O que é amar um país

cardeal José Tolentino Mendonça, discurso proferido na qualidade de presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020, 10 de Junho

O QUE É AMAR UM PAÍS

Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (…) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.

É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.

Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança – mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.

Camões e a arte do desconfinamento

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.

Que a crise nos encontre unidos

Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.

No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.

Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.

O que é amar um país

Cerimónias Comemorativas do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020 no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa

O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.

O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre – e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.

Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.

Reabilitar o pacto comunitário

O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.

É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.

Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.

Fortalecer o pacto intergeracional

Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.

A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.

Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.

Implementar um novo pacto ambiental

A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

Uma viagem que fazemos juntos

Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem – e efetivamente são – corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim – explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.

Os selfistas

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José Tolentino Mendonça, E, Expresso 15.fevereiro.2020

A selfie tornou-se um sintoma do tempo em que vivemos. Se pensarmos na fotografia tradicional era claro o seu papel em relação à temporalidade da vida: a fotografia, fixando o tempo, como que o prolongava, assumindo-se, no confronto com a nossa existência, como uma arte da memória. Não é por acaso que imprimíamos as fotografias e as recolhíamos num álbum, e deixámos de o fazer com o material fotográfico que simplesmente acumulamos nos telemóveis. Quer dizer que a função da imagem mudou. A fotografia tradicional pretendia ser ainda um registo ao serviço da interpretação da vida. O seu processamento chamava-se justamente “revelação”, pois era disso que se tratava, e não só a um nível imediato, mas numa profusão de detalhes significativos que a simples visão normalmente não deteta. Na sua “Pequena História da Fotografia”, Walter Benjamin afirma, por exemplo, que na fotografia fazemos a experiência do “inconsciente ótico”, do mesmo modo que as psicoterapias nos permitem aceder ao “inconsciente pulsional”. A fotografia testemunhava assim, de um modo amplo e singular, o domínio visível do sujeito, mas também nos avizinhava do seu campo invisível.

A selfie, pelo contrário, transaciona sobre o imediato, como se o sujeito histórico se tivesse tornado evanescente e a sua duração (histórica, psicológica…) se dissolvesse para permitir que a aparição instantânea se torne um fim. A proposição que move a selfie é agora este videor ergo sum (sou visto logo existo), propagado por toda a parte. Mas fazer depender a existência deste tipo de visibilidade dá razão àquilo que o psiquiatra italiano Giovanni Stanghellini escreve num ensaio recente (“Selfie. Sentirsi nello sguardo dell’altro”, Feltrinelli, 2020): “a instantaneidade da selfie é semelhante à temporalidade esfomeada e sem fôlego de um ataque bulímico”. De facto, para compreendermos a contemporânea bulimia que nos torna a todos produtores ininterruptos de imagens temos de procurar a razão de fundo que permanece escondida, e que é uma dramática anorexia em relação ao ser.

É verdade que enquanto a fotografia tradicional nos permitia dizer “eu sou esta pessoa”, a selfie nos parece fazer dizer “eu estou aqui”. Mas este “aqui” é um espaço atópico, errante, que nunca chega a ser habitado. Por isso se caracteriza justamente o selfista como um turista e não já como um viajante. Enganamo-nos, portanto, se pensamos que a selfie serve para assinalar a nossa passagem por um determinado lugar: ela é sim o resultado de uma radical desterritorialização da vida, capturada pela ânsia da comunicação virtual, mais do que pelo desejo de documentar o real.

O que procuramos então nas selfies? Stanghellini explica que buscamos uma “prótese” existencial, uma “técnica de si” ativada para dar uma resposta ficcional à necessidade de fundar a própria identidade. Perante a exigência de nos definirmos a nós próprios, em tempos de “aporia identitária”, a selfie é “o dispositivo que responde (que tenta responder) à pergunta ‘quem sou?’”. Mas este psiquiatra que dirige uma escola de psicoterapia em Florença é dirimente: “O mito da instantaneidade como satisfação alucinatória da necessidade de vizinhança ou de ultrapassagem da distância transforma a experiência do sujeito apenas numa sequência sincopada de acontecimentos isolados e encerrados neles mesmos. E quando pedimos aos outros para assistir — se bem que ao longe — a estes acontecimentos, é porque só nos sentimos presentes quando fazemos de nós próprios um espetáculo.” Não admira que a era da selfie seja também a do crepúsculo do rosto.

Não há nada que cure tanto quanto o amor…

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Catarina Pires, Diário de Noticias 3.fevereiro.2020

“Compreenda o seu cérebro, gira as suas emoções, melhore a sua vida.” À primeira vista, o subtítulo do livro Como Fazer para Acontecerem Coisas Boas (Ed. Planeta), da psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé, pode parecer apenas mais um chavão de livro de autoajuda. Mas não é. É mesmo isso que este livro ajuda a fazer, se o lermos com atenção. Psicoterapia para ter à mesa de cabeceira. Entrevistámos a autora, que estará na próxima semana em Portugal a promover o seu livro, para perceber como as emoções e os pensamentos influenciam a saúde física e mental – e descobrir o que fazer para acontecerem coisas boas.

Marian Rojas Estapé. A psiquiatra espanhola, filha do psiquiatra Enrique Rojas, lançou recentemente em

Hoje vivemos uma espécie de ditadura da felicidade. Temos pouca paciência para pessoas tristes, como se dependesse apenas de cada um estar bem. O sofrimento não faz parte da vida?
Não conheço ninguém que não sofra algum tipo de dor. Em maior ou menor grau, todos travam uma batalha na vida. A dor é uma escola de força. Quando a aceitamos de maneira “saudável”, ganhamos um domínio interior importante e fundamental para a vida. Isso tem valor humano e espiritual, enriquece a inteligência, leva-nos a perceber o significado da nossa vida, das nossas convicções mais profundas e ajuda-nos a aceitar as nossas limitações. Após um período de sofrimento, uma pessoa aproxima-se da alma dos outros e aprende a ser feliz.

