia Fernandes e teve como ponto de reflexão a Logoterapia, a terapia de sentido de vida criada por Viktor Frankl, um psiquiatra austríaco mundialmente conhecido pelo seu livro fundamental, “O Homem em busca de um sentido”, no qual ele simultaneamente descreve a sua experiência enquanto prisioneiro em campos de concentração e lança as bases do seu movimento psicológico. Ao longo de todo o fim de semana, foi possível, em grupo, conhecermos os fundamentos desta abordagem terapêutica que se foca, essencialmente, na busca do sentido para a vida de cada homem e mulher ao mesmo tempo que também reestrutura a noção da experiência do sofrimento e privilegia a ideia de autotranscendência do ser humano. Juntando a tranquilidade e a serenidade de um lugar de retiro como o é a Casa da Torre com a partilha de ideias, de experiências de vida, de questões, de descobertas, este encontro foi um ponto de partida para uma consciencialização do sentido de espiritualidade que cada um de nós busca em cada dia. A Logoterapia é precisamente a terapia de encontro de sentido, na ajuda que fornece a cada um na descoberta do sentido pessoal da vida a acontecer e a realizar. Para os elementos da Comunidade Estrada Clara, a participação neste evento foi inegavelmente enriquecedora, uma vez que veio ao encontro das linhas orientadoras desta Comunidade – o trazer para a luz de cada dia essa busca de sentido último que é o Outro que tudo realiza em nós. Enquanto projeto de vida cristã, a Comunidade Estrada Clara também pretende proporcionar a descoberta da centralidade existencial de cada pessoa, trabalhando profundamente todas as suas dimensões, com especial enfoque na vertente espiritual. Assim sendo, este encontro em Soutelo também serviu de inspiração para atividades futuras a promover tendo como ponto de partida esta descoberta de cada um de nós enquanto seres únicos e capazes de olhar a vida (com todas as suas circunstâncias, alegres e tristes) com serenidade e com esperança.
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» (do Evangelho segundo São Lucas 19, 5)
A história de Zaqueu é uma das passagens mais conhecidas e comentadas da Bíblia. Nela se aborda o encontro de Jesus com alguém que, aos olhos da sociedade da época, era um pecador, sem possibilidade de redenção. O encontro de Jesus com este homem é transformador, desafiador para os críticos do seu tempo e é sempre sinal de vida nova para todos nós.
Neste texto bíblico, há um acontecimento curioso e que, muitas vezes, ao lermos esta narrativa, acaba por passar despercebido. É o momento em que Jesus, avistando Zaqueu, lhe diz que precisa de ficar em sua casa. Esta urgência deste pedido feito por Jesus está carregada de amor, de acolhimento, de proteção. E é um pedido que Ele nos faz a todos nós. Jesus quer ficar em nossa casa, na nossa vida, nos nossos espaços. É Ele quem vem até nós e nos pede abrigo. Este pedido que Jesus faz a Zaqueu inaugura o princípio da hospitalidade que é marca indelével de todo o Cristianismo. Antes de sermos Igreja, temos de ser acolhimento. Para sermos Igreja, temos de ser acolhimento.
Hospitalidade significa estarmos preparados para acolher, para receber, para sermos casa para os outros, para sermos um abraço amigo, um olhar de ternura. Nos Evangelhos, a hospitalidade é um tema fulcral. A conhecida passagem das irmãs Marta e Maria. O pai misericordioso do filho pródigo. O bom e cuidadoso samaritano. Mas o primeiro sinal de acolhimento acontece quando o próprio Deus se faz presente numa criança. Maria e José são os primeiros a acolher e a hospedar Deus nas suas vidas.
