Uma espiritualidade do provisório

José Tolentino Mendonça, O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal Editores

Muitas vezes parecemos estar suspensos, à espera de um sinal espetacular qualquer para tomar uma decisão de vida sempre adiada. E queixamo-nos de falta de meios para levar a cabo essa transformação que vemos como necessária. Contudo, as verdadeiras transformações inventam os meios próprios para se expressarem, e estes, regra geral, começam por ser espantosamente modestos. Idealizamos de tal maneira o que pode ser a vida que ela arrisca-se a perder o jogo por falta de comparência, sequestrada num plano cada vez mais mental e abstrato. Ora, se não estamos dispostos a aprender com a sabedoria dos pequenos passos e com a dinâmica do provisório, dificilmente alcançaremos o que buscamos.

A história de Taizé é um bom exemplo: uma minúscula povoação que fica a 390 quilómetros a sudeste de Paris, sem nada de especial que a recomende, veio a tornar-se um dos pulmões espirituais da Europa. Em 1940, era apenas uma zona de demarcação entre a França ocupada pelas tropas alemãs e a França livre. Precisamente nesse ano, desembarcava naqueles nenhures um jovem teólogo suíço, Roger Schütz, transportado por uma pergunta, que não o largava: qual seria a sua missão, a que devia ele consagrar a sua vida? Um elemento curioso – e que se liga à espiritualidade do provisório, que escolherá como caminho – é que a primeira vez que ele chegou a Taizé, fê-lo de bicicleta (e pedalar desde Genebra). Poderia ser só um passeio ou uma fuga improvisada. Taizé era uma espécie de ponto zero, uma estação de passagem. mas ele entendeu esse nada como uma oportunidade para reparar as suas feridas e as da humanidade. E decidiu que ficaria ali.

O primeiro a servir

Mateus 20, 20–28

Aproximou-se então de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu, com os seus filhos, e prostrou-se diante dele para lhe fazer um pedido. «Que queres?» – perguntou-lhe Ele. Ela respondeu: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino.» Jesus retorquiu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?» Eles responderam: «Podemos.» Jesus replicou-lhes: «Na verdade, bebereis o meu cálice; mas, o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado.» Ouvindo isto, os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.

De acordo com esta passagem, o espírito de competição, o desejo de ser o primeiro e o melhor, não é um fenómeno dos tempos modernos. Será que existe algo no ser humano que busca as honras, que quer ocupar o primeiro lugar? Aqui, é mãe de Tiago e de João que procura um privilégio para os seus filhos, mas é uma velha astúcia: é mais fácil pedir para os outros e, depois, usufruir da sua glória. Jesus não se deixa iludir: dirige-se diretamente aos dois filhos.

A nossa sociedade ocidental foi muito longe nesta direcção. Uma economia capitalista e fundada no espírito da competição. Ensinam-nos, desde muito novos, que devemos ser melhores do que os outros. Um sistema assim produz, forçosamente, vencedores e vencidos e, se não for controlado, teremos, com o tempo, cada vez menos vencedores e cada vez mais vencidos.

Se uma competição saudável pode libertar as energias de cada um e revelar os seus talentos, a mesma conduz inevitavelmente a uma divisão e, até, à violência. Neste relato, vemos que os outros discípulos ficam muito indignados com Tiago e João. A comunidade arrisca implodir.

Jesus mostra-lhes, então, outra forma de viver. Expulsa todos os pensamentos de honras e recompensas. Pergunta aos discípulos se podem beber do mesmo cálice que ele. No mundo antigo, o cálice era símbolo do destino. Aplicado a Jesus, não se refere a um destino cego, mas à missão que o seu Pai lhe confiou: dar a sua vida para que outros possam viver.

De seguida, Jesus aplica este ensinamento à vida política, o que significa que o grupo dos discípulos não constitui apenas uma comunidade, mas que, para Jesus, esta comunidade – Israel restaurada – é uma alternativa às relações políticas do mundo pagão. Ali, onde os dirigentes gostam de exercer o seu poder sobre os outros. Entre os discípulos, pelo contrário, os maiores e os primeiros são, de facto, os últimos – os que servem.

Com esta reviravolta, Jesus liberta o nosso desejo de ser o melhor e o primeiro, colocando-o não ao serviço dos nossos egos, mas ao serviço dos outros. Procurar ser os primeiros a ajudar os outros, a servi-los: eis uma competição saudável. Como diz Paulo: «Considerai os outros superiores a vós próprios, não tendo cada um em mira os próprios interesses, mas todos e cada um exactamente os interesses dos outros» (Filipenses 2,3-4) e «Adiantai-vos uns aos outros na estima mútua» (Romanos 12,10). Um tal espírito de humildade e de partilha torna possível uma verdadeira vida comunitária.