E a felicidade é o quê, afinal?
A felicidade não se define, experimenta-se. Trata-se de encontrar um equilíbrio entre o que se deseja alcançar e o que se vai alcançando. Uma ideia importante é que a felicidade não é o que lhe acontece, mas a forma como interpreta o que lhe acontece. Depende do seu olhar perante a realidade. Consiste em relacionar-se de maneira saudável e equilibrada com o presente, superando as feridas do passado e olhando para o futuro com esperança. Não pode ter demasiadas expectativas se quiser ser feliz porque, na realidade, a vida tem uma componente de dor e sofrimento inegável, e é a nossa atitude que faz a diferença e determina se somos pessoas felizes ou infelizes.

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Apresenta o amor como o antídoto do sofrimento. É o que basta?
O que marca a vida é o amor pelos outros, não apenas o amor romântico, de casal. É a coisa mais importante na vida e o único antídoto para o sofrimento. É a resposta para tudo. Não há nada na história que cure e proteja tanto quanto o amor. Existe um estudo muito importante de Harvard que mostra que o parâmetro que mais condiciona as pessoas a envelhecer saudáveis e felizes é o amor. A solidão (involuntária) mata, sentir-se sozinho mata, a solidão tem um efeito na saúde equivalente ao do tabaco. É uma pena que tenhamos de dar uma base científica às coisas mais óbvias para que as pessoas acreditem nelas. Mas, sim, é preciso voltar ao amor. E isto é medicina, não é pseudociência. O que acontece é que vivemos numa sociedade em que deitamos fora o que está estragado, em vez de o consertar. Também o amor. A esse respeito, teríamos muito a aprender com os nossos pais e avós.

No seu livro explica como o stress – o cortisol – e as emoções afetam a saúde. Podemos considerar a depressão uma doença inflamatória do cérebro? Como é que a má gestão das emoções pode afetar a saúde física e ser mesmo um fator de risco para o desenvolvimento de cancro?
Muitos dos distúrbios que afetam a sociedade do século XXI estão relacionados com a forma como encaramos o ambiente e as pessoas que nos rodeiam e as dificuldades que nos surgem. Os estados de alerta e o stress permanentes fazem-nos produzir e libertar cortisol, a “hormona do stress”, que de forma crónica induz alterações no corpo: a nível gastrointestinal e neurológico, distúrbios da tiroide, enfraquecimento do sistema imunológico, morte de neurónios no hipocampo (área do cérebro responsável pela memória e pela aprendizagem), cansaço, tristeza, apatia e um grande etcétera. Segundo a Universidade de Harvard, 60% a 80% das doenças que sofremos têm uma relação direta com emoções tóxicas.

Então, como gerir melhor as emoções para prevenir esses problemas?
Gosto de dar algumas ideias práticas que penso que são muito úteis:

1.ª – Conhecer-se. Concentrar-se nas suas virtudes, quem não se conhece não se compreende nem se aceita, por isso não pode superar-se e melhorar;

2.ª – Evitar o excesso de autocrítica e exigência. Fugir do perfeccionismo excessivo, pois o perfeccionista é o eterno insatisfeito. Cuidado com o autoboicote. Para o controlar é essencial aprender a dominar a voz interior. Grandes treinadores de ténis estudaram estas questões: num jogo, se os adversários tiverem o mesmo nível, ganha quem tiver um maior autodomínio. Isto é bem explicado por Timothy Gallwey no seu livro The Inner Game.

3.ª – Estabelecer metas e objetivos. Gosto de dizer “sonhe grande, aja pequeno”. Não tenha medo de deixar o seu coração voar, mas faça um plano de ação e delineie uma estratégia. Não fique apenas pelo sonho. Aja em conformidade. É fundamental ser realista nos objetivos que se estabelece. Dizia Séneca: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.” Se perdermos de vista os nossos sonhos e objetivos, tornamo-nos escravos do imediato. No ano passado, foi publicado um artigo interessante a este respeito. Pessoas com um objetivo ou propósito na vida têm menor risco de sofrerem de doenças cardiovasculares e de morrerem destas;

4.ª – Trabalhar a vontade. A vontade é a capacidade de adiar a recompensa. Isto adquire-se com treino, tratando de fortalecer um sistema de controlo inteligente. É a força superior da mente que nos permite alcançar um objetivo, não de maneira impulsiva mas cerebral;

5.ª – Melhorar a assertividade. Trata-se de encontrar um meio-termo entre aceitar que os outros decidam tudo por nós e não sermos capazes de ter um pensamento objetivo e respeitar as ideias dos outros. “Eu digo sim quando quero dizer não; quando digo não, sinto-me culpado.”;

6.ª – Treinar a inteligência emocional. Isto significa entender e expressar as minhas emoções, entender e empatizar com as emoções dos outros e controlar as emoções e a impulsividade.

7.ª – Educar o otimismo. É possível. Qualquer situação pode ser vista em modo problema ou em modo solução. Há que mudar a linguagem e começar a usar palavras que evoquem entusiasmo, alegria, esperança. Rejeitar as palavras tóxicas que nos anulam e alteram a irrigação sanguínea. O otimismo apela à esperança e à paixão e isso tem um efeito direto no cérebro e na neuroplasticidade. Observou-se que em pessoas que praticam otimismo produz-se uma neurogénese: células-tronco convertem-se em neurónios em três semanas e migram para o hipocampo.