Hospitalidade é uma forma de amor. Jesus pede a Zaqueu hospitalidade. Quer ser recebido em sua casa. O método de Jesus é sempre o de amar primeiro, o de procurar, o de se fazer presente. Jesus transforma os comportamentos e as atitudes mais marcadamente desumanizadas em vias de proximidade, amizade e hospitalidade. Jesus oferece a Zaqueu o seu Amor e a sua presença de uma forma incondicional, sem estratagemas, sem negociações, sem pré-requisitos. E respeita a sua liberdade, valor tão fundamental para que o posterior “sim” de Zaqueu a uma vida nova – ele compromete-se a partilhar com os pobres os seus bens e a emendar injustiças – possa ser verdadeiro e pleno. Jesus é sempre o primeiro a querer fazer parte da nossa vida. Zaqueu, aquele homem desprezado pelos seus, sentiu a hospitalidade de Jesus e isso renovou-o, isso fez dele um homem novo, que deseja a mudança. Começa para ele uma vida nova porque ele próprio assim o quis, assim se disponibilizou a mudar. Neste episódio de Zaqueu, Jesus mostra a disponibilidade de Deus frente a toda a humanidade. Jesus toma sempre a iniciativa, não espera primeiro uma conversão. Este é o modo de Deus amar.
Hoje, Deus continua a querer entrar em nossa casa, a querer habitar connosco, a querer ficar entre nós. E isto acontece de tantas formas, através de tantos acontecimentos quotidianos. Ouvimos, no nosso coração, as mesmas palavras escutadas por Zaqueu: “Hoje tenho de ficar em tua casa.” Nos tempos de correm, nós devemos ser estes lugares de acolhimento, de presença, de fortaleza. Devemos ser uma palavra inteira, uma força firme, uma presença serena. O mundo anda enraivecido, irritado, desiludido. As pessoas procuram refúgios e cada um de nós tem essa obrigação, essa missão, a de ser casa, porto de abrigo, segurança. Enquanto cristãos, a nossa obrigação é a de acolher. Receber sempre. Sem entraves. Sem dúvidas. Sem julgamentos. Que não se assuma como cristão aquele que não abre a sua porta a quem é diferente, aquele que rejeita amar, aquele que julga e condena o que não conhece. A identidade crente constrói-se a partir da noção de hospitalidade enquanto marca fundamental do testemunho cristão.
Estamos num tempo de mudança, novos ventos se agitam, um novo olhar nos é pedido pela vida. São tempos desafiadores, mas simultaneamente de profunda reconstrução. Por isso, a Igreja deve ser o primeiro espaço onde se demonstra, acima de tudo, a hospitalidade para com a humanidade de hoje, para com o mundo moderno e as suas particularidades e contextos. O Cristianismo proclama uma nova forma de estar com os outros, uma cultura de proximidade, de união. Por isso, a hospitalidade reflete a vida da Igreja. Sem ela, a Igreja esvazia-se do seu significado fulcral: acolher e cuidar das pessoas e envolvê-las no mistério divino. Por meio da Igreja, Deus acolhe a humanidade e a humanidade acolhe Deus. A hospitalidade é assim um dos mais profundos gestos fraternos porque pressupõe o acolhimento e a valorização do ser humano na sua individualidade. Viver a hospitalidade é cuidar do outro na sua plena integralidade. A Igreja só pode ser um lugar de acolhimento, sendo os cristãos esses mesmos instrumentos que agem na Igreja, acolhendo, cuidando, lutando contra os individualismos, os egoísmos, os preconceitos. Mais do que nunca, hoje, a hospitalidade é um grande desafio. Por vezes, julgamo-nos pessoas de acolhimento, mas basta uma situação em que os nossos pré-conceitos surgem e colocam logo em causa essa mesma hospitalidade. Tantas vezes habita em nós a indiferença para com o sofrimento do outro. Outras tantas vezes cedemos à tentação do julgamento fácil e imediato. E muitas outras vezes deixamo-nos levar pela nossa vontade em impor aos outros regras, negociações e trocas.
Ninguém se pode tornar cristão para si mesmo. Nós somos cristãos com os outros. A Igreja, enquanto casa de hospitalidade, não se pode isolar, é preciso que se construa em comunhão com a Humanidade, que demonstre, através dos seus membros, a essencialidade da mensagem salvífica de Jesus. Ao longo desta última década, o Papa Francisco tem proclamado a necessidade de uma Igreja relacional e acolhedora e não uma Igreja feita de crentes que julgam e ostracizam, deturpando a essencialidade da mensagem de Jesus. Enquanto Cristãos, a nossa missão é a de acolher, cuidar, abraçar, salvar. A hospitalidade cristã derruba os muros da ingratidão, da indiferença, da distância.
