Dia Internacional da Felicidade

Marta Gonçalves e Joana Beleza, Expresso 20.março.2019

“Não são os outros que fazem a felicidade, somos nós. Mas são os momentos em que estamos com os outros que nos fazem felizes”, explica ao Expresso Cristina Quadros, presidente da Delegação Regional do Centro da Ordem dos Psicólogos Portugueses e também uma das organizadoras da conferência “Bem-Estar: O que diz a Ciência sobre a felicidade?”. “Isto não quer dizer que o que fazemos aos outros não contribui para a felicidade deles. Claro que a atenção que damos, a gentileza ou a gratidão contribuem. Não são processos isolados, estão todos em ligados. Somos seres sociais e só podemos ser felizes com os outros. No entanto não são os outros que nos fazem felizes.”

Da forma mais resumida possível: é o momento que provoca felicidade. “Na felicidade ninguém é inocente”, diz a psicóloga, e “é terrível se estivermos à espera que os outros nos façam felizes”. É “uma dependência horrível”.

A fórmula da felicidade

50% é hereditário.

40% é de cada um de nós.

10% é do contexto em que estamos inseridos.

A fórmula é apresentada pela investigadora da Universidade da Califórnia (EUA) Sonia Lyubomirsky, que assim define a felicidade: “É a experiência da alegria, do bem-estar e do contentamento combinado com uma vida sentida como boa, com significado e propósito”. A hereditariedade está, logicamente, relacionada com questões genéticas e com o ambiente em que nascemos e crescemos. “Se uma criança cresce num ambiente feliz tem mais probabilidade de ser feliz do que uma criança que cresce num ambiente em que isso não acontece”, aponta Cristina Quadros. Os 40% da nossa responsabilidade estão ligados ao que fazemos diariamente, enquanto os pequenos 10% das circunstâncias – “que às vezes tanto peso damos” – têm que ver com o país onde nascemos, o género, se somos ricos ou pobres, saudáveis ou doentes.

Embora a neurociência explique cientificamente a felicidade – que implica a libertação de endorfinas e da hormona da ocitocina -, o que nos provoca essa sensação é subjetivo. “Está relacionado com as nossas vivências.” O momento. E é também por isso que ao longo da vida aquilo que nos faz felizes muda.

“Um bebé consegue entreter-se com uma coisa a que não damos qualquer valor: um papel ou fio”, exemplifica Cristina Quadros. “A noção de bem-estar tem que ver com as emoções positivas e também com a novidade: se comer um pedaço de chocolate pode ser uma emoção muito positiva, embora comer muitos pedaços de chocolate pode já não o ser, porque se repete e normaliza.”

E as crianças são mais felizes que os adultos? “Tomara que fosse assim.” Por norma, têm o conceito do bem material menos presente e por isso não fazem depender a felicidade de coisas externas. A casa e a família chega-lhes. “No entanto, a criança só está bem quando as pessoas à sua volta estão bem e tranquilas. Em Portugal isso está difícil, as famílias estão stressadíssimas. E quem não está tranquilo não pode ser feliz”, sublinha Cristina Quadros.

A felicidade és tu

– O que é para ti a felicidade? – pergunta a mãe, Salomé.

– Tu – responde a filha, Laura.

Os mais novos indicam sempre a família ou atividades feitas em família como os seus momentos mais felizes. Porquê? Porque hoje ter tempo para estar com aqueles de que mais gostamos é quase uma raridade, diz Cristina Quadros.

“Neste momento há uma coisa que as crianças não têm: tempo de qualidade para brincar com os pais”, aponta a psicóloga. “Nas consultas tenho muitas crianças que me dizem que os pais não brincam com eles e, por um lado, é por isso que valorizam tanto e associam esses momentos à felicidade. A família é também sítio de conforto, em que sentem alegria, segurança. Mesmo os miúdos mais velhos acabam por dizer que é na família que mora a felicidade.”

A felicidade, defende a psicóloga, não é algo do momento. Isso são as emoções. A felicidade é constante no tempo, é a noção de que a vida vale a pena ser vivida. “Andamos pouco atentos a percebermos as pequenas coisas fantásticas que temos todos os dias. Ser feliz nos dias bons não custa nada. O que custa – e é importante cultivarmos isto – é manter o bem estar continuado para podermos lidar com as adversidades.”

