Encontro Europeu de Taizé – Madrid

meditações do irmão Alois, 29 dezembro 2018

Estes dias, em Madrid, estamos reunidos vindos de tantos países diferentes. E os que nos acolhem pertencem a diversas gerações. Com todas estas pessoas que não tínhamos conhecido antes, fazemos a experiência de uma comunhão. E aí encontramos uma alegria. 

A nossa peregrinação de confiança é, também, uma aventura interior. E gostaria, esta noite, de chamar a vossa atenção para este aspecto do nosso encontro: a confiança nos outros, a confiança em nós mesmos e a confiança em Deus são realidades intimamente ligadas. A confiança não é cega, nem ingénua ou sonhadora. Sabe discernir o bem e o mal. É, sim, a certeza de que, independentemente da situação, mesmo na escuridão, se pode abrir um caminho de vida.A confiança não é passiva. É uma força que nos impele em todas as situações a dar mais um passo para viver mais plenamente e para ajudar os outros a viver de forma mais plena. Estimula a imaginação, dá a coragem e o gosto de arriscar.

Mas todos conhecemos, também, o que significa não ter confiança. A fadiga, os fracassos, a amizade traída, a violência, as catástrofes naturais, a doença, tudo isso corrói a confiança, que é muito vulnerável. A nossa confiança em Deus é muito frágil. Em certa medida, todos nós conhecemos a dúvida: duvidamos do amor de Deus, alguns duvidam mesmo da sua existência. Onde encontrar, então, a fonte da confiança?

Para que a confiança nasça e renasça em nós, precisamos de alguém que confie em nós, alguém que nos acolha, que nos ofereça a sua hospitalidade. Lemos esta noite um relato impressionante da vida de Jesus. Caminhou sobre as águas do lago para se juntar aos seus discípulos na tempestade. Este relato parece inverosímil aos nossos ouvidos modernos. Retenhamos, no entanto, as palavras de Jesus: «Não temais, estou aqui». E a Pedro, que queria ir ao seu encontro sobre as águas, diz: «Vem». Então, Pedro atira-se à água. Olhando Jesus, chega a avançar. Porém, quando se deixa hipnotizar pelo perigo, afoga-se.

Para os discípulos, Jesus não é apenas o mestre que os ensina. Chamou-os para estar consigo e envia-os porque confia neles. Se também nós pudéssemos ver em Jesus aquele que confia totalmente em nós… Fossemos nós o maior pecador do mundo, e ele diria as mesmas palavras que aos seus discípulos: «Não temais, estou aqui». A cada um e a cada uma de nós, ele dirige o mesmo apelo que a Pedro: «Vem», abandona as tuas pequenas seguranças, ousa enfrentar a realidade por vezes dura do mundo.

De Teresa de Ávila, essa mulher excepcional do século XVI que ainda hoje nos estimula, cantamos estas palavras: «Nada te turbe, nada te espante, quien a Dios tiene nada le falta». Disse também: «Aventuremos la vida!». Sim, a vida é bela para quem se lança e toma decisões corajosas.Quais são estas decisões corajosas? Cabe a cada um responder, cumprindo uma peregrinação interior que vai da dúvida à confiança. Trata-se, para todos nós, de acolher o amor de Cristo para nos tornarmos artesões de confiança e de paz, perto e longe de nós.

o nascimento de Jesus

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Bento XVI, A Infância de Jesus

“E quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria.” Lc 2, 6-7

Começamos o nosso comentário a partir das últimas palavras desta frase: “por não haver lugar para eles na hospedaria”. A meditação, na fé, destas palavras encontrou nesta afirmação um paralelismo íntimo com as palavras, cheias de profundo conteúdo, que temos no Prólogo de São João: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo, 1, 11). Para o Salvador do mundo, Aquele para quem todas as coisas foram criadas, não há lugar. “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20). Aquele que foi crucificado fora da porta da cidade (Heb 13, 12) também nasceu fora da porta da cidade.

Tudo isto nos deve fazer pensar, nos deve recordar a inversão dos valores que se verifica na figura de Jesus Cristo, na sua mensagem. Desde o seus nascimento, Jesus não pertence àquele ambiente que, aos olhos do mundo, é importante e poderoso; e contudo é precisamente este homem irrelevante e sem poder que Se revela como o verdadeiramente Poderoso, como Aquele de quem, no fim de contas, tudo depende. Por conseguinte, faz parte do tornar-se cristão este sair do âmbito daquilo que todos pensam e querem, sair dos critérios predominantes, para entrar na luz da verdade sobre o nosso ser e, com esta luz, alcançar o justo caminho.