O monge Thomas Merton afirmou que “aquilo que devemos fazer hoje não é tanto falar de Cristo, mas deixar que Ele viva em nós, de tal modo que as pessoas possam encontrá-lo ao sentir como vive em nós.” Esta é a nossa missão enquanto cristãos viventes na nossa sociedade. Sabermos ser casa para este Deus que nos ama e levar o seu Amor aos outros através da nossa vida, das nossas escolhas, dos nossos caminhos. Deus acredita em cada um de nós. Ele quer ficar connosco, quer ser a nossa casa. Deixemo-nos invadir pelo seu Amor. Façamos da sua casa a nossa casa. Desçamos das árvores que nos isolam do mundo, deixemos os preconceitos e os julgamentos inúteis e acolhamos este Deus que quer ser tudo em nós. Assim seremos casa. Assim seremos Luz.
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO NA SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO
Basílica de São Pedro,quarta-feira, 29 de junho de 2022
Revive, hoje, na Liturgia da Igreja o testemunho dos dois grandes Apóstolos Pedro e Paulo. O primeiro, que o rei Herodes metera na prisão, ouve o anjo do Senhor dizer-lhe: «Ergue-te depressa» (At 12, 7); o segundo, resumindo toda a sua vida e apostolado, diz: «combati a boa batalha» (2 Tm 4, 7). Tendo diante dos olhos estes dois aspetos – erguer-se depressa e combater a boa batalha –, perguntemo-nos que podem eles sugerir à Comunidade Cristã de hoje, empenhada no processo sinodal em curso.
Antes de mais nada, os Atos dos Apóstolos falam-nos da noite em que Pedro foi libertado das correntes da prisão; um anjo do Senhor tocou-lhe o lado enquanto dormia, despertou-o e disse: «Ergue-te depressa!» (12, 7). Desperta-o e pede-lhe para se erguer. Esta cena evoca a Páscoa, porque aqui encontramos dois verbos usados nas narrações da ressurreição: despertar e erguer-se. Significa que o anjo despertou Pedro do sono da morte e o impeliu a erguer-se, isto é, a ressurgir, a sair para a luz, a deixar-se conduzir pelo Senhor para superar o limiar de todas as portas fechadas (cf. At 12, 10). É uma imagem significativa para a Igreja. Também nós, como discípulos do Senhor e como Comunidade Cristã, somos chamados a erguer-nos depressa para entrar no dinamismo da ressurreição e deixar-nos conduzir pelo Senhor ao longo dos caminhos que Ele nos quiser indicar.
Sentimos ainda tantas resistências interiores que não nos deixam pôr em marcha. Tantas resistências! Às vezes, como Igreja, somos dominados pela preguiça e preferimos ficar sentados a contemplar as poucas coisas seguras que possuímos, em vez de nos erguermos a fim de lançar o olhar para horizontes novos, para o mar alto. Muitas vezes estamos acorrentados como Pedro no cárcere do ramerrão, assustados pelas mudanças e presos à corrente das nossas habitudes. Mas, assim, cai-se na mediocridade espiritual, corre-se o risco de «ir sobrevivendo» mesmo na vida pastoral, esmorece o entusiasmo da missão e, em vez de ser sinal de vitalidade e criatividade, a impressão que se dá é de tibieza e inércia. Então, como escrevia Padre Henri de Lubac, a grande corrente de novidade e de vida, que é o Evangelho nas nossas mãos, torna-se uma fé que «cai no formalismo e na habitude, (…) religião de cerimónias e devoções, de ornamentos e vulgares consolações (…). Cristianismo clerical, cristianismo formalista, cristianismo mortiço e endurecido» (O drama do humanismo ateu. O homem diante de Deus, Milão 2017, 103-104).