Os portugueses estão entre os mais infelizes da Europa. Segundo o “World Hapiness Report”, Portugal está 79º lugar numa lista com 156 países que é liderada por Finlândia, Noruega e Dinamarca. Estamos atrás de México, Honduras, Líbia e Paquistão. O relatório toma em consideração indicadores como a longevidade, o bem-estar, mas também as desigualdades e a pegada ecológica.

“Hoje somos bombardeados com a ideia de que a felicidade se compra. Corremos o risco de acabar convencidos de que vem numa garrafa ou numa embalagem. Os rankings valem o que valem, mas Portugal não está bem e nós sabemos disso… A quantidade de baixas médicas que existem por questões psiquiátricas e de ansiedade, o número de medicamentos que se toma no nosso país…”, lamenta Cristina Quadros, lembrando que fatores como a prática desportiva e a alimentação cuidada, entre outros, são importantes para se estar bem. “Ser feliz dá muito trabalho”.

No entanto, Cristina Quadros vê hoje um ponto de mudança: os jovens estão menos presos aos bens materiais, deixaram de se preocupar em ter casa ou carro, querem viajar e viver.

“Não precisa de estar tudo bem para sermos felizes.”

Auto-sabotagem… ou o medo do desconhecido?

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Joana Simão Valério, psicóloga clínica

psicologia.pt, claramente.pt

Nem sempre o caminho que tomamos nos conduz ao lugar desejado. E, por mais tentativas levadas a cabo, repete-se o resultado de insucesso.

Provavelmente os acontecimentos de vida, as circunstâncias, a interferência de terceiros, ou mesmo decisões pouco ponderadas, poderão ter contribuído para a instalação da situação atual. Mas também as nossas condutas, inconscientes, ou seja, os nossos padrões comportamentais repetitivos, poderão igualmente estar a condicionar o nosso sucesso. A isto chamamos auto-sabotagem, enquanto um processo sustentado em crenças internas limitadoras construídas ao longo da vida e enraizadas na estrutura mental, que levam a pessoa a adotar comportamentos repetitivos que lhe são prejudiciais. Geralmente, este é um processo inconsciente, sendo frequente a projeção da responsabilidade ou da culpa no exterior.

A existência destas crenças negativas e limitantes em relação ao próprio estão associadas a uma auto-imagem e a uma auto-estima negativas. Esta voz interna negativa pode ter várias traduções, nomeadamente: “eu não consigo fazer nada bem” “eu não mereço ser feliz”, “acabo por perder todas as pessoas que amo”, entre muitas outras. Independentemente da crença limitante, ela pode acabar por condicionar a ação, dada a necessidade do sujeito em confirmar e reafirmar a sua crença a partir do resultado daquele acontecimento. E se é verdade que o resultado do auto-boicote vem reforçar os sentimentos de tristeza e desesperança, por outro lado permite a permanência numa zona de conforto que é familiar e previsível, apesar de limitante e desagradável.

Poderão ser exemplos de auto-sabotagem, aquela pessoa que já reprovou várias vezes no exame de condução, ou a outra que já tentou por várias vezes fazer dieta mas a meio do processo, desiste e retoma os hábitos alimentares antigos e pouco saudáveis. Estas e outras situações, podem representar desafios que colocam em causa a identidade do próprio (a perceção que tem de si) e as suas crenças, pelo que inúmeras resistências são levantadas. Conduzir, para alguém com um funcionamento muito dependente, pode representar o medo de tomar as rédeas da sua vida e decidir o caminho que quer seguir. A reprovação repetida no exame de condução pode representar uma forma de fuga e de evitamento a uma situação nova e desconhecida, de maior autonomia, que desperta medo e desconforto.

Auscultar e observar os padrões comportamentais que se repetem e as emoções associadas a situações desconfortáveis, são procedimentos essenciais para começar a proceder a pequenas mudanças. Tomar consciência destes processos inconscientes é um dos primeiros caminhos para romper com a auto sabotagem e assumir a direção por uma vida mais harmoniosa. No sentido de promover o auto-conhecimento e a orientação da  vida de acordo com o que é desejável, importa saber responder às seguintes perguntas.

“O que é que eu quero para mim?”

“Como é que me quero sentir no futuro?”