Dar o que sobra não tem a marca de Deus

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António Couto, bispo de Lamego, Mesa de Palavras

1. Um braçado de gravetos, um copo de água, um punhado de farinha, um tudo nada de azeite. Juntando as pontas destes fios soltos, a viúva de Sarepta prepara-se para fazer uma última refeição de despedida da vida juntamente com o seu filho único. É nesta terra quase a terminar, onde já mal se tem pé, nesta vida quase a expirar, que surge Elias, o homem de Deus, conduzido por Deus, que atira à pobre mulher mais um fio de voz e de esperança a que se agarrar: Deus. Não é a quantidade que importa; o que importa é a totalidade. Pelo fio de voz e de esperança de Elias, Deus não reclama alguma coisa; reclama tudo: o coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas! E nem a farinha se esgota na amassadeira, nem o fio de azeite deixa de cair da almotolia! Extraordinária lição para a pobre viúva de Sarepta (Primeiro Livro dos Reis 17,10-16) e para nós, que atravessamos a secura da paisagem desta terra de Novembro.

2. O coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas: assim se ouve ou se lê no famoso Shemaʽ Yisraʼel [= «Escuta, Israel], de Deuteronómio 6,4-5, que tivemos a graça de ouvir no Domingo passado. E nesse lugar se diz também a Israel que deve formar com essas palavras um fio de luz e de sentido que deve atar ao coração, às mãos, aos pés, aos filhos (Deuteronómio 6,6-9). Este fio é fundamental para segurar as pontas soltas dos podres, pobres fios da nossa vida.

3. Bem, neste contexto, o fio ou a linha poética e melódica do Salmo 146, que põe Deus tão perto de nós, a fazer justiça aos oprimidos, a dar pão aos que têm fome, a tomar a seu cuidado o órfão e a viúva, e a atirar-me todo para Deus, com aquele grito repetido: «Ó minha alma, louva o Senhor!». O Salmo 146 é uma espécie de carrilhão musical, e convida-nos a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua acção em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

4. Na verdade, «Deus habita nos louvores de Israel» (Salmo 22,4). Habita nos nossos louvores, na nossa dedicação e devotação total a Ele, na nossa vida posta em melodia, fio ou linha melódica que ata o nosso coração ao coração de Deus, a nossa mão à mão de Deus. Foi assim, sacerdotalmente, que Jesus Cristo se ofereceu totalmente ao Pai e a nós e por nós, deixando-nos à espera e a viver dessa espera na esperança da sua Vinda. Um fio tenso de luz e de sentido, a que se chama esperança, nos ata para sempre a esse Senhor-que-Vem. Fio ou linha musical, vital, de cada Domingo, em que cantamos: «Senhor, vem!» (marana tha’), porque sabemos que «o Senhor vem!» (maran ’atta’). O Dia de Domingo deve imprimir em nós o «tique» da esperança, deixando-nos com o pescoço esticado para Deus, situação de quem O espera e vive da sua Vinda a todo o momento. É a Lição de Hebreus 9,24-28.

5. O Evangelho deste Domingo XXXII do Tempo Comum, Marcos 12,38-44, põe em cena e em claro destaque uma viúva pobre que dá a Deus a sua vida toda, em contraponto com os escribas e muitos outros, que fazem bom teatro religioso (não é o caso do escriba do Domingo passado). Excelente inclusão literária no Evangelho de Marcos: da primeira vez que Jesus aparece a ensinar em público, neste Evangelho, o povo exclama: «Este ensina com autoridade, e não como os escribas!» (Marcos 1,22); a terminar a sua atividade pública neste Evangelho, é Jesus que mostra bem que não é como os escribas (Marcos 12,38-40). A cena central passa-se no átrio das mulheres do Templo de Jerusalém, num lugar chamado «Casa do Tesouro» (bêt ha-gazît) (Marcos 12,41-44). Muita gente deitava aí muito do que lhe sobrava, mas a viúva pobre deu «tudo quanto tinha, a sua vida toda!». Fio de sentido que liga este episódio ao que já encontrámos no Primeiro Livro dos Reis 17,10-16.