Isso é apenas possível se a a nossa imagem de Deus se transformar. Jesus revela-nos um Deus que não encontra a sua glória no facto de ser o primeiro ou o maior, que não encara a sua divindade como um privilégio, mas que se rebaixa por amor, ficando no último lugar a fim de que os outros possam subir.

  • Qual é a finalidade dos meus estudos ou do meu trabalho?
  • Como colocar os meus dons ao serviço dos outros?
  • Que passos seriam necessários para transformar as nossas Igrejas e a nossas sociedades em verdadeiras comunidades de partilha?
Textos bíblicos com comentário, Taizé, junho

Viver no campo

Um estudo das universidades canadianas de British Columbia e McGill estudou 1,215 comunidades do país e descobriu que há vantagens em fugir das grandes cidades, onde os salários são mais elevados e a educação é melhor, mas as taxas de desemprego também são maiores. As comunidades 20% menos felizes mostraram ter uma densidade oito vezes maior que as mais felizes.

Estas conclusões, segundo os investigadores, justificam-se pela grande importância de viver numa comunidade forte onde não haja tanto isolamento social.

Os 400 mil inquiridos foram questionados em relação à satisfação de vida numa escala de 1 a 10 e, de seguida, responderam a várias perguntas para melhor explorar o tema. Os canadianos até parecem ser pessoas bastante felizes, com a maioria das respostas a fazer parte do intervalo de 7.04 a 8.94. Só 5% respondeu menos de 5.

Os investigadores tentaram assim perceber que características estão relacionadas com esta felicidade e chegaram à conclusão de que o ponto mais importante era a densidade populacional, o que pode parecer estranho, uma vez que é maior a probabilidade de nos relacionarmos com as pessoas nas grandes cidades.

As áreas rurais têm vários fatores que aumentam felicidade. Um deles é o preço das casas. As comunidades mais pequenas gastam menos 30% em renda. Em relação ao tempo de lazer, é menor nas grandes cidades, muito devido ao facto de existirem mais engarrafamentos e de se perder muito tempo em deslocações, o que mostra que as zonas rurais têm mais tempo livre. O último fator é a sensação de pertença a algum sítio. É mais normal os habitantes urbanos mudarem de casa, não deixando que criem tantos laços com a comunidade que os rodeia.

Uma investigação da Faculdade de Medicina da Universidade de Standford já tinha chegado à conclusão que a ideia chave para o bem estar em sociedade é ter uma rede forte de interações sociais e não fatores relacionados com a economia. Apesar de muita gente se mudar para as grandes cidades por aumentos no salário, isso não as torna mais felizes.

No entanto, as conclusões do estudo canadiano não defendem especificamente que se formos viver para o campo, vamos ser mais felizes – apenas explicam que há uma relação entre as zonas rurais e maiores níveis de felicidade.

artigo da revista Visão de 22.maio.2018

Dormir

Na véspera do início do Lisbon Sleep Summit, que decorre até dia 19, a diretora do CENC – Centro de Medicina do Sono, uma das responsáveis pela iniciativa, fala com o Expresso sobre a importância que dormir tem nas nossas vidas. E deixa um alerta: dormir pouco reduz a esperança de vida

entrevista Nelson Marques, Expresso Diário, 15.maio.2018

Em Portugal, dorme-se pouco e dorme-se mal. Múltiplos estudos mostram que a média nos adultos anda abaixo das 7 a 9 horas recomendadas e, segundo um inquérito recente da Deco, ter noites bem dormidas é algo de que só quatro em cada 10 portugueses se pode gabar. É um panorama “assustador”, garante a neurologista Teresa Paiva, 72 anos, a maior especialista nacional em sono e uma das organizadoras do Lisbon Sleep Summit, que decorre entre esta quarta-feira e sábado. Se queremos um bom exemplo do que a privação de sono pode fazer a uma pessoa, só temos de olhar para Trump, diz-nos.

Porque é que dormir é importante?

Em primeiro lugar, dormimos fundamentalmente para sobreviver. Depois, durante o sono há um reequilíbrio das nossas funções metabólicas, do nosso crescimento, do nosso equilíbrio autoimune, dos nossos tecidos, de todas as outras funções, incluindo as funções cognitivas e emocionais. Portanto, se não dormirmos, o nosso cérebro funciona pior, as emoções ficam mais desreguladas e corpo fica em piores condições.

De quantas horas de sono precisamos?

Um adulto precisa de dormir sete a nove horas, são as recomendações da Fundação Americana do Sono. Uma criança precisa de muito mais: 8 a 12 horas no caso de uma criança de 10 anos, 7 a 10 para um adolescente.

Os estudos mostram que estamos longe dessas médias. Dormimos menos e dormimos pior. Quais são as principais ameaças a uma noite bem dormida?

A luz elétrica e os gadgets tecnológicos. Além disso, mudámos muito os paradigmas de vida e começamos a achar – isto começa claramente no século XX – que podíamos controlar tudo. Se a pessoa não dorme, há um substituto. Se tem um problema do coração, toma um remédio. Tornámo-nos pequenos deuses a querer controlar tudo. Veja-se o exemplo das alterações climáticas. Mudámos algumas características da Terra e ela ficou mais perigosa para nós. Acontece exatamente o mesmo quando afetamos os equilíbrios do nosso corpo. Torna-se mais perigoso para a nossa sobrevivência e para a nossa saúde. O que se passa no planeta é o que se passa connosco se não dormirmos bem. Arranjamos tempestades.

Quais são as principais consequências que a privação do sono pode ter?

Tem consequências muito negativas sobre alguns aspetos que são nucleares: aumento da tensão arterial, diabetes, aumento do peso, da depressão, da insónia, isto considerando só as consequências mais leves. Quando consideramos o aumento do risco cerebrovascular, isto é, de ter um enfarte ou um AVC, já tem menos graça. E quando consideramos o aumento do risco de cancro ou de demência, então não tem graça nenhuma mesmo.

Dormir pouco pode matar-nos?

Bom, vamos lá ver, quando se diz estas coisas é preciso dizê-las em contexto. Não se pode pô-las dessa forma senão daqui a uns tempos tenho pessoas que vêm ter comigo porque não dormiram uma noite e têm medo de morrer. Todos nós podemos passar uma noite sem dormir, ou duas, ou três. Agora, dormir cronicamente menos do que aquilo que se precisa aumenta o risco [de doença] e reduz a esperança de vida. Com todos os avanços que a farmacologia foi tendo, a verdade é que o tipo de sono induzido pelos medicamentos não é comparável ao sono natural.

Por muito que se diga [o contrário] não é. Além disso, os remédios atuais, para além de criarem habituação, têm efeitos negativos sobre a memória e sobre a esperança de vida, nomeadamente os hipnóticos e os ansiolíticos antigos. Temos de ter muito cuidado. Não estou a dizer que não se usem, em alguns casos são muito importantes. Mas o tratamento não pode ser feito só com medicamentos, uma insónia é multifatorial, tem várias origens. Enquanto não olharmos para as causas todas de cada pessoa não conseguimos tratar ninguém. Se não olharmos para o stress do quotidiano que uma pessoa tem, não se consegue nunca tratar a sua insónia. O tratamento passa sempre por uma mudança de atitude em relação ao sono e em relação à vida. Por exemplo, quanto mais preocupada uma pessoa está com o seu sono menos dorme. Levar a que deixe de se preocupar tanto é uma parte nuclear do tratamento. O sono está muito bem organizado, é uma coisa extraordinária. Ele funciona por si, não gosta que lhe digam que está na hora de dormir.

Vivemos na ilusão de que controlamos o sono?

Muita gente gostaria de ter um botão, mas os interruptores do sono são muito complexos, não somos nós que os acionamos. O sono é mais inteligente do que nós e tem funções essenciais para a criatividade, para resolver problemas, para ter capacidade de ter um raciocínio abstrato… Veja o caso do Trump, que diz que dorme pouco. Repare que ele tem um discurso extraordinariamente monótono, repete muitas palavras, diz sempre as mesmas coisas, tem sempre os mesmos gestos, a mesma impressão, é intempestivo, diz coisas inconvenientes, tem problemas morais complexos que também são afetados pelo sono. Ele é um exemplo claro de uma pessoa privada de sono.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também é conhecido por dormir pouco.

Mas o nosso Presidente é uma pessoa especial. Quantos Jesus Cristo houve? Quantos Budas? Quantos Papas houve como o Papa Francisco? Há pessoas que são especiais, que saem da norma. Mas o Einstein dormia muito, o Darwin dormia muito, há muita gente muito inteligente que dormia muito.

Thomas Edison achava que dormir era um desperdício de tempo. E quando inventou a lâmpada incandescente, mudou o sono para sempre.

A ele devemos muitas das catástrofes [do sono] que temos. Tudo isto resulta da descoberta da lâmpada, as velas não faziam tão mal.

Que conselhos pode dar às pessoas que querem dormirem melhor? 

Para já, devem ter horários mais ou menos certos. Depois, têm de apanhar luz na parte inicial da manhã, têm de fazer atividade física durante o dia, nunca à noite, têm de comer refeições regulares e nunca muito à noite, e têm de relativizar muita coisa na sua vida, não levar os problemas para a cama. Isto é essencial, porque muitas pessoas não dormem por problemas de lana caprina. O Raul Solnado dizia uma coisa fantástica: façam o favor de ser felizes! É algo que me surge muito à cabeça.

E os telemóveis, são para deixar fora do quarto? 

São. Não devemos estar a olhar para o telemóvel ou para o computador até à hora de dormir e não devemos apanhar muita luz à noite, porque a iluminação prejudica a produção de melatonina e vai impedir o sono.