“Quais são os meus objetivos?” (Os sentimentais, profissionais, de relacionamento, financeiros, e outros…)

Desfazer crenças negativas que levam à auto-sabotagem, ter um auto-conhecimento profundo, tolerar a frustração e ser persistente perante as adversidades, são aspetos que contribuem para o desenvolvimento do potencial e das habilidades de cada um.

As nossas experiências de vida não nos definem e muito menos nos rotulam. Muitas vezes vivemos colados a esses rótulos que acreditamos definirem a nossa identidade, consubstanciados nessas “falsas verdades”, quando a verdade é que a nossa plasticidade, capacidade de readaptação e potencial criativo são enormes e possibilitam estar em constante aprendizagem e transformação.

Ousemos então aceitar esse desafio constante chamado vida!

A perfeita alegria

José Tolentino Mendonça, E, Expresso 23.fevereiro.2019

É uma arte difícil, a alegria. Por uma lado, sabemo-la próxima e acessível, como se os nossos dedos pudessem, a cada momento, e sem esforço, alcançá-la. Mas sabemos também como nos escapa, como é precária, dolorosa e inexplicável a alegria. Como nos obriga a procuras extenuantes e a desertos cujo fim não de divisa. Não admira, por isso, que muitos desistam da alegria e se metam a caminhar, vida fora, excluindo-a do seu alforge. A alegria, porém, é uma condição necessária da existência. Sempre que ela nos falta temos de interpretar isso como uma iniludível sintoma, a que é preciso atender. Temos de nos interrogar sobre o porquê do nosso viver burocrático e tristonho, o porquê do nosso passo precocemente anoitecido, do nosso errar entre o peso e a cinza de onde a alegria se ausenta.

Não raro o problema é fazer depender a alegria de motivações acidentais, que nada têm que ver com a sua essência julgamos extrair a alegria do sucesso, da abundância, da força, da afirmação, de eficácia, do poder, mas o tempo encarrega-se de demonstrar o nosso equívoco. Os mestres espirituais ensinam, por exemplo, que a alegria não depende do imediato ou conjuntural: a alegria liga-se às razões profundas do viver. De facto, ela não deve ser reduzida a uma espécie de estado de graça que nos toca em certas estações ou a uma maravilhosa isenção face à turbulência e aos contrastes do mundo. Pelo contrário. Se pensarmos bem, a maior parte do tempo, a nossa vida é a experiência de inacabamento e incompletude, é esboço e é projecto, é movimento transformante. Como escrevia Montale: “Não existe um tempo inteiro:/ temos sempre tantos fios/ a correr em paralelo/ fios em sentido contrário/ que raramente coincidem.” Conta-se nos ‘Fioretti’ (a célebre recolha hagiográfica que se tornou uma das fontes para conhecer o franciscanismo das origens) que regressando São Francisco de uma viagem para o seu convento de Santa Maria dos Anjos, fustigado por um inverno particularmente hostil, o seu companheiro Frei Leão lhe perguntou: “Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria” E que São Francisco lhe respondeu desta maneira: “Imagina que ao chegarmos a Santa Maria dos Anjos, completamente encharcados, desfigurados pela lama, pela fome e pelo frio, batemos à porta do convento; o porteiro aproxima-se irritado e diz: ‘quem são vocês’; e nós explicamos: ‘somos dois dos vossos irmãos’; mas ele responde, ‘vê-se claramente que estão a mentir, são, sim, vagabundos que roubam as esmolas destinadas aos pobres. Fora daqui!’. Quando o irmão porteiro nos fechar a porta, e nos abandonar sem apelo à neve e à fome, se soubermos suportar tal injúria de bom modo, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele, possuiremos então a perfeita alegria.

“É uma arte de paciência, a alegria. Ela pede de nós a capacidade de construir as nossas expectativas, necessidades, idealizações – coisas a que estamos mais apegados do que supomos – e a provar aquela liberdade que vem de abraçar a vida nas suas não-coincidências (como sugeria a verso de Montale), com os seus sofrimentos, os seus revezes, as suas interrogações e pausas, as suas misteriosas travessias. E a fazê-lo sem ressentimentos, mas aceitando que a esperança se expressa de um modo alternativo, prossegue por um caminho outro, capaz de nos surpreender.