6. O Evangelho refere que a viúva é pobre. Duplamente desfavorecida, portanto. Enquanto viúva e enquanto pobre. Mas a tecla que soa mais forte, é que deu tudo, ainda que tenha dado pouco: duas pequenas moedas (leptà dýo), ou seja, um quadrante (kodrántês). O quadrante é uma coisa insignificante: é a sexagésima quarta parte de um denário! A pobre viúva recuperá-lo-ia rapidamente, mal se pusesse a pedir! O acento não está posto na quantidade, mas na totalidade. É bom que, observando bem esta cena exemplar, aprendamos a passar da mera ajuda para o dom de nós mesmos. Dom total. O discípulo de Jesus, à maneira de Jesus, deve pôr em jogo a própria vida, e não simplesmente os adereços. Tudo, e não apenas o supérfluo. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre. A marca deste dom é a totalidade e a definitividade.

7. Dar a vida toda ou entreter-se com os adereços, eis a verdadeira questão, meu irmão deste Domingo de novembro.

Um telemóvel com quatro anos é velho?

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Henrique Raposo, Expresso  9.Novembro.2018

Insisto nesta tecla: não entendo a forma como os média glorificam de manhã o capitalismo das Websummits e das Apple para depois criticarem à tarde as velhas indústrias; qualquer erro ou escândalo na indústria automóvel é amplificado enquanto crime ambiental. Ao mesmo tempo, encolhe-se os ombros ante a fraude intrínseca do mercado de telemóveis que leva o consumidor a comprar um aparelho novo a cada dois anos. Há maior crime ambiental do que a obsolescência programada que é a base do enriquecimento deste sector?

O meu telemóvel só tem quatro anos e as poucas aplicações que tenho já me dizem que não podem atualizar isto e aquilo; para descarregar a distinta aplicação da Web Summit, fui obrigado a apagar o Whatsapp. A mensagem é clara: compra um novo, compra um novo, compra um novo. O fetichismo da mercadoria, o comprar por comprar, nunca foi tão aberrante. Os média falam imenso da necessidade de não gastarmos os recursos do planeta, mas calam-se perante este fetichismo. São os próprios jornais que glorificam cada reencarnação do iPhone, por exemplo. É estranho. Um motor a diesel de um Volkswagen que dura uma década é o fim do mundo (e ainda bem), mas as baterias dos telemóveis já não são um problema. De onde vem o minérios da bateria? E para onde vai a bateria depois de o telemóvel cair em desuso um ano ou dois depois? Porque é que se criou esta ideia de que o novo capitalismo “geek” é mais verde do que o outro?

Além da poupança do planeta, fala-se muitas vezes da necessidade da poupança financeira das famílias. Mas como é que isso é possível num sistema em que um telemóvel de quatro anos é velho? Ou seja, a economia representada pela Web Summit torna impossível a poupança do planeta, por um lado, e poupança da nossa carteira, por outro. O fetichismo da mercadoria nunca foi tão perigoso, porque as pessoas assumem que trocar de telemóvel é um ato da natureza.

Zona de silêncio

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Gonçalo Cadilhe, Visão 31.10.2108

É talvez o mais surreal sinal de trânsito que alguma vez verás na tua vida. Um encapuçado de perfil com o dedo esticado à frente dos lábios. O encapuçado não representa um algoz ou um clandestino. A vestimenta que ele usa seria quase universalmente reconhecida como a de um religioso, de um despojado por livre-arbítrio, a roupa de um homem de Deus. O hábito do monge. O gesto que ele faz também seria quase universalmente reconhecido: o gesto a indicar silêncio.

A estrada estreita, escavada na montanha, a pique sobre o abismo, em curva e contracurva; e a vegetação cerrada e escura que não permite ver para lá da curva e da contracurva, transmitem a sugestão permanente de perigo na condução e o mais sensato seria avisar com umas boas buzinadelas a quem vier em sentido contrário que estou aqui. Mas o sinal de trânsito não o permite. “Zona de Silêncio.”

A estrada conduz a um parque de estacionamento ao lado de um edifício sóbrio e solene. Saindo do automóvel, percebes melhor a configuração da zona de silêncio. É um vale profundo e apertado, coberto de um manto denso de bosque impenetrável e para cima das colinas verdes, quando a inclinação já não permite mais árvores, erguem-se falésias brancas, verticais, majestosas, mas também intransponíveis. Ninguém vem parar por acaso a este vale, só uma determinação de ascetismo e isolamento conduziriam um ser humano aqui.

