O coração da vida

José Tolentino Mendonça, E, Expresso 13.julho.2019

Diz-se que os saberes são aquilo que nos permite ganhar a vida. Mas não podemos esquecer que a sabedoria é aquilo que nos permite verdadeiramente vivê-la. Cada um de nós transporta um conjunto de competências — fruto de múltiplas aprendizagens — que nos dão acesso a um ofício, a um labor, a uma função. Os saberes pertencem a esse plano. A sabedoria, por seu lado, é aquilo que nos faz tocar o coração da vida, os seus porquês entusiasmados, sejam de dor ou delícia, e os seus sem porquês a perder de vista. A nossa tendência, demasiadas vezes, é afunilar a realidade ao trabalho da sua conquista imediata. A luta pela sobrevivência literalmente nos esgota e deixámos por fazer a viagem mais profunda, essa que sem palavras justifica o nosso estar aqui. O místico Silesius escreveu que “a rosa é sem porquê”, desafiando-nos à aventura profunda do viver. E, de facto, precisamos desse viver que não depende da contingência que nos rodeia, nem da exclusiva confirmação que o utilitário ou o funcional possam trazer.

A verdade é que vivemos muito à superfície, a esbracejar, a correr de um sítio para outro, e fazemos disso um hábito. Vivemos dando respostas às solicitações que constantemente nos são feitas, às imagens que se atropelam numa sonâmbula sucessão. Na voragem destas sequências, cada instante emerge como um ponto desconexo que num relâmpago se esvazia e não como testemunho de uma iminência maior que perdura. E é assim que raramente mergulhamos no coração da vida. Raramente pensamos numa vida que nos pertença, e que seja mais do que um tique, mais do que a cega forma rotineira de aparecermos a nós próprios e aos outros. Não tenhamos dúvidas: precisamos de mais do que isso. Precisamos de uma existência que nos expresse, que decline o silêncio, o mistério, a imensidão, o aberto do próprio ser, e não a vidinha sempre à pele, condicionada, diminuída e cheia de retrações.

Acontece-nos isto: olhamos para um jardim, gostamos, não gostamos, intervimos, cortamos, cerceamos e, de repente, temos um jardim geométrico, deslumbrado por formas perfeitas. Contudo, é bom saber que o nosso desejo deste artifício é uma enganadora ilusão, porque a vida é informe, ainda em bruto, ainda inicial. Por isso, ela é viva. Creio que temos de construir os nossos canteiros bem ordenados, mas temos de desejar ardentemente que também as flores de que não conhecemos o nome venham florir à nossa porta. Porque elas nos dão o endereço da existência em cascata, na sua pura torrente, na sua originalidade e verdade.

Uma das formas fundamentais da sabedoria é a descoberta que cada um de nós vai fazendo numa vida adulta, a ciclo e a contraciclo, a tempo e fora do tempo, de que somos inacabados. Não por acaso os mestres espirituais ensinam que um dos maiores obstáculos na vida interior é a perfeição, ou melhor, a ideia da perfeição. Porque, no fundo, ela nos atira para fora da própria vida, e nos mantém como que aprisionados à miragem de uma existência que não é a nossa. Mais importante do que a completude é nos sabermos nas mãos do oleiro. São duas experiências a associar: a do inacabamento e a de habitarmos continuamente um processo de (re)criação. Por exemplo: os dias da nossa vida, em que parece que já não há nada para acontecer, são, mesmo se de uma forma que porventura ignoramos, um tempo de criação. Grande tarefa esta de levarmos a sério a própria vida. Porque o abraço ao que somos é a única possibilidade de um abraço que nos salve. A possibilidade do abraço de Deus.

Deus sem mundo, mundo sem Deus

pe. Anselmo Borges, Diário de Notícias de 16.junho.2019

1. Segundo um estudo da Universidade de St. Mary, Londres (2014-2016), em 12 países europeus, a maioria dos jovens entre os 16 e os 29 anos admitem que não são crentes e que nunca ou quase nunca vão à igreja ou rezam. A República Checa é o país menos religioso da Europa: 91% dos jovens confessam não ter qualquer filiação religiosa. Seguem-se a Estónia, a Suécia, os Países Baixos, onde essa percentagem dos sem religião fica entre os 70% e os 80%. Também noutros países se nota a queda rápida da religião: na França, são 64% a admitir não serem crentes, na Espanha, 55% declaram que não confessam qualquer religião. Perante estes dados, o responsável pelo estudo, Stephen Bullivant, afirmou que “a religião está moribunda” na Europa.