O Sínodo, que estamos a celebrar, chama-nos a ser uma Igreja que se ergue em pé, não dobrada sobre si mesma, capaz de olhar mais além, de sair das suas prisões para ir ao encontro do mundo, com a coragem de abrir portas. Naquela mesma noite, insidiava outra tentação (cf. At 12, 12-17): aquela jovem assustada, em vez de abrir a porta, volta para trás contando algo que, para os presentes, só podia ser obra da sua fantasia. Abramos as portas. É o Senhor que chama. Não sejamos como Rode que voltara para trás…
Uma Igreja sem correntes nem muros, onde cada qual se possa sentir acolhido e acompanhado, onde se cultive a arte da escuta, do diálogo, da participação, sob a única autoridade do Espírito Santo. Uma Igreja livre e humilde, que «se ergue depressa», que não adia, não acumula atrasos face aos desafios de hoje, não se demora nos recintos sagrados, mas deixa-se animar pela paixão do anúncio do Evangelho e pelo desejo de chegar a todos, e a todos acolher. Não esqueçamos esta palavra: todos. Todos! Ide pelas encruzilhadas e trazei todos, cegos, surdos, coxos, doentes, justos, pecadores: todos, todos! Esta palavra do Senhor deve ressoar… ressoar na mente e no coração: todos! Na Igreja, há lugar para todos. E muitas vezes tornamo-nos uma Igreja de portas abertas, mas para despedir as pessoas, para condenar as pessoas. Ontem dizia-me um de vós: «Para a Igreja, este não é o tempo dos despedimentos, mas o tempo do acolhimento». «Não vieram ao banquete…» – Ide pelas encruzilhadas. Todos, todos! «Mas são pecadores!» – Todos.
Depois, a segunda Leitura propôs-nos as palavras de Paulo que, repassando toda a sua vida, afirma: «combati a boa batalha» (2 Tm 4, 7). O Apóstolo refere-se às inúmeras situações, às vezes marcadas pela perseguição e a tribulação, em que não se poupou a anunciar o Evangelho de Jesus. Agora, no final da vida, vê que, na história, está ainda em curso uma grande «batalha», porque muitos não estão dispostos a acolher Jesus, preferindo correr atrás dos seus próprios interesses e doutros mestres mais condescendentes, mais facilitadores, mais conformes à nossa vontade. Paulo enfrentou o seu combate e, agora que terminou a corrida, pede a Timóteo e aos irmãos da comunidade para continuarem esta obra com a vigilância, o anúncio, o ensino; enfim, cada um cumpra a missão que lhe foi confiada e faça a própria parte.
É uma Palavra de vida, também para nós, despertando a consciência de que, na Igreja, cada um é chamado a ser discípulo-missionário e a prestar a sua contribuição. Aqui vêm-me ao pensamento duas perguntas. A primeira: Que posso fazer eu pela Igreja? Não lamentar-me da Igreja, mas empenhar-me em prol da Igreja. Participar com paixão e humildade: com paixão, porque não devemos ficar espectadores passivos; com humildade, porque envolver-se na comunidade nunca deve significar ocupar o centro do palco, nem sentir-se o melhor impedindo aos outros de se aproximarem. Igreja em processo sinodal significa isto: todos participam, mas ninguém no lugar dos outros ou acima dos outros. Não há cristãos de primeira e segunda classe; mas todos, todos são chamados.
Entretanto participar significa também continuar aquela «boa batalha» de que fala Paulo. Trata-se realmente duma «batalha», porque o anúncio do Evangelho não é neutral – por favor! Que o Senhor nos livre de destilar o Evangelho para o tornar neutral: o Evangelho não é água destilada –, não deixa as coisas como estão, não aceita a cedência às lógicas do mundo, mas acende o fogo do Reino de Deus lá onde, ao contrário, reinam os mecanismos humanos do poder, do mal, da violência, da corrupção, da injustiça, da marginalização. Desde que Jesus Cristo ressuscitou, agindo como linha divisória da história, «começou uma grande batalha entre a vida e a morte, entre esperança e desespero, entre resignação ao pior e luta pelo melhor, uma batalha que não conhecerá tréguas até à derrota definitiva de todas as forças do ódio e da destruição» (C. M. Martini, Homilia na Páscoa da Ressurreição, 04/IV/1999).