Ainda faz calor mas sente-se já na humidade da terra e na inclinação do sol que em breve chegará o tempo do frio. E frio, aqui, significa frio. Tal como o silêncio, aqui, já percebeste, significa silêncio. Entro no edifício. Neste, posso entrar: é o museu, aberto a turistas, do mosteiro da Grande Chartreuse. Mas no corpo central do complexo monástico, dois quilómetros mais para lá, por uma estrada semeada de sinais de trânsito “Zona de Silêncio”, não é permitida a entrada a nenhum de nós que chegamos da vida real, do mundo exterior, dos tempos modernos. É um dos poucos mosteiros de clausura que ainda resistem no planeta. Um testemunho anacrónico de uma opção existencial que até há bem poucas décadas era bastante comum no cristianismo. Imagina-te a tomares a decisão de te retirares para um mosteiro no meio dos Alpes, coberto por neves permanentes durante meses seguidos, dedicado a uma vida de oração, contemplação, trabalho manual e silêncio. Para sempre. Imagina-te a chegares a casa e anunciares aos teus pais, ou à tua mulher, ou aos teus amigos de copos e futebol: “Vou viver para um mosteiro de clausura. Adeus.” Não é um “até qualquer dia, até breve”. A clausura é para sempre.

O mosteiro foi fundado em 1084, dando início à Ordem dos Cartuxos que, nos séculos, se espalharia pelo mundo inteiro. Este mosteiro é, ainda hoje, a casa-mãe da ordem. No seu apogeu, só aqui na Grande Chartreuse terão vivido uns 200 monges. Hoje, a ordem toda, no mundo inteiro, conta com pouco mais de 300. No mosteiro, resistem 30 homens.

Subo pelo trilho que permite ver o complexo desde o alto, inserido no meio desta paisagem extraordinária, serena, agreste. Lá em baixo, imenso, arranjadinho, delicado como um kit para crianças, estende-se a Grande Chartreuse. Mas só vejo os telhados, o resto está encoberto, reparado de olhares indiscretos. Imagino claustros limpinhos, jardins geométricos, sebes aparadas, lenha cortada toda igual, celas luminosas mas isoladas. Lá em baixo, oração, trabalho manual, contemplação.

Regresso ao carro rodeado de um silêncio imóvel e infinito. Um corvo grasna no céu. O vento sibila entre as árvores, a água de um riacho gargareja. Um sino toca, algures. Sons que, aqui, fazem parte do silêncio.

O longo caminho para chegar a si

José Tolentino Mendonça, E, Expresso 29.setembro.2018

A palavra pessoa (persona), significa, na origem, máscara. E é através da máscara – isto é , da representação social, – que o indivíduo, pelo menos na construção ocidental que é a nossa, adquire um papel e uma identidade. Na Roma antiga, por exemplo, cada indivíduo era, tal como hoje, identificado por um nome que o ligava à sua gens, à sua génese, à sua estirpe. E esta estirpe, por sua vez, era representada plasticamente por uma máscara de cera do rosto do antepassado, que vinha fixada no átrio da casa das famílias patrícias. O que dava o nome, o que instituía o conjunto de membros de uma determinada família, era, assim aquela máscara. Ora, do termo persona ao termo personalidade, que refere o modo como cada indivíduo atua no intrincado do teatro social, com os seus ritos e práticas, vai um passo. A ideia de persona/máscara acabou rapidamente por englobar a capacidade jurídica e a dignidade politica do homem livre. Não de todos os homens, porque nem todos os homens eram considerados pessoa no mundo romano, mas apenas do homem livre. Considerava-se que o escravo, por exemplo, não possuía antepassados, a dita máscara, e por isso não era considerado pessoa. Dizia o direito romano: servus non habet personam. Na cultura contemporânea, o sentido de persona expandiu-se ainda para campos ulteriores referindo-se à dimensão moral, psicológica e estética. Tudo isto para recordar que, quando pensamos em nós, não pensamos imediatamente em nós e como seja preciso um longo caminho para chegar a si, para tocar a vida na sua nudez. Há aquela passagem do poema “Tabacaria”, da Álvaro de Campos, que funcionou como um grande retrato da experiência humana, e que diz a dado passo:

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdia-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
 
O jogo que os versos organizam traduz a realidade do sujeito, estrangeiro de si mesmo, perdido no labirinto fraturante das representações, incapaz de encarar ou de reencontrar a unidade do seu rosto. “Conheceram-me logo por quem eu não era e não desmenti, e perdi-me”… Por isso, precisamos tanto do auxílio da sabedoria, que deve ser buscada como um agricultor busca ferramentas para trabalhar a terra. A vida, no seu sentido profundo, também precisa de ser cultivada. E essa deve ser considerada a atividade primeira da nossa existência. O evangelho de Tomé, que possivelmente será o texto apócrifo mais próximo dos Evangelhos canónicos, conserva a memória seguinte. “Os discípulos perguntaram a Jesus: ‘Senhor, quando é que te manifestarás a nós a quando é que te veremos?’ Jesus responde, ‘quando estiverdes nus e não tiverdes vergonha disso’ (logíon 37). E penso também naquela história de Lanza del Vasto, ocorrida na sua primeira viagem à Índia. Ele conta que sentia, com um incómodo forte, que toda a gente pretendia alguma coisa dele. Cansado dessa perseguição, vai para um sítio distante e encontra uma lagoa. Finalmente pode estar em paz. Despe-se e mergulha naquelas águas. Quando sai, apercebe-se, com terror, que lha haviam roubado tudo, inclusive a roupa. Mas ele assegura no seu relato: “Foi quando me viram sem nada que a minha história na Índia começou, a minha história de hospitalidade e relação.” Não raro, só quando se consente na vulnerabilidade se começa verdadeiramente.

Periferia

Ser marginal. Não ser fora-da-lei por desprezo da norma comum. Por amoralidade, miserabilismo, ou abjeção. Ser apenas do lado da vida em que não passa muita gente, se é quase anónimo, fora do alvo que é visado pela notoriedade, curiosidade pública, grande reputação. Ser em humildade, na discrição de nós, na curta dimensão de nós. Não é por comodismo, orgulhosa modéstia, ressentimento. Não por nada disso ou outras coisas disso, mas só para nos não perdermos de nós, não nos esbanjarmos na invasão da dissipação alheia. Não por nada disso mas só pela economia do pouco que nos pertence e mal dá para abastecermos uma vida.

                                                                       Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, IV

A fé como risco

Luciano Manicardi, Viver uma fé adulta, Edições Paulinas

A fé é a grata rendição a Cristo, a resposta humana à humanidade divina de Jesus, o sim à vida vivida por Cristo, que também se torna forma da nossa vida; portanto, é um concreto criar espaço para Cristo na nossa existência, um fazer reinar o Espírito de Cristo nas relações e situações quotidianas. Tudo isto na convicção de que a existência de Cristo narra quem é Deus; que a vida de Cristo, vivida na obediência filial a Deus e na doação total aos irmãos até ao paradoxo do amor pelo inimigo, é o sentido último, humano e divino, do viver; e também convencidos de que a fé de Jesus, a que Ele próprio viveu em relação ao Pai, confiando-se a Ele como Abbá, mesmo nos momentos da cruz, quando continuou a confiar-se àquele que o abandonava, é a referência normativa do nosso crer, o seu paradigma.

Aqui percebemos uma aspecto importante da fé cristã: ela consiste num momento de progressiva (e sempre parcial) assimilação do sujeito crente ao sujeito crido (Jesus Cristo): a fé tem em si uma dinâmica pascal, é um ato de morte e ressurreição. A fé atualiza em nós a morte e a ressurreição e de Cristo. Deste ponto de vista, a fé é risco mortal e possibilidade impensada de vida. Risco mortal porque eu ponho a subsistência do meu ser e do meu viver (“Se não acreditardes, não subsistireis”: Is 7, 9) em que não vejo e de quem os outros deram testemunho (a fé revela aqui a sua dimensão eclesial-comunitária intrínseca); é risco porque este movimento exige a minha saída de mim mesmo e a perda de relevância do meu eu e das suas pretensões para viver no espaço do amor gratuito e preveniente de Deus. E talvez o grande risco da fé seja crer no amor. “Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele” (1Jo 4, 16), amor que Deus manifestou na vida, morte e ressurreição de Cristo.