Na Alemanha e em Portugal, a percentagem de não crentes desce para 45% e 42%, respectivamente. Entre os países mais religiosos estão a Polónia, onde só 17% se confessam não crentes, seguindo-se a Lituânia, com 25%.

Também a prática religiosa está em crise. Só na Polónia, em Portugal e na Irlanda, mais de 10% dos inquiridos admitiram que iam à missa pelo menos uma vez por semana. Mas no Reino Unido, na França, na Bélgica e na Espanha, entre 56% e 60% disseram que nunca iam à igreja e entre 63% e 66% que nunca rezam. Logicamente, na República Checa, 70% afirmam nunca ter ido a uma celebração religiosa e 80% nunca rezam.

2. Onde se encontram as razões para esta situação que caminha para uma Europa pós-cristã? As explicações são múltiplas. Mas chamo a atenção para a observação que o grande teólogo Yves Congar, primeiro condenado e, mais tarde, feito cardeal, teve já em 1935: “A uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião.”

Outro grande teólogo, Philippe Roqueplo, demonstrou essa ausência do mundo na reflexão teológica e, consequentemente, na vivência da vida cristã. Fê-la no famoso e monumental Dictionnaire de Théologie Catholique, elaborado entre 1903 e 1950, em 22 volumes. Ele constatou que nesse dicionário, que deveria abarcar “todas as questões que interessam ao teólogo”, havia ausências de temas fundamentais para a existência humana. Assim, quando se procura amizade, o termo não consta; arte: um longo artigo sobre a arte cristã; beleza: nada; ciência: um longo artigo sobre ciência sagrada, ciência de Deus, ciência dos anjos e das almas separadas, ciência de Cristo, mas sobre a ciência como a entendemos, nada; economia: nada; emprego: nada; família: nada; história: nada; leigo e laicado: nada; mal: vinte colunas; mulher: nada; pessoa: remete para hipóstase; poder: um artigo com cento e três colunas sobre o poder do Papa na ordem temporal; política: nada; profano: nada; profissão: um artigo sobre profissão de fé; técnica: nada; trabalho: nada; vida: um artigo sobre a vida eterna…

3. Não há dúvida: Deus tem que ver com o sentido último e a salvação. Como escreveu L. Wittgenstein, um dos maiores filósofos do século XX, “crer num Deus quer dizer compreender a questão do sentido da vida, ver que os factos do mundo não são, portanto, tudo. Crer em Deus quer dizer que a vida tem um sentido”. Foi neste contexto que Nietzsche, sete anos antes de enlouquecer, escreveu a Ida, a mulher do amigo F. Overbeck, pedindo-lhe que não abandonasse a ideia de Deus: “Eu abandonei-a, não posso nem quero voltar atrás, desmorono-me continuamente, mas isso não me importa.” Numa longa entrevista concedida ao jornal Le Monde, em 2017, Edgar Morin, constatando que a humanidade se sente perdida, afirmou: “O mito da Europa é débil. O mito da globalização feliz está em zero. O mito da euforia do trans-humanismo só está presente entre os tecnocratas. Encontramo-nos num vazio histórico cheio de incertezas e de angústias. Só um projecto de via salvífica poderia ressuscitar uma esperança que não seja ilusão.”

4. A pergunta é: onde e como encontrar essa via de salvação? Todos, incluindo a Igreja, e a Igreja de modo especial, são convocados para encontrar a resposta a esta pergunta decisiva.

Sobre a marginalização da Igreja, concretamente na Europa, escrevia recentemente o teólogo José M. Castillo: “A sociedade “descristianiza-se” a uma velocidade e até a níveis que impressionam quem, pela idade e pelas recordações de família, tem a sensação de estar a viver numa sociedade que, há umas décadas, não podia imaginar.” Mas, afinal, porquê?, qual a razão? Não está a Igreja a ser marginalizada, porque ela própria vive à margem? Castillo acrescenta: “Uma Igreja, que vive à margem da sociedade, é uma Igreja que se não relaciona com a “realidade”, mas que se relaciona com a “representação da realidade”, que a própria Igreja elabora para si, segundo os seus interesses e conveniência. Se a Igreja se situou na “margem” da vida e da sociedade, pretendemos, a partir de fora da sociedade, influenciá-la?” “Se a Igreja não pôde assinar e fazer sua a Declaração dos Direitos Humanos, com que autoridade e com que credibilidade pode falar de amor à humanidade?”