Vimos a primeira pergunta; agora a segunda: Que podemos fazer juntos, como Igreja, para tornar o mundo em que vivemos mais humano, mais justo, mais solidário, mais aberto a Deus e à fraternidade entre os homens? Certamente não devemos fechar-nos nos nossos círculos eclesiais nem perder-nos em certas discussões estéreis. Cuidado para não cairdes no clericalismo; o clericalismo é uma perversão. O ministro que se faz clerical adotando atitudes clericais, embocou um caminho errado; pior ainda são os leigos clericalizados. Estejamos atentos a esta perversão que é o clericalismo. Ajudemo-nos a ser fermento na massa do mundo. Juntos, podemos e devemos fazer gestos cuidadores a bem da vida humana, da tutela da criação, da dignidade do trabalho, dos problemas das famílias, da condição dos idosos e de quantos se veem abandonados, rejeitados e desprezados. Enfim, ser uma Igreja que promove a cultura do cuidado, da ternura, a compaixão pelos frágeis e a luta contra toda a forma de degradação, incluindo a das nossas cidades e dos lugares que frequentamos, para resplandecer na vida de cada um a alegria do Evangelho: esta é a nossa «batalha», este é o nosso desafio.As tentações para ficar no passado são muitas; a tentação da nostalgia que nos faz olhar para outros tempos como sendo melhores. Por favor, não caiamos no saudosismo, neste saudosismo de Igreja que está na moda hoje.
Irmãos e irmãs, hoje, segundo uma bela tradição, benzi os Pálios para os Arcebispos Metropolitas recém-nomeados, muitos dos quais participam na nossa celebração. Em comunhão com Pedro, são chamados a «erguer-se depressa», não dormir, para ser sentinelas vigilantes do rebanho. Levanta-te para «combater a boa batalha», nunca sozinhos, mas com todo o santo Povo fiel de Deus. E como bons pastores devem estar à frente do povo, no meio do povo e atrás do povo, mas sempre com o santo povo fiel de Deus, porque fazem parte do santo povo fiel de Deus. De coração, saúdo a Delegação do Patriarcado Ecuménico, enviada pelo querido irmão Bartolomeu. Obrigado! Obrigado pela vossa presença e pela mensagem de Bartolomeu! Obrigado! Obrigado por caminhar juntos, porque, só juntos, podemos ser semente de Evangelho e testemunhas de fraternidade.
Pedro e Paulo intercedam por nós, intercedam pela cidade de Roma, intercedam pela Igreja e pelo mundo inteiro. Amén.
No dia 9 de julho, a Comunidade Estrada Clara orientou um encontro “Descubro em Ti” para os jovens do 10.º ano das paróquias de Navais (Póvoa de Varzim) e da Junqueira (Vila do Conde). Em preparação para o sacramento do Crisma, estes jovens trabalharam a temática das suas capacidades a partir da Parábola dos Talentos. Durante a manhã de sábado, houve lugar para um momento de oração, para a dinamização do tema “Deus investe em nós – a parábola dos Talentos” e para um tempo de reflexão individual acerca das seguintes questões: o que consideras mais desafiador nesta parábola; que bens são estes que Deus nos confia; de que forma esta parábola te pode ajudar a compreender o que Deus espera de ti; que riscos tens de correr quando colocas os teus dons a render. Depois do almoço partilhado, houve espaço para a música, com um ensaio de cânticos para a Eucaristia vespertina. Durante a tarde, a partir do tema “Cada um de nós tem um tesouro para partilhar – viver a Parábola dos Talentos hoje”, os jovens formaram pequenos grupos onde abordaram os seguintes pontos de reflexão: como posso eu descobrir os meus talentos; que dificuldades me impedem de pôr as minhas capacidades a render; como posso eu colocar os meus dons ao serviço da Igreja (na minha comunidade paroquial, no meu grupo). Depois, em grande grupo, todos partilharam as suas reflexões, destacando a importância de conhecermos bem quem nós somos, de não guardarmos para nós os nossos talentos e da responsabilidade que todos têm nas suas comunidades cristãs. O dia terminou com a celebração da Eucaristia, animada pela Comunidade Estrada Clara e pelos jovens, na igreja paroquial da Junqueira. A Comunidade Estrada Clara agradece, com muita gratidão, o convite feito pelo padre Delfim Afonso assim como a preciosa colaboração dos animadores dos dois grupos de jovens, Simão e Gonçalo. Que juntos façamos um caminho de Luz, de descoberta e de alegria n’Aquele que é tudo em nós!