A ansiedade e a depressão são as doenças do século. A primeira tem que ver com o medo do futuro, a segunda com a não superação dos problemas e das culpas do passado. Como ultrapassar uma e outra?
Transformamo-nos no que pensamos. A mente tem um impacto muito importante no nosso organismo. O medo é inevitável, mas o sofrimento que este produz é opcional. Os medos curam-se aprendendo a aproveitar a vida, olhando para o futuro com esperança e vivendo o presente de maneira equilibrada e compassiva.

Porque é que é importante aprender a perdoar (os outros e a nós)? Libertar a raiva e não aceitar tudo não é também importante?
Saber perdoar-nos é importante para seguir em frente. O neurocientista Richard Davidson, fundador e presidente do Centro para Mentes Saudáveis, encontrou-se uma vez com o Dalai Lama, que lhe perguntou por que é que todos os investigadores da psique se dedicavam a estudar o stress, a ansiedade e a depressão e ninguém prestava atenção à bondade, à compaixão, à empatia, ao perdão… Desde então, Davidson centrou-se na bondade como base de um cérebro saudável. O meu pai [o psiquiatra Enrique Rojas] tem uma frase que uso muito em terapia: “Saber olhar – como vejo, como observo, como julgo – é saber amar”. Trabalhar a forma como olhamos os outros influencia positivamente a saúde. Para o perdão é a chave: um coração ressentido não pode ser feliz.

A culpa é o sentimento mais improdutivo? Que papel desempenha e como apaziguá-la?
O sentimento de culpa não ajuda, não a faz crescer, não tira a dor nem a angústia, é uma emoção tóxica que impede de seguir em frente. Pode vir de si (dos seus medos, bloqueios ou limitações) e de fora (como os outros a fazem sentir-se).

“A realidade muda quando altera a maneira de pensar”, diz no seu livro. De que forma o que pensamos influencia o que vivemos?
A felicidade depende da atitude que temos em relação à vida. Essa atitude tem muito que ver – como já referi – com a voz interior. Por um lado, parece-me fundamental ter sentido de humor, às vezes levamo-nos demasiado a sério! E, acima de tudo, uma ideia-chave: 90% das coisas que nos preocupam nunca acontecem. Todas as emoções são precedidas pelo pensamento, às vezes exagerado ou distorcido, portanto, os pensamentos devem ser educados. Outra ideia que considero essencial para melhorar a nossa vida no século XXI é aprender a descansar. O ser humano não está desenhado para viver sempre em modo de alerta ou sobrevivência, há que aprender a desligar.

Pessoas tóxicas. Eis uma espécie que cada vez está mais presente nas nossas vidas. Como detetá-las? E como neutralizá-las?
Existem de todos os tipos: de instáveis e ciumentos a paranoicos, imaturos ou neuróticos. Têm a capacidade de nos desestabilizar, às vezes em segundos. Muitas vezes somos nós quem permite que pessoas tóxicas, egoístas, imaturas, insensíveis ou orgulhosas entrem no nosso círculo mais próximo. Eles instalam-se nas nossas vidas, opinando e avaliando constantemente as nossas ações e palavras. A chave para não ficarmos intoxicados está na atitude e na maneira de os combater. Há que conseguir que não invadam nosso mundo interior e não anulem nossa capacidade de tomar decisões. É preciso um exercício intenso para evitar que sejamos dominados pelo seu veneno. São os chamados “vampiros emocionais”, pela sua capacidade de absorção psicológica, invadindo tempo, pensamentos e emoções. Aqueles que se deixam invadir por personalidades tóxicas podem acabar com sintomatologia ansiosa-depressiva, sentimentos de culpa, de dependência e uma consequente repercussão na autoestima.

A necessidade de se sentir em controlo é uma das principais causas de ansiedade (e produção de cortisol). É possível uma personalidade ansiosa libertar-se desse medo? Como?
Essa busca constante pelo controlo leva-nos a não apreciar as coisas boas que estão a acontecer connosco, a esquecer o momento presente, obcecados que estamos com o futuro. A ansiedade é a febre da mente e da alma, avisa-nos de que o ambiente é hostil, que há algo que não estamos a gerir bem e que temos de mudar alguma coisa. Se a pessoa souber o que se passa consigo, se entende como o cérebro funciona, compreenderá mais facilmente porque é que o seu organismo está cada vez mais doente. A mente e o corpo não distinguem o real do imaginário, e se alguém vive constantemente em alerta, fica doente.

Se conseguirmos ser a “Melhor Versão de Nós Próprios” conseguimos que aconteçam coisas boas, diz no seu livro. O que é preciso fazer para isso?
Nesta vida, existem três tipos de pessoas: os que fazem as coisas acontecer, os que olham para as coisas que acontecem e os que se perguntam o que aconteceu. As chaves para ser a melhor versão de si mesmo estão no conhecimento, é preciso saber, estudar, para… internalizá-lo. Luís Pasteur disse que “a sorte favorece a mente preparada”. Portanto, treinar, conhecer-se, saber aquilo que se quer e de que se gosta é muito importante. O talento, a vontade, a ordem, a perseverança também contam… Ou seja, é essencial ter isso exercitado no nosso comportamento. Depois vem o projeto de vida. Quem não sabe o que quer não pode ser feliz. E tudo isso multiplicado por paixão, que melhora tudo. A paixão é o que nos ilumina.

Ópera bufa

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Clara Ferreira Alves, Cenas da Vida Americana, Clube do Autor

Podemos fingir que não vemos. Podemos sempre fingir que não reparamos. Embora seja impossível não reparar. É um dos traços fortes do retrato humano e percebe-se claramente em pequenos pormenores mais do que nos grandes gestos. Falo da crueldade. Talvez porque somos a única espécie que apresenta este traço, visível num franzido da boca, num dedo espetado ou encarquilhado, numa ruga da testa, num olhar baixo, numa voz silenciosa. A crueldade gela os que não são cruéis e embriaga os admiradores. A crueldade sobrevive à morte dos seus portadores, como um vírus ou uma bactéria das que vivem há milhões de anos para se replicarem e sobreviverem ao planeta. Quando entramos os portões de Auschwitz ou caminhamos nas linhas de caminho de ferro de Birkenau, sentimos a crueldade, sentimos a mão de ferro na garganta. Uma crueldade cósmica, desnaturada, metafísica. Na vida de todos os dias, a crueldade é um exercício banal. Vemos as pessoas que a praticam e vemos os atos da sua consequência.

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Podemos sempre fazer como Brunhilde Pomsel, a secretária de Joseph Goebbels, que morreu esta semana com 106 anos de idade. Brunhilde disse, numa raríssima confissão ao “Guardian” um ano antes de morrer (a propósito de um documentário, “A German Life”), que não tinha a consciência pesada. A família Goebbels era amorosa, particularmente a senhora Goebbels, tinham um cão amoroso, um Airedale (esta necessidade de nomear a raça do cão é interessante) e ela limitava-se a datilografar. Não sabia de nada, nunca soube de nada, e não guardava um vestígio de culpa ou remorso. “Depois da ascensão do partido nazi, o país estava como que enfeitiçado” e ela sabia que “qualquer idealismo poderia descambar num pescoço partido”. Melhor fingir que nada se passava. Quando Goebbels lhe deu para as mãos uma pasta recomendando que a pusesse no cofre e não olhasse, Brunhilde ficou contente pela confiança depositada. Não olhou. Era o processo de Sophie Scholl, uma ativista antinazi executada por alta traição em fevereiro de 1943 por distribuir panfletos de extrema-esquerda na Universidade de Munique. Educada no espartilho prussiano, Brunhilde sabia cumprir o seu dever. Apesar de ser um membro do partido nazi, paga pelos nazis, de trabalhar no coração do nazismo, nunca reparou em nada. Reparou, isso sim, nas unhas perfeitamente cuidadas de Goebbels. Reparou que a vida de uma amiga judia, Eva, se tornou insuportável depois da ascensão de Hitler. Eva desapareceu, mas tirando isso… isso e a manicura, Goebbels tinha uma manicura por dia, e era um bocado arrogante, tirando isso… A manicura ainda hoje lhe dava vontade de rir. Um exagero. De resto, Joseph Goebbels nada tinha de censurável. Quando o viu a falar de “guerra total” no famoso discurso do Sportpalast, admirou-se. Excessivo, não? Goebbels passara de “pessoa civilizada e séria”, um “homem de nobre elegância”, a um “anão a arengar”. Tirando isso… Em 1945, Brunhilde finalmente reparou que a vida mudara. Passou cinco anos em detenção, em várias prisões russas dentro e fora de Berlim, defendendo-se com a frase “eu sou apenas uma datilógrafa”. Décadas mais tarde, resolveu saber da sorte da desaparecida Eva. Morta em Auschwitz. Quem diria…

Pior do que a crueldade, sempre gratuita, é esta indiferença perante a crueldade. As pessoas que resolvem olhar para o lado, fugir com o rabo à seringa, pretendendo não ver. As pessoas que têm horror da resistência. Os facilitadores. Os cúmplices. Os assalariados. Os corrompidos. Os cobardes. Os amorais. Os neutros.

O que assusta em Trump não são as políticas de Trump. O que assusta é a crueldade, traço evidente para quem viu os episódios de “O Aprendiz” ou os primeiros debates contra os republicanos, quando ele não esperava ganhar. Quando descobriu uma aberta em Jeb Bush nunca mais o largou, como um mastim esfomeado a quem atiraram um bife. Vemos a crueldade dentro da auréola branca dos olhos pequeninos, no fungar enervado, na crispação furiosa do desapontamento. E vemo-la no triunfo, quando ela se torna corrupção e prepotência, vingança e soberba. Vemo-la quando ele sai do carro e avança para Obama deixando para trás a mulher, sem lhe abrir a porta ou esperar por ela. Caminha sempre na frente da família, a filha favorita ao lado, o filho pequeno na cauda. Vemo-la nas entrevistas e nas poses. Nos filmes e nos livros sobre ele, pagos ou não por ele. Vemo-la no dedinho autocrático, o bracinho biónico deste Dr. Strangelove. Vemo-la agora, perigosíssima, nestas ordens executivas feitas por medida. E vemo-la, suprema, no olhar maléfico do seu mentor, Steve Bannon, o novo senhor da Segurança Nacional americana. Bannon, o “leninista”, o “Darth Vader” (palavras dele) que gosta de soluções finais para os problemas nacionais e internacionais. O amante da força bruta e da guerra total, o homem que quer destruir o sistema. O ditador dos media. O Goebbels desta ópera bufa. Vemos a crueldade claramente vista. Podemos escolher não ver, como fazem Paul Ryan e Theresa May com olhos murchos. Podemos sempre não ver, mas custa-nos a alma.

2017

Os refugiados estão nos textos do Natal

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Paulo Rangel, PÚBLICO 24.dezembro.2019

A condição de refugiado está radicada e gravada no código genético do cristianismo, na “história de vida” de Jesus.

1. O tempo de Natal é (ou era) por excelência o tempo das narrações dos chamados evangelhos da infância (Mateus e Lucas). Aquelas histórias, já de si não históricas, eram largamente recriadas e acrescentadas no imaginário popular e no encantamento infantil. Hoje, véspera de Natal, em plena crise global de refugiados, vale a pena voltar a esses textos fundacionais e tentar perscrutar quão além vão da tradição e da imaginação e quão fundo interpelam crentes e não crentes.