Na sua raíz, a fé cristã é sempre crer no amor de Deus por nós. Portanto, o amor de Deus narrado por Cristo (Rm 5, 6-10), fundamento da nossa confiança e da nossa fidelidade, é , também e simultaneamente, fonte e objeto da nossa fé. É verdade que crer no amor de Deus é um risco, porque aqui o crente tem de enfrentar o enigma, a não evidência desse amor e, às vezes, também da confiança ou da fiabilidade daquele em quem põe a sua fé; mas, aqui, é também o germe da fé como possibilidade não pensada e não crível de vida, de renovação da vida. Nos momentos em que tudo vacila, a fé simplificada, a fé nua, a fé que crê contra toda a evidência, a fé que habita os infernos, torna-se o lugar da esperança.

Na sociedade atual que multiplica os sistemas de segurança e de previdência, que elabora métodos de precisão e de proteção para esconjurar as incertezas e os riscos do futuro, a fé comporta a dimensão do risco. Não é que a fé não conheça a dimensão da certeza, mas a certeza da fé é de uma ordem diferente da certeza do tipo racional. Pascal escreve: “Se não se devesse fazer nada, excepto por aquilo que está certo, não se deveria fazer nada pela religião, porque ela não é certa” (isto é , não está no mesmo comprimento de onda da certeza comum). O saber próprio da fé é o saber da confiança. Se o risco próprio da fé é inerente a este saber e a esta linguagem de confiança, então também parece inerente à fé e, por assim dizer, à sua própria prova. Assim, crer torna-se também um desafio que, hoje, o homem vive quotidianamente, num contexto que requer demonstrações e evidências e, como dizíamos, procura seguranças e quer evitar a incerteza.

Viver uma fé adulta, itinerário para um cristianismo credível, Edições Paulinas,

Luciano Manicardi é prior da comunidade monástica de Bose

Ser cristão!

Maria Clara Bingemer, Viver como crentes no mundo de mudança, Paulinas Editora

A fé cristã, hoje, já não acontece em contexto  homogeneamente cristão. Assim, supõe um novo sujeito dotado de uma nova consciência religiosa, que é importante assimilar e integrar ao conjunto do tecido eclesial. Já não seria mais nem a tradição, nem a herança, nem a continuidade de uma cultura banhada de cristianismo que determinaria o que é ser cristão. Trata-se mais de uma opção livre e que deve configurar-se na contramão de uma cultura que nem sempre entenderá os seus gestos e símbolos. No fundo, tratar-se-ia de dar de novo ao amor a primordialidade da cidadania dentro da comunidade que pretende e se dispõe a viver o facto cristão.

A fé cristã foi, desde os seus começos, uma fé no testemunho de outros. Os discípulos acreditaram em Jesus, no qual reconheceram e ao qual proclamaram Testemunha Fiel. As mulheres acreditaram que o túmulo não era o lugar daquele que estava vivo. Os Apóstolos, depois de certa relutância, acreditaram nas mulheres. E assim começou o caminho dessa proposta de vida que foi conquistando o mundo conhecido de então, assente apenas na palavra de alguns frágeis seres humanos que diziam: “Isto é verdade porque eu vi, eu experimentei. Dou testemunho e sou capaz de morrer por isso.”

A fé cristã, desde o início, é, portanto, uma fé de testemunhas, e não tanto de textos. Torna-se cada vez mais verdadeira e verificável a afirmação de que há que fazer uma teologia não de textos, mas de testemunhas. Fazendo apelo aos testemunhos de homens e mulheres que foram alcançados por Deus ao longo da história, torna-se mais evidente a diferença entre fé e religião, fé e instituição. Mais claro ainda, o que constitui a identidade mais profunda dos homens e mulheres de fé que somos chamados a ser e a ajudar outros a serem nesta difusa contemporaneidade em que vivemos. São esses e essas que nos mostram que a fé cristã ainda tem um papel a desempenhar hoje, desde que não perca a sua identidade no meio dos tempos nebulosos que vivemos.

Ser cristão hoje implica ter uma esperança estranha que se revela justamente quando parece que não há futuro e uma liberdade que culmina na doação da vida. O cristão ama tanto a vida – porque se encontrou em profundidade com Aquele que diz que é o caminho, a verdade e a vida – que está disposto a morrer por aquilo em que acredita. E é esta confiança corajosa e alegre que dá sentido ao seu testemunho.