Workshoop de Trabalhos Manuais sugerido por Beatriz Cruz
Tenho uma amiga que organizou, o ano passado, pela primeira vez, um festival de lavores, a “Lavorada”, onde se apresentaram diversas artes manuais e se conversou sobre o seu papel na nossa vida. Falou-se de bordado, de tricot, de crochet, enfim, daquelas artes que alguns de nós aprenderam com os seus pais ou avós, e outros estão agora a descobrir em tutoriais da internet ou em workshops que se multiplicam.
Este ano ela repetiu a experiência. O ano passado não consegui ir, mas este ano fui. Inscrevi-me no workshop “Iniciação ao tricot”. Não sei nada de tricot… Nunca sonhei fazer tricot…. Fui eu, e uma série de pessoas também decididas a desvendar universos desconhecidos. O ambiente era familiar, e reinava um misto de entusiasmo, boa disposição, curiosidade e muita alegria. Depois de alguma luta com as agulhas, lá fomos acertando na posição das mãos e nos pontos, e o tempo passou rapidamente, entre risos, dúvidas e esclarecimentos, repetições e entusiasmo ao ver surgir alguma coisa que se assemelhava a um trabalho de tricot. Penso que os que estavam naquele espaço tão bonito que é o jardim da Biblioteca Rocha Peixoto, aproveitaram cada momento desse dia maravilhoso. O entusiasmo pela arte aprendida manteve-se ao longo do dia, e não foram poucos os que continuaram a obra começada, mesmo depois de terminado o workshop.
Já passaram uns dias e dou por mim a revisitar esses momentos. É engraçado como uma coisa tão simples, que necessita apenas de duas agulhas, um novelo, e um pouco de paciência, possa ter tanto impacto na minha vida. E esse impacto vai desde uma acrescida autoconfiança, uma alegria serena que me acompanha ainda hoje, uma vontade de aprofundar a arte iniciada, e uma profunda gratidão pela oportunidade que me foi concedida de participar num projeto tão bonito. E ensinou-me a não rejeitar à partida novos desafios. A ultrapassar medos, inseguranças, comodismo e preguiça. Tantos desculpas para ficar parada…
Ao longo dos últimos anos tenho comprovado a importância das artes manuais. Sendo uma pessoa ansiosa, descobri que me acalmavam. A cadência dos movimentos repetidos trazia-me serenidade, paz e lucidez. Descobri, também, que me ensinavam a ser paciente, uma vez que estes projetos, quando bem escolhidos, demoram tempo. Por vezes muito tempo. Mas uma vez terminados, a satisfação que obtemos não se compara a nenhuma outra. Aprendemos a adiar a satisfação, porque vale a pena. Aprendemos a projetar-nos no futuro, porque os resultados demoram a aparecer, e isso ensina-nos a esperança. E ajuda-nos a criar ligações no nosso cérebro, a despertar neurónios, a mantê-lo ativo, inquisidor, enfim, a adiar a degenerescência mental. Isto está largamente documentado e não é difícil comprová-lo.
Vale a pena experimentar coisas novas ou dar uma nova oportunidade a experiências antigas que não correram muito bem. Não devemos ser rígidos nas certezas que guardamos. Lembro-me de, em pequena, não me terem entusiasmado as tentativas da minha mãe para me ensinar a bordar. Pode-se dizer que fui ativamente “do contra”. Em relação ao crochet consegui, inclusive, arrancar a cabeça a uma agulha nas minhas tentativas de aprendizagem. E recordo uma barra em ponto de cruz que as Irmãs me tentaram ensinar no Colégio e que trouxe de lá inacabada. Enfim, tinha a certeza de que esse tipo de trabalhos não era para mim. Descobri-me, nos últimos anos, com uma postura diferente. Mas isso apenas de deveu a ter dado uma nova oportunidade aos trabalhos manuais. A ter aceitado desconstruir memórias antigas. A ter reavaliado e reorientado as minhas ideias e os meus sentimentos. A não ter dado espaço à rigidez, às ideias feitas. A ter moderado a minha teimosia. Para isto tive a ajuda de amigos mais teimosos do que eu. E mais clarividentes.
Acho interessante a curiosidade atual pelos trabalhos manuais. A criatividade na atualização de artes tão antigas. E acho interessante como essa curiosidade acompanha uma crescente curiosidade espiritual. Há uma sede de Deus que se revela na procura de Yoga, de retiros espirituais, na meditação, na procura de locais onde se alcance o bem-estar físico e/ou espiritual, na procura do belo. E este Deus pode ser encontrado também através dos trabalhos manuais.
O Homem é por natureza insatisfeito. Procura o Absoluto. Procura Deus, mesmo não tendo noção disso, e encontra-O sendo co-criador, criador com Deus. Toda a arte manual é uma criação, e o Homem realiza-se na criação, por mais simples que seja. E os trabalhos manuais são uma forma muito simples de sermos criadores, com todo o bem que isso nos traz, a nível físico, mental e espiritual. No ato de criação encontramos Deus, mesmo quando não temos consciência disso. Tornamo-nos mais próximos de Deus pois criamos com Ele. E o lugar do Homem é com Deus, em Deus, pois é Deus que ele procura.
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“E agora, eis o que diz o Senhor, o que te criou, ó Jacob, o que te formou, ó Israel: “Nada temas, porque Eu te resgatei, e te chamei pelo teu nome.” (do 2.º Livro de Isaías 43, 1)
Somos conhecidos pelo nosso nome. É a nossa primeira identificação, é nossa primeira definição. Somos o nome que nos deram, que para nós escolheram, que para nós desejaram que assim fosse. Apresentamo-nos com um nome que reúne, numa tão simples palavra, tudo aquilo que somos, expressamos, pensamos, vivemos. Ao longo dos anos, este nosso nome carrega uma história, emoções, experiências, alegrias e tristezas, descobertas e caminhos. Somos o nome que nos é. No Batismo, quando os nossos pais e padrinhos anunciam o nosso nome, este também passa a ser uma propriedade sagrada, um nome que passa a ter uma alma. O nome é um elemento de individualização da pessoa na sociedade. Quer o apreciemos ou não, ele é o nosso património. O nosso nome próprio está relacionado com a nossa realidade pessoal e com a nossa identidade responsável, livre, criativa, identidade esta que vai sendo elaborada ao longo da nossa história pessoal. No nome de cada ser humano está tudo aquilo que nós somos. O nome é sempre a pessoa e interessar-se por saber o nome de alguém é procurar conhecer esse alguém. O nome é a porta de entrada de cada história particular. Quando um nome é invocado, ele traz consigo tudo o que a pessoa é, tudo o que ela significa, tudo o que ela simboliza. Há nomes que nos trazem alegria, saudade, que atualizam propósitos, que despertam compromissos, que reavivam sentimentos.
Também no universo bíblico, o nome de cada interveniente na história da salvação significa aquilo que torna cada pessoa única. São muitos os relatos dos chamamentos que Deus faz. É Deus quem toma a iniciativa e chama cada um dos seus pelo nome. O nome encerra assim toda a essência da pessoa e, ao mesmo tempo, todo o mistério da sua relação única e exclusiva com Deus. Deus chama-nos pelo nosso nome. O Senhor chamou Moisés pelo nome (Ex 3, 4), chamou Samuel pelo nome (1 Sm 3, 4). No livro de Isaías, sabemos que este chamamento vem desde o início da nossa criação: “Quando ainda estava no ventre materno, o Senhor chamou-me, quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome.” (Is 49, 1). Até as estrelas são conhecidas por Deus pelo seu nome: “Ele fixa o número das estrelas e chama a cada uma pelo seu nome.” (Sl 147, 4). Nos Evangelhos, acompanhamos o chamamento que Jesus faz a cada um dos seus discípulos, chamando-os pelo seu nome e dando a cada um a missão de colaborar na construção do seu reino de amor e de paz. No Evangelho segundo São João, no relato da parábola da ovelha perdida, ficamos a saber que o Bom Pastor chama as suas ovelhas cada uma pelo seu nome. Assim, há uma importância individual e única que nos é dada e que devemos assumir e na qual devemos acreditar.