Na verdade, é um artesanato a alegria, não um produto prefabricado. É uma coreografia que avança por tentativas e não um enredo prévio, que já dominamos. Somos felizes quando, reconhecendo a nossa própria fragilidade, nos reconhecemos também prometidos não só à alegria, mas à perfeita alegria.

Imagem Viva

Pedro Mexia, E, Expresso, 9.fevereiro.2019

A fé dos outros não me diz respeito; aquilo em que acredito ou não acredito já é um trabalho a tempo inteiro. Mas admito que me faz alguma impressão a total indiferença religiosa. Não a indiferença à fé ou às igrejas, mas ao sagrado enquanto facto antropológico e alegoria do humano. Entendo, e às vezes acompanho, as críticas às intolerâncias e iniquidades das religiões organizadas, incluindo as cristãs, mas sempre achei bizarro que alguém declare, por exemplo, que nunca leu a Bíblia porque é ateu, como se a Bíblia fosse imprestável para incréus.

Uma refutação veemente desse tipo de recusas encontrei-a num artigo que a escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) publicou no jornal comunista “l’Unità” a 22 de Março de 1988. Nascida numa família laica de origens judaicas, filiada no PCI, Ginzburg interveio inesperadamente na polémica sobre os crucifixos nas escolas. Não é a questão concreta que aqui me interessa, até porque defendo que num Estado não-confessional os edifícios públicos não devem ter símbolos religiosos; mas impressionou-me a valorização simbólica que a escritora faz da cruz de Cristo, que ela não interpreta exclusivamente como um artefacto religioso. Admitindo que, se fosse professora, preferia ter a cruz na sala de aula, Ginzburg assevera que “o crucifixo não gera nenhuma discriminação” E que é, bem pelo contrário, a imagem de uma revolução, a “revolução cristã que espalhou pelo mundo a ideia de igualdade entre homens”. E, então, pergunta: vamos negar que essa ideia mudou o mundo? E vamos negar que é justo celebrá-la?

Pode contrapor-se que a cruz simboliza para muita gente alguns aspectos do cristianismo bem menos benévolos. Mas o argumento do artigo é que o crucifixo é igualmente um símbolo de todo o sofrimento humano. Os pregos e a coroa de espinhos e a cruz evocam a dor, a solidão, a morte, os males aos quais ninguém está imune. Quem é aquele condenado na cruz? Filho de Deus para uns, judeu perseguido para outros, é para tantos a imagem viva de um homem martirizado pelo amor a Deus e ao próximo. Esta ideia do “próximo” não pode ser indiferente nem a um ateu, muito menos a progressista. Jesus na cruz representa todos aqueles que sofreram e morreram pelos outros, escreve Ginzburg, e esclarece logo que não vê escândalo nenhum nessa afirmação: “Porque antes de Cristo ninguém tinha dito que todos os homens são iguais, e irmãos; todos, os ricos e pobres, crentes e não-crentes, judeus e não-judeus, negros e brancos; e ninguém tinha dito que no centro da nossa existência deve estar a solidariedade entre os homens. E ser vendido, traído, martirizado e morto por causa da fé é uma coisa que pode acontecer a todos. Acho que é bom que os rapazes, as crianças, aprendam isso nos bancos da escola”.

A autora de “Léxico Familiar” (Natalia Ginzburg, Relógio d’Água, 2019) diz que olhamos para o crucifixo como coisa muda que está numa parede ou faz parte da parede, mas que o crucifixo não é mudo nem inócuo: é um símbolo que traz consigo palavras. Palavras cristãs mas que há muito fazem parte da consciência colectiva, palavras como “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados”. pergunta Ginzburg: “Como e onde serão saciados? No Céu, dizem os crentes. Enquanto os outros não sabem nem quando nem onde, mas estas palavras fazem com que sintam, sabe-se lá porquê, a fome e a sede de justiça de forma mais severa, mais ardente e mais forte”.