2. Evoquemos a propósito o Evangelho de Mateus (Mateus 2:13-23), quando relata a ida de Jesus, Maria e José para o Egipto, fugindo à perseguição do rei Herodes. Não há como esconder ou desvalorizar: Jesus e a sua família foram verdadeiros refugiados; não migrantes, mas sim refugiados. Jesus, seu pai e sua mãe tiveram de se refugiar no Egipto por serem o alvo de uma perseguição e estarem em risco de morte. Parece certo, nas esparsas linhas do texto, que a notícia de que tinha nascido o Messias foi vista por Herodes como uma ameaça política, uma ameaça à sua legitimidade enquanto rei dos Judeus. Daí que tenha mandado matar todos os primogénitos até à idade de dois anos. Convergem, pois, aqui as dimensões política e religiosa: Jesus foi o alvo – o alvo directo – de uma perseguição político-religiosa, que obrigou a sua família a refugiar-se. Nesta narração, encontramos ainda uma última menção, assaz relevante para o tema. Efectivamente, quando José decidiu voltar a Israel, pretendia ir para a Judeia, mas, porque aí reinava Arquelau, filho de Herodes, resolveu afinal instalar-se em Nazaré, na Galileia. Pois bem, mais uma vez, a sua escolha não foi livre; foi politicamente motivada. A condição de refugiado está, portanto, radicada e gravada no código genético do cristianismo, na “história de vida” de Jesus.

3. Sabemos bem que os Evangelhos da infância, seja em Mateus, seja em Lucas, se inscrevem na tradição literária do “Midrash”, bastante comum na escrita hebraica. Não se cura, ao invés do que o público crente e não crente geralmente supõe, de um relato histórico, susceptível de suporte factual e documental. Não há nele qualquer preocupação de “fazer história”. Existe isso sim o desígnio de “fazer pedagogia”, de fazer uma narração exemplar, de contar “uma” história – de contar uma história, com todo o potencial heurístico inerente.

O episódio da fuga de Jesus para o Egipto apresenta Jesus como o novo Moisés, Aquele que refaz o caminho antes feito pelo povo de Israel. Há até um paralelo expresso com Moisés na saga da “morte dos inocentes”. Recordando episódios que hoje são menos retidos: o Faraó tinha ordenado a morte de todas as crianças judias, exigindo às parteiras que as matassem. Como estas acabaram por não o fazer, ordenou então que as crianças fossem lançadas ao rio. Com o intuito de o salvar, a mãe de Moisés põe-no no rio Nilo, mas dentro de um cesto. A irmã de Moisés vai alertar a irmã do Faraó para a necessidade de encontrar alguém disponível para amamentar a criança, indicando como ama a própria mãe de Moisés. É bom de ver que, na passagem de Mateus, Herodes assume a figura do Faraó e Jesus surge como o novo Moisés. O desígnio da narrativa é evidente: Jesus é o novo Moisés, o novo libertador do povo de Israel.

4. Não é, portanto, apenas o Novo Testamento que nos oferece uma história de migração e de refúgio; é outrossim o Antigo Testamento, que, de resto, nos apresenta múltiplas situações de perseguição, degredo e servidão do povo hebreu. A história deste povo – todos o sabemos – é uma história constante de fuga e migração. Neste contexto, vale a pena chamar a atenção para o versículo 22 do capítulo 2 do Livro do Êxodo, em que se diz, a respeito da mulher de Moisés: “Ela deu à luz um menino, a quem Moisés pôs o nome de Gerson dizendo ‘Sou emigrante em terra estrangeira’.” Ora, o nome Gerson significa peregrino, “de passagem”, alguém que é hóspede, que não está na sua terra. Tudo isto demonstra que há na cultura judaico-cristã um estatuto próprio para o migrante, para o estranho, o estrangeiro. Se Jesus foi um autêntico refugiado, Moisés será talvez um migrante de segunda geração (já nasceu no Egipto).

5. Em suma, há na Bíblia um fundamento próprio, uma fonte directa, para o acolhimento dos refugiados e dos migrantes. O acolhimento do estrangeiro, do que teve de deixar a sua terra é, pois, um carisma judaico-cristão. Não se compreende, por isso, a estranheza e desconforto com que tantos vêem o apoio incondicional que o Papa Francisco dá aos refugiados. E muito menos se compreende o ataque que, na política italiana, Salvini e os seus seguidores – que invocam fervorosamente os valores do cristianismo – fazem ao Papa Francisco. É uma ferida aberta por causa da questão migratória e pela posição firme da Igreja que, incondicionalmente, está ao lado e do lado dos migrantes e dos refugiados.

Quando pensamos no estatuto do migrante ou refugiado, não estamos a falar numa decorrência pura e simples do mandamento do amor ao próximo – embora essa simples inferência fosse mais do que suficiente. A verdade é que há fundamento específico e literal para fazer do acolhimento dos migrantes e refugiados uma causa primeira daqueles que se revêem na matriz cristã. Este fundamento não é apenas cristão, mas judaico-cristão. Não é, aliás, por simples casualidade, que, a propósito da saga do povo hebreu, falamos na diáspora. Os judeus, por natureza, estavam fora da sua terra. Há, assim, um mandato a partir dos textos sagrados para cuidar dos refugiados, dos deslocados, dos migrantes, dos que estão em fragilidade porque estão fora do seu ambiente natural. Neste sentido, a ideia de acolhimento, de hospitalidade, de asilo, de auxílio e de integração pertencem ao núcleo mais genuíno dos valores cristãos. A liturgia do Natal também serve para o recordar, para o trazer de novo ao coração.