E em cada dia, Deus continua a chamar-nos também a nós, nos nossos contextos, nas nossas rotinas, nas nossas escolhas. Deus chama pelo nosso nome. E Ele conhece mais do que o nosso nome. Ele conhece os nossos pensamentos, desejos, vontades, medos, alegrias. Ele conhece tudo em nós. Ter um nome significa que somos chamados, que há uma vocação à qual respondemos. E dentro das nossas possibilidades, da nossa originalidade, dos nossos limites e competências, somos chamados por Deus a concretizar essa mesma vocação, a dar um propósito e um significado à nossa existência. A sermos mais, a mostrarmos que somos filhos de um Deus que nos ama e que quer que escolhamos ser felizes. Sim, a escolha é nossa. Sempre nossa. Só nossa. Deus conhece-nos, sabe quem nós somos, mas criou-nos para a liberdade, para sermos nós a decidirmos o que queremos. Ele faz de nós seres de liberdade para que possamos escolher. Deus não nos impõe nada. Deus não nos obriga a nada. Deus não nos castiga nem se vingará de nós se não O quisermos escutar. Deus é amor. Deus é espera. Sou eu quem O escolhe. A dinâmica da nossa relação com Deus passa através da nossa história, dos nossos avanços e recuos, das nossas dúvidas e certezas, das nossas perguntas. Quando Deus nos chama para fazermos parte do seu projeto de amor, está a dar um significado novo ao nosso nome, ao nosso património existencial. Somos sempre chamados. É isso o que significa ter um nome. É ter dignidade, é ser um pedaço de infinito, é sermos únicos e sermos também imagem de Deus. Responder ao chamamento de Deus, nos dias de hoje, é assumir o nosso papel como filhos de Deus, é materializá-lo nas nossas escolhas diárias, é atualizar a sua mensagem de esperança e de amor nos nossos dias, é trazer para a minha rotina os gestos de Jesus, é abraçar a vida com coragem, é olhar quem me rodeia com compaixão, é escrever com as nossas atitudes os nossos novos evangelhos, é cantar eternos aleluias. E sabermos sempre que somos livres para construir o(s) sonho(s) que Deus tem para nós.
Deus continua a chamar-nos hoje. A todos. E chama-nos pelo nosso nome. Pela nossa identidade. Conhece-nos e privilegia a nossa individualidade. Não somos um aglomerado, um número. Somos ímpares. Somos únicos para Deus que nos ama precisamente por sermos irrepetíveis. O nosso nome é a nossa intimidade que é conhecida por Deus que é tudo em nós. Mesmo quando não O vemos, não O sentimos, não O desejamos. Ele faz-se presente e chama-nos a uma vida maior, plena, fecunda. Vem sempre ao nosso encontro mesmo quando não nos apercebemos disso. Por vezes, este nosso Deus chama-nos através de alguém que vem ao nosso encontro, outras vezes diz o nosso nome por meio de um acontecimento triste, muitas outras vezes interpela-nos através de uma canção que acabamos de ouvir, e tantas outras vezes, o nosso nome é dito pela natureza que estamos a contemplar. De muitos modos, Deus continua a chamar por nós. De forma criativa, atual, amorosa, Deus não desiste de nós. Quer nos dar uma vida nova, com significado, liberta da biologia redutora de todos os seres vivos. E este chamamento que Deus nos faz é plenamente concretizável – assim o aceitemos que seja – em qualquer contexto da nossa vida familiar, social, profissional, cívica. Podemos ser essas testemunhas de Deus nos momentos mais simples e com os recursos mais acessíveis que possuímos. Para isso só precisamos de escutar com o nosso coração o nosso nome. Aquele nome que Deus nos chama. E, sem medo e sem reservas, usemos a nossa vida para que o sonho de Deus se concretize através de nós. São Tomás de Aquino dizia que “cada pessoa é uma expressão singular de Deus.” Assim, cada um de nós sinta esta graça e esta responsabilidade de sermos esta singularidade de Deus nas nossas vidas. E assim seremos Luz. E assim seremos Paz. E assim seremos Páscoa!