5. Pensando nas relações entre Deus e o mundo, o mundo e Deus, o aquém e o Além, se se não quiser mentir a si próprio nem aos outros, é inevitável virem à ideia estas palavras célebres de Immanuel Kant: “A praxis deve ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.”

o peixe

José Tolentino Mendonça, E, Expresso de 15.junho.2019

A verdade é que existem dimensões da nossa existência que não são explicáveis, que não pertencem à ordem da razão lógica. Através de um silogismo ou do conhecimento matemático não chegaremos a apreender o seu sentido. E o mesmo se passa com a técnica e com as outras formas da ciência. Mas também é errado pensar que pela razão afetiva se consegue desfazer o enigma. Podemo-nos talvez aproximar mais profundamente, mas não é por acaso que os grandes mitos do amor são, a maior parte das vezes, mitos da procura de amor, de desejo de amor, não são histórias de fusão, de coincidência perfeita ou de uma reciprocidade sem ângulos.

Também à afetividade se pede que aprenda a abraçar o enigma, que deixe de temer aquela porção inalienável de silêncio e mistério que cada ser humano irradia até ao fim. Amar é também amar o que não compreendemos do outro. Lembro-me que José Augusto Mourão defendia, a propósito deste argumento, uma posição desafiadora. Ele dizia: “O que os biólogos marinhos, a indústria de peixe e os compradores de mitos partilham, é simplesmente isto: ninguém realmente sabe o que é um peixe.” É uma coisa em que pensamos pouco: o papel que na nossa vida cabe a este não saber. Se realmente não sabemos o que é um peixe, temos que retirar daí elações e perguntar: como me posso avizinhar de um peixe? Mourão responde: “Aprendamos a negociar.” Isto é, dispúnhamo-nos a aprender, ouvindo, tentando construir pacientemente um pacto, não vinculados a um saber teórico, mas sendo fiel à observação da própria realidade. Sobre o peixe, há aquele conto instigador de Herberto Helder, no livro “Os Passos em Volta”.

 “Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe. O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava… Ao meditar sobre as razões da mudança, o pintor supôs que o peixe, efetuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.”

A lei da metamorfose não será certamente a única lei. Há um património de verdade e uma ontologia que persistem e se tornam a chave do que somos. Mas a história do peixe amarelo de Herberto Helder também relata dimensões significativas da vida. Identifico rapidamente duas. Primeiro, a importância daquilo que chamaria uma “espiritualidade do provisório”. E cito Roger Schutz, fundador da comunidade ecuménica de Taizé, que explicava o provisório como o aceitar ir de começo em começo; aceitar a peregrinação, a desinstalação permanente; aceitar que podemos habitar a passagem; aceitar comprometer-se apaixonadamente com a vida não apenas quando temos todas as coisas garantidas, mas porque aceitamos caminhar na confiança. A outra coisa é a necessidade de realizar um percurso de reconhecimento. Reconhecer é antes de tudo identificar: tenho que saber quem é o outro e quem sou eu próprio; tenho de ouvir melhor, aprender a ver em profundidade. Mas o reconhecimento é também a gratidão que me faz compreender que a vida é pura economia do dom.

nem frio nem quente

textos biblicos com comentário, de Taizé

Apocalipse 3,14-16.19-20: Cristo à porta das nossas vidas Cristo ressuscitado diz: «Ao anjo da igreja de Laodiceia, escreve: ‘Isto diz o Ámen, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da Criação de Deus: Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno – e não és frio nem quente – vou vomitar-te da minha boca. (…) Aos que amo, eu os repreendo e castigo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo.’» (Apocalipse 3,14-16.19-20)

Estas palavras vêm do livro do Apocalipse, no final da Bíblia. São destinadas a uma igreja de uma cidade chamada Laodiceia. Pode-se ter a impressão que os cristãos desta cidade estão a passar ao lado das suas vidas. Não estão frios nem quentes, diz o texto. Não estão a favor nem contra algo. Estão tépidos.

Será que tinham perdido o sentido da sua vida? Não acreditavam que aí pudesse haver algo a buscar ou a fazer. Tornaram-se satisfeitos, indiferentes e desligados. O decurso das coisas é-lhes igual. Pensam que não têm necessidade de nada, nem de ninguém. Contentam-se com o que consideram ser as suas riquezas, as suas possibilidades, o seu conhecimento. Tudo isso os torna inaptos a permanecer numa comunhão com Cristo.

Através deste texto do Apocalipse, Jesus convida-os – e, com eles, a nós – a reconhecer o que lhes falta, a procurar a sua riqueza em Deus, a fazer escolhas, a comprometer-se. Numa palavra: a viver. É este apelo à vida que nos dirige Cristo quando bate à nossa porta. É como se dissesse a cada um e a cada uma: não tens tudo na tua existência, há uma dimensão de profundidade que podes ainda descobrir. Faz, então, prova de zelo, podes viver de outro modo!

Com Cristo, é a vida, a vida verdadeira, que bate à nossa porta para que aí reconheçamos Deus. Não em manifestações incomuns ou em acontecimentos extraordinários, mas no humilde quotidiano das nossas existências. O profeta Elias já tinha feito a experiência: Deus raramente derruba as nossas portas com um sismo, fogo ou tempestades. Mais frequentemente, aproxima-se de nós discretamente e convida-nos a discernir a sua presença (cf. 1 Reis 19).

Tudo na nossa vida nos pode aproximar dele. Os acontecimentos felizes e os infelizes são ocasiões para nos virarmos para Deus para lhe expressar o nosso louvor ou a nossa queixa. Poderíamos ver relevo de uma paisagem ou no voo de uma ave o traço da mão do Criador. Poderíamos discernir no rosto da pessoa à nossa frente os traços de Cristo. Poderíamos descobrir numa intuição inesperada o sopro do Espírito. Tudo pode tornar-se local da presença de Deus. Porém, mesmo quando estamos atentos, isso não se faz automaticamente. É possível que Deus bata à nossa porta e nós não o escutemos.

É por isso que no início do texto do Apocalipse se repete: «Quem tem ouvidos, ouça…». Não existe nenhum automatismo. Porém, existe esta promessa: «Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo». É Deus que opera aqui, é Cristo que vem a nós: e quando escutamos a sua palavra, estabelece-se uma comunhão. O texto exprime com esta imagem a intimidade de uma refeição partilhada.

Quando não o escutamos, resta uma atitude. É desta forma que termina o livro do Apocalipse, onde se lê: «‘Vem!’ Diga também o que escuta: Vem!’» (Apocalipse 22,17). Quando nada sentimos da presença de Deus nas nossas vidas, também nós podemos dizer: «Vem!»

  • O que significa não se ser frio nem quente? Até que ponto este retrato dos crentes da Laodiceia descreve o nosso mundo actual, as nossas comunidades cristãs? Podemos fazer algo a esse respeito?
  •  Como está Cristo a bater à nossa porta hoje? Como podemos ouvir essa chamada? Como lhe podemos abrir a porta?

Ciberpsicologia

Ciberpsicologia: quando a vida online se sobrepõe à vida real

Mauro Paulino, Expresso 21.maio.2019

No passado dia 17 celebrou-se o Dia Mundial da Internet, também conhecido como Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade de Informação. A data foi estabelecida pela Organização das Nações Unidas, em janeiro de 2006, com vista a promover a inclusão digital e a reflexão sobre as potencialidades e desafios das novas tecnologias na vida dos cidadãos. A Psicologia, enquanto ciência que estuda o comportamento e os processos mentais dos indivíduos, não poderia ficar indiferente a esta realidade, que implica alterações significativas na vida das pessoas. Não só na forma como comunicam e acedem à informação, como também nas suas interações com os outros, os seus comportamentos, valores e atitudes e até mesmo nos seus estilos de vida.

Está então criada a necessidade para uma área emergente e inovadora, designadamente a Ciberpsicologia, a qual se foca no interesse e investigação da interação entre o indivíduo, a sociedade e a tecnologia, tendo em conta as vantagens e as desvantagens para o desenvolvimento humano, ao nível individual, relacional, ocupacional, grupal e organizacional.

Neste âmbito surgem também questões relacionadas com protocolos de investigação, intervenções psicológicas online, uso de jogos na prática terapêutica, eHealt, mHealth e intervenção em diversas áreas, como a oncologia, a reabilitação, a obesidade, o luto, entre outras. Esta área ganha ainda mais relevância numa fase em que se discute e trabalha interdisciplinarmente no domínio da inteligência artificial.

É, por isso, importante partilhar com o leitor resultados de investigações que nos devem fazer ponderar, em termos pessoais, mas também educacionais, a relação que temos com os computadores, com a World Wide Web, com os telemóveis e outros pequenos dispositivos multifunções. Ainda em abril deste ano, a Organização Mundial de Saúde desaconselhou a exposição das crianças com menos de dois anos a ecrãs e entre os dois e os quatro anos que fosse limitada até uma hora diária, sabendo nós que, muitas vezes, esses ecrãs estão ligados a plataformas digitais para vídeos ou jogos.

Neste sentido, as potencialidades da utilização da internet, ainda que inquestionáveis, podem dar lugar a efeitos negativos na vida das pessoas, sobretudo quando existe uma sobreposição da vida online com a vida real. Tendemos a não dar a importância suficiente ao facto de que o uso da Internet e do smartphone têm características comuns às adições de substâncias, como sintomas de privação, usar o smartphone para lidar com sintomas de ansiedade, depressão e stresse sem enfrentar os problemas reais, falta de sono, interferência na realização de tarefas, perturbações nas relações face a face, perda da noção do tempo e, por vezes, mesmo dores nos pulsos e na nuca, constituindo um fator de risco para uma perturbação musculoesquelética a longo prazo.

As interações nas redes sociais através da partilha de vídeos, realização de diretos, troca de comentários, publicações de textos e/ou imagens podem provocar nos seus utilizadores a perceção ilusória da realidade dentro da interação virtual. E quanto maior é o grau em que se embarca nesta ilusão, maior é a tendência para o comportamento problemático e aditivo. Uma série de estudos tem demonstrado que há um risco de a comunicação online causar sentimentos de solidão, mesmo em quem não terá razões objetivas para se sentir só, assim como em pessoas com relacionamento amoroso, com ambiente familiar positivo e até com tempo para socializar face a face.

É importante que se perceba que a comunicação online carece da riqueza sensorial e do feedback corporal de que o cérebro humano necessita para gerar as reações fisiológicas que nos permitem sentirmo-nos em verdadeira conexão social. Por outras palavras, a comunicação online é sempre superficial e não substitui a interação face a face. Assim, ao não se beneficiar da riqueza das interações presenciais, a comunicação online contribui significativamente para gerar sentimentos de solidão. A tentativa de ultrapassar essa solidão com recurso às redes sociais conduz ao risco de se instalar um círculo vicioso de adição. Como se não bastasse, a utilização persistente do smartphone demonstrou ter um impacto negativo na qualidade das relações amorosas, com presumíveis efeitos negativos na sexualidade.

Merece igualmente reflexão o facto de que a constante necessidade de publicação e de interação virtual estar também diretamente associada a uma procura de validação social em likes e em outras expressões afirmativas online. Para além de essas manifestações não anularem os sentimentos de solidão, contribuem para o surgimento de inveja, um sentimento facilmente desencadeado pelas redes sociais, como mostram vários estudos.

As selfies, uma das tendências mais populares entre os utilizadores das tecnologias e das redes sociais, aparecem associadas ao liking relacional na rede. Uma investigação demonstrou que as pessoas retratadas nas selfies foram julgadas como menos atrativas socialmente, menos dignas de confiança e mais narcisistas do que as retratadas em fotografias tiradas por outrem.

A falta de atenção é também um efeito observável em quem digita no seu smartphone, mas as consequências vão mais além. A investigação apontou que a mera presença visível do smartphone, ligado no silêncio e sem ser manuseado, prejudica a capacidade de execução de tarefas e de resolução de problemas. Tal parece acontecer devido ao esforço subconsciente para inibir o desejo de utilização do aparelho, o que consome recursos atencionais. Por sua vez, quando o smartphone foi colocado noutra divisão, o desempenho cognitivo melhorou consideravelmente. Quando foi colocado no bolso, o desempenho melhorou um pouco, porém não tanto como quando foi colocado noutra sala. Curiosamente, os participantes nas investigações afirmaram que não estavam a pensar no smartphone, o que demonstra que a interferência não é consciente. Já pensou como o seu filho estuda? Ou o que sucede durante as aulas?

A Internet, apesar de poder ser um lugar fascinante e atrativo, pode também constituir-se como um desconhecido repleto de perigos relativamente invisíveis. Razão pela qual é preciso estar-se sensibilizado para a subversão da utilização dos meios cibernéticos para finalidades criminais, como sucede no cyberbullying, na difusão de pornografia infantil ou aliciamento de menores para condutas sexualizadas, como recorrentemente é noticiado.

Somam-se ainda os desafios virais perigosos partilhados, essencialmente, entre a população mais jovem, ou mesmo infantil. Numa coleção em que assumo funções de diretor, publicámos, neste mês de maio, um livro dedicado à Intervenção em Ciberpsicologia, coordenado por Ivone Patrão e Isabel Leal, o qual resume mais de 20 desafios perigosos online que podem provocar lesões graves ou mesmo a morte.

Exige-se claramente uma psicoeducação digital, quer em crianças e adolescentes, quer em população adulta, dado o importante repto que representa para as escolas, professores, alunos, familiares e, de forma mais abrangente, todos aqueles com responsabilidades políticas, sociais ou educativas. Neste mundo tecnológico em transformação constante, é inegável o papel e o contributo da ciência psicológica, em particular da ciberpsicologia.

A profissão de viver

José Tolentino Mendonça, E, Expresso 4.maio.2019

Claro que falar do viver como sendo uma profissão tem o seu quê de insólito. A vida não é um ofício, é uma condição. Mas referir-se a ela desse modo talvez nos ajude na compensação de quanto a vida nos pede de aprendizagem, iniciação e sucessivos recomeços. Era Erich Fromm quem dizia que as pessoas felizes são aquelas que encaram todo o curso da sua vida como um processo de nascimento, rompendo com a gramatica mais comum que considera que cada um de nós só nasce uma vez, só tem uma grande oportunidade, só percorre um caminho antes de se precipitar no fim. Erich Fromm defendia que tal modo de pensar gera este efeito devastador: vermos tanta gente a morrer sem sequer ter chegado a nascer. De facto, o verdadeiro e exigentíssimo desafio que se coloca ao ser humano é levar a cumprimento o seu nascimento. Nisto, nós humanos diferenciamo-nos das outras criaturas, que em pouco tempo já são completamente aquilo que são. Nós, ao contrário, somos inacabados; recebemos a vida como dom, mas também como tarefa; vivemos no decurso do tempo o processo do nosso próprio parto; precisamos de muitos anos (e de muito trabalho interno) para chegar a exprimir o que há em nós de original. Os mestres estoicos, na Antiguidade, motivavam os discípulos a construir a sua própria estátua. Quer dizer, exortavam-nos ao labor de si para edificar a sua própria humanidade, esse labor face ao qual todos os outros que desenvolvemos são simplesmente preparatórios.

As nossas sociedades concentram demasiado a sua aposta de formação em saberes técnicos e científicos, ou então assumidamente parcelares e especializados, apontando como horizonte o resultado sobretudo económico e, como consequência, damos por nós analfabetos, vulneráveis e desprovidos nas dimensões fundamentais do viver. Uma das patologias contemporâneas é este défice de sabedoria, esta falta de uma arte da existência. Por isso, não só um a um e em doloroso contraciclo, como na melhor das hipótese acontece, mas como comunidades no seu conjunto teremos de confrontar-nos com aquelas perguntas que T. S. Eliot coloca num dos seus poemas: “Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos com a informação?”. Eliot tem razão: a vida não só se ganha, também se perde quando nos tornamos prisioneiros do imediato, do desagregado e do fragmentário, sem espaço para reelaborar o vivido a partir de razões mais profundas.

Por sua vocação, o ser humano não se realiza apenas na luta pela sobrevivência. a par dessa, ele precisa de conhecer-se a si mesmo, viver na exterioridade e na interioridade, precisa de avizinhar-se com vagar da “espantosa realidade das coisas”, escutar o visível até ao fim e para lá do visível, porque a vida é surpresa e mistério. Precisa de acreditar e duvidar, recolher e lançar o mesmo propósito muitas vezes, precisa de dizer e calar, abraçando assim esse movimento que é afinal imobilidade e essa imobilidade que é afinal movimento. Atirámos as experiências de vida contemplativa para uma periferia e olhámos para essas expressões (religiosas, culturais, humanas) com indiferença, como se não tivessem nada a ensinar-nos. Dispersámos assim um património espiritual de que as nossas sociedades carecem absolutamente. Friedrich Nietzsche escreveu: “Por ausência de quietude a nossa civilização está a desaguar numa nova barbárie. Nunca como hoje o ativismo dos irrequietos gozou de tamanha consideração. Por isso, uma das correções a introduzir no modo de vivermos a nossa humanidade seria reforçar largamente o elemento contemplativo”.

Salvos pela fraqueza

José Tolentino Mendonça, E, Expresso 13.abril.2019

Entrar numa igreja em dia de sexta-feira santa é uma experiência que só nos pode deixar atónitos. Olhamos para o tabernáculo e está aberto e vazio, como se tivesse sido espoliado. O altar não tem toalha nem adornos: apenas a pedra nua. Se procurarmos uma cruz, não a encontramos: foi retirada ou oculta ao olhar com um véu. Estamos ali como se estivéssemos num qualquer lugar perdido, rebuscando entre silêncio e escombros. Encontramo-nos numa situação paralela àquela descrita no Evangelho de João, quando os mensageiros vestidos de branco perguntam a Madalena: “Mulher, porque choras?” E ela responde: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13). É verdade que demasiadas vezes o cristianismo (pelo menos, o nosso) corre o risco do excesso: demasiadas palavras, amontoação de símbolos e de ritualismos… Em dia de sexta-feira santa é o contrário: ocorre uma dramática redução. O espaço religioso esvazia-se até ao osso; torna-se simplesmente anónimo; nada o distingue de qualquer outro lugar desolado da terra. A liturgia, que nessa ocasião se celebra, principia em estrito silêncio e quando os presbíteros chegarem à zona do altar vão atirar-se por terra, longamente jazentes, como que inanimados, mimetizando com o próprio corpo o abandono que toda a comunidade é chamada a experimentar. Que espesso enigma é este? Onde nos conduz este tatear cambaleante, esta celebração assim desprovida, esta radical privação? A única resposta é esta: conduz-nos ao âmago ardente dos mistérios cristãos que, na verdade, são puro escândalo, aturdimento e loucura, pois os cristãos acreditam num Messias crucificado, num Salvador que salva não através da força, mas da impotência. Isso que São Paulo explicitou na Primeira Carta aos Coríntios: “Nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo… e loucura” (1 Cor 1, 22).

Um dos mais importantes teólogos do século XX, o pastor-mártir Dietrich Bonhoffer, rebelava-se contra o recurso que, na prática, os crentes fazem a um deus ex-machina, a um Deus “tapa-buracos”, que se assemelha a uma solução mágica para todos os dilemas humanos. De facto, o cristianismo opera uma corajosa inversão de paradigma: enquanto que a religiosidade natural leva a que o homem procure o Deus poderoso como auxílio para a sua vulnerabilidade, o cristianismo reenvia continuamente o homem à impotência e ao sofrimento de Deus. Segundo Bonhoeffer, “é absolutamente evidente que Cristo não nos socorre em razão da sua omnipotência, mas em razão da sua fraqueza”, pois “Deus deixa-se expulsar do mundo no alto da cruz, Deus revela-se aí impotente e frágil, e só dessa maneira está o nosso lado e nos ajuda”. Neste caso, o que é a fé? Para Dietrich Bonhoeffer, a fé é tomar parte no sofrimento de Deus no mundo, abraçando e cuidando de cada pessoa que sofre, responsabilizando-se solidariamente com esta história, fincando nela os dois pés. Se vivermos agora a difícil história humana, com as suas emergências e apelos, apenas com um pé colocado no chão, teremos depois também apenas um pé colocado no paraíso.

Outra mártir do século XX, a escritora Etty Hillesum, abre-nos para um intenso desafio existencial quando diz: “Eu compreendi que tenho de ajudar Deus.” No diário que redigiu no campo de concentração, deixou escritas estas palavras: “São tempos temerosos, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez, passei-a deitada no escuro de olhos abertos e a arder, e muitas imagens do sofrimento humano desfilavam perante mim. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, mas nós é que temos de ajudar-te, e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós mesmos”.