Pai Nosso para 2019

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Frei Bento Domingues, Público, 6.janeiro.2019

1. Dizem-me que ando distraído das estatísticas das religiões que, na Europa, manifestam um inquietante declínio. O cristianismo não revela qualquer estratégia adequada para inverter essa situação. A laicidade do Estado, mal entendida, teria conduzido a sociedade para os braços do maior adversário da fé cristã: a indiferença. O Islão aposta nesse vazio. Estaria, ao que parece, cada vez mais dominado pelas correntes e organizações islamitas, que, a bem ou a mal, pretendem ser a religião europeia do futuro. Por outro lado, invocar o nome de Deus em vão era considerado um pecado grave. Acaba de sagrar a tomada de posse do Presidente do Brasil. As chamadas “igrejas evangélicas” têm abundantes passagens do Antigo Testamento para apoiar a sua retórica banhada de propósitos guerreiros.

À primeira vista, violência e religião nunca deveriam poder andar associadas. A história mostrou e mostra que, por diversas loucuras, andaram e andam muito juntas.

A religião é, por natureza, a dilatação transcendente do ser humano. Mas também pode ser entendida como um mecanismo de autoprotecção. Um indivíduo ou um grupo sentem-se mais seguros se alguém superior – uma divindade, por exemplo – os proteger em todas as dimensões da vida: espirituais e materiais. Nesse sentido, defender a sua religião é defender todos os seus interesses. Quem a puser em causa ameaça toda a sua vida. Daí nasce o elo entre violência e religião: defender-se do inimigo. A melhor defesa é destruí-lo. Procura, por esse caminho, salvar a própria identidade. É uma explicação simples para a história da violência ligada ao fenómeno religioso e às suas expressões. Nessa perspectiva, a salvação de uns é a perda dos outros.

Não é inevitável que assim seja. A tolerância não é um desprezo pelas convicções de cada pessoa ou grupo. É a atitude de quem reconhece que não é dono da verdade, mas apenas um seu peregrino. Para erradicar as ligações entre religião e violência, o melhor é a promoção da liberdade religiosa para todos, menos para aquelas actividades que a procuram destruir.

Quem deseja a liberdade religiosa não é um apóstolo da indiferença perante os valores. Reconhecer o direito a ser ou não ser religioso é um apelo à seriedade na busca livre do sentido da vida. Procurar a verdade e testemunhar essa busca não tem nada a ver com a violência. Testemunha algo que é essencial à vida: nunca se acomodar aos passos já dados. O infinito não tem limites.

2. A oração é uma atitude comum a todas as religiões. A qualidade da oração diz muito acerca da natureza de uma determinada religião. Se à crença numa divindade está ligado o prémio e o castigo, tem de negociar com ela. Tem de evitar a sua ofensa e pedir perdão pelo pecado cometido. É uma transposição para o sagrado do que se passa nas relações humanas de inferior para superior. Em caso de muita incerteza, importa contar com bons intermediários. Como se diz, quem tem amigos não morre na cadeia.

Não vou apresentar uma tipologia de todas as formas de oração nas diferentes religiões ou das atitudes espontâneas de cada pessoa perante o mistério da história pessoal e do mundo. No plano cristão, a oração mais prestigiada e mais comentada é o Pai-Nosso. Costuma dizer-se que é a própria síntese do Evangelho de Cristo. Até está escrito que foi Ele que pediu para se rezar assim. Recomendo a consulta da tradução e das notas de Frederico Lourenço aos textos de Mateus e Lucas [1].

O Papa Francisco, na 2.ª catequese sobre o Pai Nosso [2], no seu inconfundível estilo, diz o mais importante: “Jesus põe nos lábios dos seus discípulos uma prece breve, audaz, formada por sete pedidos, um número que na Bíblia não é casual, indica plenitude. Digo audaz, porque se Cristo não a tivesse sugerido, provavelmente nenhum de nós — aliás, nenhum dos teólogos mais famosos — ousaria rezar a Deus desta maneira.”

“Com efeito, Jesus convida os seus discípulos a aproximarem-se de Deus e a confidenciar-lhe alguns pedidos: antes de tudo em relação a Ele e depois em relação a nós. Não há prefácios no Pai Nosso. Jesus não ensina fórmulas para adular o Senhor, aliás, convida a pedir-lhe abatendo as barreiras da reverência e do medo. Não diz para se dirigir a Deus chamando-lhe Omnipotente, Altíssimo, Tu, que estás tão distante de nós, eu sou miserável: não, não diz assim, mas simplesmente Pai, com toda a simplicidade, como as crianças se dirigem ao pai. E esta palavra Pai, expressa a confidência e a confiança filial.

3. O que talvez se esqueça, nos comentários ao Pai Nosso, é a raiz do contencioso de Jesus com a sua família de Nazaré, com a família dos discípulos e com o facto de ele nunca ter constituído uma família pessoal. Procurou fazer família com quem não era da família. Daí o escândalo que provocou.O Pai Nosso exprime o mundo por que lutou e a missão que deixou aos discípulos, a missão que nos cabe. Nada acontece de forma mágica. É uma forma de viver e de intervir em relação ao que ainda falta, ao advento do Reino de Deus no mundo.

Dizer o Pai Nosso e julgar que as pessoas passam, automaticamente, a considerarem-se como irmãs não seria milagre, mas um exercício ilusionista. O Pai-Nosso é um programa de missão para a Igreja e para todos os que trabalham por uma humanidade una, com os mesmos direitos. Por não se encarnar o Pai-Nosso como uma missão do dia-a-dia, semana-a-semana, ano-a-ano, uma ousadia pode tornar-se banalidade verbal.

Foi o que o Papa Francisco afirmou na quarta-feira passada: “Quantas vezes vemos o escândalo dessas pessoas que passam o dia na igreja, ou que lá vão todos os dias, e depois vivem a odiar ou a falar mal dos outros.” Nesse caso, “o melhor é nem ir à igreja”. “Se vais à igreja, então vive como filho, como irmão, dá um verdadeiro exemplo.” Os hipócritas rezam “para serem vistos pelas pessoas”. “Os pagãos acreditam que se reza a falar, a falar, a falar. Eu penso em muitos cristãos que acreditam que rezar é falar com Deus, salvo seja, como um papagaio. Não! Rezar faz-se com o coração, a partir do interior.”

Começamos um novo ano. Os interesses dos cristãos de todo o mundo, para além do que as ciências, as técnicas, a economia, as políticas e as criações artísticas prometem, não podem esquecer a alma de tudo espelhada na oração que o Senhor nos deixou. Um programa de vida a inventar como o pão nosso de cada dia.

[1] Mt 6, 5-15; Lc 11, 2-4. Ver também Xavier Léon-Dufour, Dictionnaire du Nouveau Testament, na entrada père.
[2] Audiência de 12.12.201

Outro caminho…

Homilia do Papa Francisco, Epifania do Senhor, Domingo, 6 de janeiro de 2019

Epifania: esta palavra indica a manifestação do Senhor, que Se revela – como diz São Paulo, na segunda Leitura (cf. Ef 3, 6) – aos gentios, hoje representados pelos Magos. Desvenda-se, assim, a verdade sublime que Deus veio para todos: todas as nações, línguas e povos são acolhidos e amados por Ele. Símbolo disso é a luz, que tudo alcança e ilumina.

Ora, se é verdade que o nosso Deus Se manifesta para todos, surpreende, porém, o modo como o faz. O Evangelho mostra-nos o redopio de gente desencadeado em torno do palácio do rei Herodes, precisamente quando se designa Jesus como rei: «Onde está – perguntam os Magos – o rei dos judeus que acaba de nascer?» (Mt 2, 2). Encontrá-Lo-ão, mas não onde pensavam: não no palácio real de Jerusalém, mas numa casa humilde de Belém. O mesmo paradoxo aparecera nos textos de Natal, quando o Evangelho falava do recenseamento de toda a terra no tempo do imperador Augusto e do governador Quirino (cf. Lc 2, 2). Mas, nenhum dos poderosos de então se apercebeu de ter nascido, nos seus dias, o Rei da história. E mais tarde quando Jesus – pelos trinta anos – Se manifesta publicamente, tendo João Batista como precursor, de novo o Evangelho nos proporciona uma solene apresentação do contexto: depois de elencar todos os «grandes» de então, tanto no poder secular como no religioso – Tibério César, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, os sumos-sacerdotes Anás e Caifás –, conclui: «a Palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto» (Lc 3, 2), ou seja, a nenhum dos grandes foi dirigida, mas a um homem que se retirara para o deserto. Eis a surpresa: Deus não sobe à ribalta do mundo para Se manifestar.

Ao ouvir aquela lista de personagens ilustres, poderia vir a tentação de «fixar os holofotes» nelas. Poderíamos pensar: teria sido melhor se a estrela de Jesus aparecesse em Roma, na colina do Palatino, onde reinava Augusto sobre o mundo; todo o império ter-se-ia imediatamente tornado cristão. Ou então, se tivesse iluminado o palácio de Herodes, este teria podido fazer o bem em vez do mal. Mas, a luz de Deus não vai para quem brilha de luz própria. Deus propõe-Se, não Se impõe; ilumina, mas não encandeia. É sempre grande a tentação de confundir a luz de Deus com as luzes do mundo. Quantas vezes corremos atrás dos clarões sedutores do poder e da ribalta, convencidos que prestamos um bom serviço ao Evangelho! Mas, assim, voltamos os holofotes para o lado errado, porque Deus não estava lá. A sua luz amável resplandece no amor humilde. Além disso, quantas vezes tentamos, como Igreja, brilhar de luz própria! Mas, não somos nós o sol da humanidade; somos a lua que, mesmo com as suas sombras, reflete a luz verdadeira, o Senhor. A Igreja é mysterium lunae e o Senhor é a luz do mundo (cf. Jo 9, 5). Ele…, não nós!

A luz de Deus vai para quem a acolhe. Isaías, na primeira Leitura (cf. 60, 2), lembra-nos que a luz divina não impede as trevas e o nevoeiro denso de cobrirem a terra, mas resplandece em quem está pronto a recebê-la. Por isso, o profeta dirige um convite, que interpela a cada um: «Levanta-te e resplandece» (60, 1). É preciso levantar-se, isto é, erguer-se do próprio sedentarismo e prontificar-se a caminhar. Caso contrário, fica-se parado como os escribas consultados por Herodes, que sabiam bem onde nascera o Messias, mas não se moveram. Além disso, é preciso revestir-se de Deus – que é a luz – todos os dias, até que Jesus Se torne a nossa vestimenta diária. Mas, para usar a vestimenta de Deus, que é simples como a luz, primeiro é preciso desfazer-se das roupas pomposas. Caso contrário, faz-se como Herodes, que preferia as luzes terrenas do sucesso e do poder à luz divina. Ao invés, os Magos realizam a profecia, levantam-se para ser revestidos de luz. E são os únicos que veem a estrela no céu: nem os escribas, nem Herodes, ninguém em Jerusalém a viu. Para encontrar Jesus, deve-se planear um itinerário diferente, deve-se tomar outro caminho: o d’Ele, o caminho do amor humilde. E deve-se perseverar nele. De facto, na conclusão do Evangelho de hoje, diz-se que os Magos, tendo encontrado Jesus, «regressaram ao seu país por outro caminho» (Mt 2, 12). Outro caminho, diferente do de Herodes, distinto do caminho do mundo. Um caminho como o percorrido pelos que estão com Jesus, no Natal: Maria e José, os pastores. Eles, como os Magos, deixaram suas casas e tornaram-se peregrinos pelos caminhos de Deus. Com efeito, só encontra o mistério de Deus quem deixa os próprios apegos mundanos e se põe a caminho.

O mesmo vale para nós. Não basta saber onde nasceu Jesus, como os escribas, se não caminhamos até esse onde. Não basta saber que Jesus nasceu, como Herodes, se não O vamos encontrar. Quando o seu onde se torna o nosso onde, o seu quando o nosso quando, a sua pessoa a nossa vida, então cumprem-se em nós as profecias. Então Jesus nasce dentro e torna-Se Deus vivo para mim. Hoje, irmãos e irmãs, somos convidados a imitar os Magos. Eles não discutem…, caminham; não ficam a ver, mas entram na casa de Jesus; não se colocam no centro, mas prostram-se aos pés d’Ele, que é o centro; não se fincam nos seus planos, mas prontificam-se a tomar outro caminho. Nos seus gestos, temos um contacto estreito com o Senhor, uma abertura radical a Ele, um envolvimento total com Ele. Com Ele, usam a linguagem do amor, a própria linguagem que Jesus, ainda infante, já fala. De facto, os Magos vão ter com o Senhor, não para receber, mas para dar. Perguntemo-nos: no Natal, trouxemos algum presente a Jesus, pela sua festa, ou trocamos presentes apenas entre nós? (…)