Chuva

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Valter Hugo Mãe, Jornal de Notícias 22.dezembro.2019

Íamos de galochas para a escola e lamentávamos os guarda-chuvas que perigavam no vento. Raros de nós tinham impermeáveis, chegávamos a deitar mão de sacos de plástico mas, à entrada da escola primária, ensopados, éramos um só lamento e a normalidade absoluta.

A sala aquecia com um mísero fogão a lenha, perto do qual deixávamos casacos e camisolas, às vezes os cadernos. Secávamos a roupa interior no corpo, brancos pijamas, enquanto tremíamos e medíamos a fúria do tempo pelas vidraças, ouvindo sobre matemática e palavras com mais de três sílabas. O temporal era o inverno inteiro.

Nunca me passaria pela cabeça, então, que alguém quisesse dar nome à chuva. Sabíamos bem do que se fazia dezembro ou janeiro. O fim de janeiro era o pior do ano, o monstruoso frio, a humidade, o vento que deitava sempre abaixo as árvores mais sozinhas. Àquilo tudo, tudo junto, chamávamos apenas inverno. Demorava meses e podia aparecer na televisão por haver acidentes de carros e voarem telhas das casas mais velhas. A televisão lamentava muito o azar e a pobreza, que pareciam inevitáveis. Falhava muito a luz elétrica. Algumas cidades adormeciam às velas, era frequente. Toda a gente guardava velas e fósforos. Nós tínhamo-las em cada canto para o susto de ficarmos às escuras constantemente. Refilávamos abreviados porque íamos dormir sem sono, muito mal conformados.

Os estrangeiros puseram-nos agora a dar nomes à chuva. Vem a Elsa ou o Fabien, como se alguém chegasse com o imenso tamanho do céu, se abatesse por toda a parte e tivesse culpa. A contemporaneidade é tão feita de um espírito ofendido que nem o inverno passa como antes. Passa acusado.

Prometeram, contudo, que vamos ter um Natal em sossego. Acalmará a intempérie e usaremos os nomes do costume, como se chovesse ou ventasse sem necessidade de acusações. Talvez aí nos deva arrepiar o peito, onde verdadeiramente importa medir a invernia. É o que me impressiona no Natal: essa oportunidade de nos avaliarmos e, em consciência, decidir melhor para depois. Isso mesmo vos desejo. Uma chuva sem nome, sem culpados, apenas a bravura de resistirmos no bom senso e na poderosa cordialidade. Não esqueçamos nunca que a mais preciosa conquista do Mundo é a paz. Boas-festas. Um muito bom Natal a todos.

“Se não temos paz interior dificilmente podemos contruir paz social”

Pablo D’Ors é padre, escritor e consultor do Conselho Pontifício da Cultura por nomeação do Papa Francisco. O espanhol esteve em Portugal para apresentar O Amigo do Deserto, publicado em 2005, mas que só agora chegou a Portugal, pela mão da Quetzal. Pelo caminho, deu a conhecer a associação que criou e onde o silêncio impera.

Bárbara Wong (texto) e Pedro Fazeres (fotografia) 8.dezembro.2019, PÚBLICO

Esteve em Lisboa para apresentar o romance O Amigo do Deserto, que escreveu há 14 anos, mas que só agora chega a Portugal, através da Quetzal. Por cá, A Biografia do Silêncio — ​que em Espanha foi um bestseller e vendeu mais de 150 mil exemplares — e Sendino Está a Morrer foram publicados pela Paulinas Editora. 

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Pablo D’​Ors estudou nos EUA e na Alemanha, onde foi discípulo do monge beneditino e teólogo alemão Elmar Salmann (1948-). Foi ordenado sacerdote em 1991 e esteve em missão nas Honduras, assim como na Europa de Leste. Apologista do silêncio e da meditação, tem como mestres o eremita francês Charles de Foucauld (1858-1916), que refere no seu livro, onde o protagonista sente uma atracção pelo deserto, viajando até ao Sara, reencontrando-se por lá; o escritor e monge trapista francês Thomas Merton (1915-1968) e o jesuíta húngaro Franz Jalics (1927-), autor de livros sobre contemplação e espiritualidade. 

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Anos depois de ter escrito O Amigo do Deserto, em 2014, criou a associação Amigos do Deserto, que tem como objectivo a meditação. Não é preciso ser consagrado ou católico para fazer parte desta rede — que em Espanha reúne cerca de meio milhar de pessoas —, mas sim estar interessado na experiência interior que é o silêncio. Embora não acredite que o Papa conheça a sua experiência, tem a convicção de que o silêncio pode mudar o mundo.

Sacerdote, escritor, fundador da associação Amigos do Deserto. Quem é Pablo D’​Ors?
Gostaria de ser um homem do deserto e um homem da amizade.

Porquê?
Quando falo de deserto, falo de interioridade. E quando refiro a amizade, falo de comunhão, capacidade de sentir os outros mais próximos. Houve um tempo que me identificava muito com o arquétipo do sacerdote e do escritor, que são muito distintos, mas que têm afinidades: a experiência estética e a estática; a poética e a mística; todas estão profundamente ligadas. Mas hoje poderia não ser escritor nem sacerdote e a minha essência permaneceria intacta. 

O que significa?
Quero dizer que escrever e ser pastor da Igreja não deixam de ser expressões, mas o essencial é a experiência vital. Por isso, eu quero ser um homem do deserto e um homem da amizade.

Porquê este livro com o mesmo nome que a associação?
Não escrevemos o que vivemos, mas o que vamos viver. Com isto quero dizer que a literatura não é tanto uma memória, mas uma profecia. Quando escrevi este livro, não sabia que ia fundar uma associação [em 2014], nem que me ia dedicar de maneira tão completa à meditação. De algum modo, este livro foi como um presságio do que viria a acontecer mais tarde. Por exemplo, no livro escrevo sobre a dificuldade em entrar para a associação e, na vida real, houve muitas pessoas que quiseram entrar [nos Amigos do Deserto] e não conseguiram porque houve uma explosão e não era possível dar resposta a toda a gente. Nessa altura, percebi que havia muita gente interessada no silêncio. Foi uma feliz casualidade, que é mais do que isso, é uma feliz causalidade. Quando os livros nascem de dentro, têm mesmo de nascer, porque há uma grande confluência entre a literatura e a vida.

É autobiográfico?
Digo sempre que é autofictício, quer dizer que há a novela épica do indivíduo, em que o protagonista não sou eu, mas ele e todas as personagens secundárias são o alter ego do escritor. Este trabalha com a memória, com a imaginação. Recordamos o que vivemos, vimos, pensámos, sentimos; e recriamos, enfabulamos… Há um lado autofictício, pois o protagonista chama-se Pavel e eu sou Pablo. Mas isso acontece com todos os meus livros, pondo-me na pele de uma mulher ou de uma pessoa muito diferente de mim. [O escritor] Milan Kundera, que admiro e leio sempre, diz que a novela é uma exploração da identidade com egos imaginários.

O que é a associação Amigos do Deserto e como funciona?
É uma rede aberta de meditadores, isto é, de pessoas interessadas na experiência interior do silêncio, que é comummente conhecida como meditação. Para fazer parte da rede, é preciso fazer um retiro de iniciação: um fim-de-semana intensivo em que o método ou a maneira de meditar é ensinado. Essencialmente, consiste num trabalho corporal de relaxamento, um trabalho mental de concentração e espiritual de contemplação. Aqueles que desejam continuar são integrados nos nossos grupos de prática semanal, a que chamamos “seminários silenciosos”. Estamos convencidos de que, neste mundo barulhento, esse exercício de encontro consigo mesmo é enormemente transformador.

Depois de O Amigo do Deserto, escreveu A Biografia do Silêncio, que é um ensaio sobre meditação, a associação é uma consequência desses dois livros?
A associação foi criada porque muitos leitores de A Biografia do Silêncio queriam pôr em prática os ensinamentos desse pequeno livro. Nesse — que foi um verdadeiro milagre editorial, com mais de 150 mil leitores desde a sua publicação em 2012 —, conto a minha experiência, as dificuldades em ficar em silêncio e quietude, as minhas descobertas diárias, os benefícios que me trouxeram… Pouco a pouco, depois de uma década e meia de perseverança, cheguei à conclusão de que poucas coisas ajudam tanto a conhecermo-nos a nós mesmos como nos sentarmos em silêncio para ouvir e ver o que somos.

A meditação católica é diferente da budista?
As formas são diferentes em todas as tradições religiosas, mas o pano de fundo é o mesmo. Normalmente, ilustro essa pergunta com o que chamo “metáfora da montanha”. Cada religião sobe ao topo da montanha por uma encosta. E as encostas são diferentes umas das outras: uma tem neve, outra é árida, outra tem vegetação exuberante; mas, lá em cima, onde o ar é mais puro, todos conhecemos todos. E isso é evidente pela enorme afinidade que existe entre os diferentes textos místicos de todas as tradições da sabedoria. As palavras podem aspirar, no máximo, a gerar afinidade intelectual ou sentimental. O silêncio, por outro lado, dá-nos algo ainda mais bonito e profundo: a comunhão espiritual.

O silêncio alcança-se através da oração e da palavra?
Silêncio e palavra são os dois lados da mesma moeda, o que significa que não são realidades opostas, mas precisamente complementares. Há silêncio para ouvir a palavra, e a palavra verdadeira sempre se abre para um silêncio maior. Não podemos ir para o que somos sem o que somos: não é possível entrar no nosso silêncio interior sem palavras, pois somos palavra. Em muitas tradições meditativas, e, é claro, na cristã, a palavra usada na meditação é conhecida como jaculatório ou mantra, que ajuda ao recolhimento. Normalmente, no nosso interior, reina uma grande confusão, mas uma única palavra é suficiente para nos curar, para nos purificar de tanta conversa e barulho mental. A meditação de que falo é a que no cristianismo é conhecida como uma “oração do coração”.

Os Amigos do Deserto são sucessores dos grandes místicos espanhóis como Teresa de Ávila e João da Cruz?
Não propriamente. Sentimo-nos herdeiros, ainda que modestamente, das hesicastas. O hesicasmo era uma corrente espiritual da Igreja Ortodoxa que, entre os séculos V a IX, praticou a oração da quietude para alcançar a paz interior e a presença de Deus.

A meditação pode mudar o mundo?
Não vejo uma maneira melhor. Ninguém pode dar o que não tem. Se não temos paz interior, dificilmente podemos construir paz social ou externa. Mudar o mundo é um objectivo muito ambicioso. Se realmente nos mudássemos, perceberíamos o enorme poder que isso também significa socialmente. De que outra forma explicar que um homem envolto em panos, chamado Gandhi, foi capaz de expulsar o império britânico de seu país, sozinho?

Como pode um escritor, um homem da palavra, ser apologista do silêncio?
Porque a palavra não existiria sem o silêncio que a precede, a segue e a sustenta. Porque o silêncio não é simplesmente ausência de barulho, mas de ego. Porque se lê em silêncio e o silêncio é necessário para se poder falar e ser escutado. Nunca imaginei que me iria converter, através da palavra, num apologista do silêncio. É um destino infinitamente mais belo do que eu alguma vez poderia ter imaginado. Foi o próprio silêncio que me conduziu a esta missão. E dou graças por ter sabido recebê-la e por estar entregue a ela.

Sair

SANTA MISSA EM SUFRÁGIO PELOS CARDEAIS E BISPOS FALECIDOS DURANTE O ANO

Basílica Vaticana, Altar da Cátedra, segunda-feira, 4 de novembro de 2019

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

As Leituras que escutamos lembram-nos que viemos ao mundo para ressuscitar: não nascemos para a morte, mas para a ressurreição. De facto, já desde agora, como escreve São Paulo, «a cidade a que pertencemos está nos céus» (Flp 3, 20); e Jesus diz, no Evangelho, que ressuscitaremos no último dia (cf. Jo 6, 40). E é o mesmo pensamento da ressurreição que sugere a Judas Macabeu – segundo a primeira Leitura – uma ação muito boa e nobre (cf 2 Mac 12, 43). Hoje podemos interrogar-nos também nós: Que me sugere o pensamento da ressurreição? Como correspondo à minha vocação para ressuscitar?

Uma primeira ajuda, recebemo-la de Jesus que diz no Evangelho de hoje: «Quem vier a Mim, Eu não o rejeitarei» (Jo 6, 37). E formula este convite: «Vinde a Mim» (Mt 11, 28). Vamos a Jesus, o Vivente, para ser vacinados contra a morte, contra o medo de que tudo acabe. Vamos a Jesus: pode parecer uma banal e genérica exortação espiritual; mas tentemos concretizá-la, interrogando-nos: Hoje, nos casos que me passaram pelas mãos no serviço, aproximei-me do Senhor? Fi-los motivo de diálogo com Ele? E, nas pessoas que encontrei, envolvi Jesus, levei-as a Ele na oração? Ou fiz tudo fechado nos meus pensamentos, limitando-me a regozijar-me com o que me saía bem e a lamentar-me do que resultava mal? Em resumo, vivo a caminho do Senhor ou girando sobre mim mesmo? Qual é a direção do meu caminho? Procuro apenas causar boa impressão, defender a minha função, os meus tempos e os meus espaços, ou vou ter com o Senhor?

A frase de Jesus – quem vier a Mim, Eu não o rejeitarei – é intrigante; como se supusesse a expulsão para o cristão que não vai a Ele. Para a pessoa que acredita não há via intermédia: não se pode ser de Jesus e girar sobre si mesmo. Quem é de Jesus vive em saída para Ele.

A vida é, toda ela, uma saída: do ventre da mãe para vir à luz, da infância para entrar na adolescência e na juventude, da juventude para a vida adulta, etc… até à saída deste mundo. Hoje, ao mesmo tempo que rezamos pelos nossos irmãos Cardeais e Bispos, que saíram desta vida para ir ao encontro do Ressuscitado, não podemos esquecer a saída mais importante e difícil, que dá sentido a todas as outras: a saída de nós mesmos. Só saindo de nós próprios é que abrimos a porta que leva ao Senhor. Peçamos esta graça: «Senhor, quero vir a Vós através das estradas e dos companheiros de viagem de cada dia. Ajudai-me a sair de mim mesmo, para ir ao encontro de Vós, que sois a vida».

Um segundo pensamento alusivo à ressurreição, gostaria de o tirar da primeira Leitura, do nobre gesto realizado a favor dos defuntos por Judas Macabeu. Fê-lo, como está escrito, porque «acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem com sentimentos de piedade» (2 Mac 12, 45). Por outras palavras, são os sentimentos de piedade que geram uma bela recompensa. A piedade, a compaixão pelos outros abre as portas da eternidade. Inclinar-se sobre os necessitados para os servir é antecâmara do paraíso. De facto, como lembra São Paulo, se «o amor jamais passará» (1 Cor 13, 8), então este é precisamente a ponte que liga a terra ao Céu. Assim, podemos interrogar-nos se estamos a avançar por esta ponte: Deixo-me comover pela situação duma pessoa que passa necessidade? Sei chorar por quem sofre? Rezo por aqueles em quem ninguém pensa? Ajudo alguém mesmo que nada possua para me restituir? Não se trata de sermos bonzinhos, não é caridade mesquinha; é questão de vida, questão de ressurreição.

Finalmente um terceiro estímulo tendo em vista a ressurreição, tiro-o dos Exercícios Espirituais, quando Santo Inácio sugere para, antes de tomar uma decisão importante, nos imaginarmos na presença de Deus no fim dos nossos dias, ou seja, naquela chamada inadiável a comparecer, no ponto de chegada para todos, para todos nós. Pois bem, enfrentada nessa perspetiva, cada opção de vida será bem orientada, porque está mais próxima da ressurreição, que é o sentido e o objetivo da vida. Tal como a partida se calcula a partir da meta, como a sementeira se julga a partir da colheita, assim também a vida se julga bem a partir do seu fim. Santo Inácio escreve: «Considerando como se me encontrasse no dia do julgamento, pensar como teria decidido então sobre o presente; e a regra que eu gostaria de ter seguido então, tomá-la agora» (Exercícios Espirituais, 187). Pode ser um exercício útil ver a realidade com os olhos do Senhor, e não apenas com os nossos; para ter um olhar projetado para o futuro, para a ressurreição, e não apenas fixo no hoje que passa; para realizar opções que tenham o sabor da eternidade, o gosto do amor.

Saio de mim, cada dia, para ir ter com o Senhor? Tenho sentimentos e gestos de piedade para com os necessitados? As decisões importantes, tomo-as na presença de Deus? Deixemo-nos provocar ao menos por um destes três estímulos. Ficaremos mais sintonizados com o desejo de Jesus, no Evangelho de hoje, que é não perder nenhum daqueles que o Pai Lhe deu (cf. Jo 6, 39). Por entre as inúmeras vozes do mundo que fazem perder o sentido da existência, sintonizemo-nos com a vontade de Jesus, ressuscitado e vivo: façamos do dia de hoje que vivemos um alvorecer de ressurreição.