O incrível do Cristianismo encontra-se na proximidade inédita entre Deus e o homem. Portanto, leva a humanidade a uma nova relação consigo mesma, que tem como imagem a comunidade ecuménica de Jesus Cristo.

Ser cristão hoje é viver e proclamar os valores constitutivos da proposta de Jesus, que são:

  • numa sociedade e cultura onde se espera que se odeiem os inimigos, o Cristianismo propõe o amor incondicional, mesmo aos inimigos. Ser cristão é experimentar que se é amado incondicionalmente, independentemente de méritos ou vitórias;
  • numa sociedade onde se responde ao mal com o mal e se busca a vingança, o Cristianismo propõe o perdão, a persistência no mesmo dom, quando não há razões para tal;
  • numa sociedade desigual e injusta, opressora, o Cristianismo propõe uma igualdade radical entre todos. Todos têm a mesma dignidade e merecem o mesmo respeito;
  • numa sociedade que glorifica o poder, o sucesso, o êxito, o Cristianismo propõe a humildade e o serviço como atitudes primordiais e necessárias;
  • numa sociedade onde as leis são simétricas e, portanto, muitas vezes desumanas, o Cristianismo propõe uma justiça que se transcende a si mesma e se torna caridade. Uma justiça não retributiva, mas restaurativa, que não dá ao outro o que merece, mas o que necessita;
  • numa sociedade onde todos buscam o melhor para si, ainda que devendo passar sobre os demais, o Cristianismo propõe a generosidade da partilha e da solidariedade sem limites, que está disposta mesmo a sofrer e a morrer pelos outros.

Tudo isto supõe uma fé em Deus que é mistério, que não é um Ser Supremo ou Substância Suprema, mas sim Espírito de criatividade neste universo. Um Deus em quem, por isso, a fé nunca é permanente e definitiva, mas continuamente procurada. Ser cristão é ser um buscador. Um cristão é um sujeito. Enquanto tal, está em constante crescimento e transformação, em processo permanente de chegar a ser. Portanto, como diz Felix Wilfred, “o “cristão” é um projeto e, obviamente, um projeto inacabado”. Ou ainda Karl Rahner: “Creio que ser cristão é a tarefa mais singela, mais simples e, ao mesmo tempo, aquele pesado jugo leve de que fala o Evangelho. Quando se carrega esse jugo, ele carrega-nos a nós mesmos e, quanto mais tempo vivamos, tanto mais pesado e mais leve chegará a ser. No final, só fica o mistério. Mas é o mistério de Jesus”.

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

Quem não arde não vive

cardeal Gianfranco Ravasi, Avvenire

«Diante do crucifixo de uma igreja/ uma vela acesa derrete-se do amor e da fé./ Dá toda a luz, todo o calor que possui,/ sem pensar se o fogo a extingue e reduz a pouco e pouco./ Quem não arde, não vive./ Como é bela a chama de um amor que consome,/ contanto que a fé permaneça sempre assim!/ Eu olho e penso. Treme a chama, a cera cola e o pavio fumega.»

Talvez lá fora se ouça o rumor de uma cidade do litoral repleta de veraneantes, ou se aprecie o plácido silêncio da montanha, ou as ruas desertas e sobreaquecidas de uma grande cidade. Abres a porta de uma igreja e eis, na penumbra, o tremeluzir das velas votivas. Avanças e nesse oásis de quietude sentas-te diante desse lume. É este o quadro que o poeta Trilussa delineia num dos seus não raros poemas religiosos ou espirituais. Sabiamente ele entretece amor e fé, que se fundem na cera daquela candeia que lentamente se derrete. E formula esse princípio basilar da vida autêntica, não só espiritual: «Quem não arde, não vive». Para se ser luz e calor, é preciso consumir-se. Se, ao contrário, preferes conservar-te, talvez te mantenhas longamente, talvez consigas acumular um belo pé-de-meia de coisas e de dinheiro, mas tornas-te uma pedra fria, uma vela extinta, uma semente murcha. A lei evangélica do perder para encontrar, do dar para ser feliz, da morte pela vida é difícil de abraçar, e todavia é o único caminho que permite, inclusive a nós, ter uma vida transfigurada. Como a de Cristo na Transfiguração, esplêndido na sua luz que rasga o gelo e a treva.

tradução de Rui Jorge Martins, Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura