Como é que é verdade aquilo que confesso ser verdade?

frei Bento Domingues OP, Público 29 Abril 2018

A impertinência da evangelização

1. Encontrei em várias intervenções de Thierry-Dominique Humbrecht (1) e no título de um dos seus livros, A Evangelização Impertinente, a sugestão para esta crónica, ainda que com desvios. O autor referido pretende escrever um guia do cristão nos países pós-modernos. Teve bom acolhimento. Não se conforma com a moleza das expressões da presença cristã em algumas sociedades ocidentais. Não é preciso estar inteiramente de acordo com o seu diagnóstico nem com as suas propostas. É mais importante suscitar um debate do que apresentar soluções para cristãos apressados e preguiçosos.

Th.-D. Humbrecht é um investigador da filosofia medieval e já deu provas da sua acutilância analítica. Não se resigna, porém, a viver na sua torre de marfim do passado, nem se conforma com o silêncio dos católicos nos actuais debates que percorrem a sociedade. O cristão parece intimidado, excluído da cultura, dando a impressão de que não se deixa interrogar pela gravidade do que está a acontecer. Ao julgar irremediável que o país deixe de ser cristão, não se percebe que existe uma estratégia, dita pós-moderna, interessada em libertar-se dessa herança. O niilismo exibido esconde, no entanto, um projecto de poder, por vezes, também, uma nostalgia.

Tendo em conta esse ambiente, que abrange uma grande complexidade, como é que um cristão se pode situar entre a compaixão, a cumplicidade e a contracultura? Perante os cortes na transmissão do que há vivo no passado, o abandono de muitas heranças, a ditadura do relativismo e certo ateísmo católico, muitos cristãos têm a impressão de que o grande navio se tornou numa simples barcarola.

De facto, o próprio cristão cede muitas vezes a essa lógica: escolho o que me apetece e deixo de lado o que não me interessa. Nestas condições, como fazer ouvir o Evangelho? Pela palavra ou pelo exemplo? E onde: na família, na educação, na política na cultura? Entre a laicidade mal compreendida e os vãos apelos ao milagre, o caminho da providência é o que se baseia na nossa coragem pública. O cristão tem algo de insubstituível a dizer aos seus contemporâneos. Não há Igreja sem evangelizadores impertinentes, que ofereçam uma mensagem de esperança para os tempos de relativismo. Para o conseguir é preciso desembaraçar-se de um paradoxal anti-intelectualismo. O cristão deve, pelo contrário, cuidar da sua formação e tornar-se competente sob o ponto de vista intelectual. Por isso, os jovens cristãos devem preferir profissões criativas, em todas as suas expressões, àquelas que acenam apenas com sucesso pessoal no campo financeiro. O filósofo dominicano Th.-D. Humbrecht, professor de várias universidades, inconformado com a incultura do vale tudo e o seu contrário, luta por uma viragem cultural, por um catolicismo competente no campo literário, artístico, filosófico, teológico, espiritual, ético e político.

2. Agrada-me esta vontade de acabar com um catolicismo culturalmente envergonhado e complexado. Detesto, porém, todas as derivas de compensação que vão desaguar no catolicismo fundamentalista, em nome da verdadeira doutrina da Igreja e se esgota na falsa tranquilidade dos catecismo e do Direito Canónico. A fé cristã não se fixa nas formulações dos credos. É uma entrega ao infinito amor de Deus que nenhuma expressão O pode limitar. O místico é aquele que não pode parar. É uma viagem permanente, se apeadeiros, sem estações definitivas, até chegar à plenitude da alegria de Deus.

A fé é um activador da criatividade, não um extintor. Tomás de Aquino insistiu em que uma coisa é recitar os credos da ortodoxia, outra é procurar entender Aquele a quem confiamos. Recitar o Credo sem procurar responder à questão: como é que é verdade aquilo que confesso ser verdade?, posso ser muito ortodoxo mas sou uma cabeça vazia. Também não basta ler os textos e as narrativas do Novo Testamento. A letra mata, só o espírito do texto vivifica. Quando um padre ou um bispo faz uma homilia a repetir a leitura que já escutámos, bem podia ficar calado. É fundamental entrosar as narrativas bíblicas com as experiências actuais da fé, na encruzilhada dos problemas vividos na sociedade.

O Concílio Vaticano II, tão esquecido, lembrou que “é dever da Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração às eternas perguntas dos seres humanos acerca do sentido da vida presente e futura e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, o seu carácter dramática” (2)

A criatividade da fé cristã não se pode manifestar, apenas, nas expressões teológicas e na poesia mística. Pertence-lhe activar e exprimir-se em todas as grandes formas de criatividade humana: literatura, artes plásticas, encenações teatrais cinema, bailado, humor e, sobretudo, música. Dentro e fora da liturgia. Não é preciso nenhum mandamento divino para justificar esta atitude. Como dizia Tomás de Aquino, o bem deve ser praticado porque é bem e o mal devia ser evitado porque é mal.

Não podemos esquecer a impertinência do Evangelho de Jesus Cristo. Se tivesse sido mais acomodado podia ter tido uma carreira brilhante. O diabo do poder de dominação económica, política e religiosa bem o tentou e o Nazareno não tinha o fascínio de João Baptista pela austeridade. Ele gostava da vida. Tinha o defeito de não suportar ver uns à mesa e outros à porta; uns como povo de Deus e outros não se sabe de quem; uns classificados, à partida, como santos e outros como pecadores; uns privilegiados porque eram homens e outras marginalizadas porque eram mulheres. Tinha a impertinência de gostar da vida para todos, desenvolvendo as potencialidade humanas e os talentos, sem discutir se estavam bem ou mal distribuídos. Tinha ainda um outro defeito: destestava a ganância e o carreirismo. Os discípulos que escolheu andavam sempre a perguntar-lhe o que ganhavam na sua companhia e o lugar que lhes estava destinado. Um dia teve de pôr tudo em pratos limpos, mas sem grande sucesso. O Evangelho de Mateus (3), fruto de muita reflexão e de muita experiência pós-pascal, quis deixar, em três parábolas, algo de extraordinário: a importância da lucidez contra o deixar correr, a importância de ninguém se desculpar por não ser um génio, mas não há nenhuma ciência nem nenhuma capacidade de fazer fortuna que não tenha de olhar para o lado e ver os que ninguém cuida.

(1) Thierry-Dominique Humbrecht, O.P., L'évangélisation impertinente. Guide du chrétien au pays des portmodernes, Paris, Paroles et Silence, 2012 (3e édition)

(2) Gaudium et Spes, 4

(3) Mt 25

Esperar

José Tolentino Mendonça, O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal Editores

Esperar não é uma perda de tempo

Damos por nós hipermodernos, polivalentes, aparelhados de tecnologia como uma central ambulante, multifuncionais mas sempre mais dependentes, perfeccionistas mas sempre insatisfeitos, vivendo as coisas sem poder refletir sobre elas, próximos da atividade extenuante e, no fundo, distantes da criação. Não temos tempo a perder. E, contudo, precisaríamos talvez de dizer a nós próprios, e uns aos outros, que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o tempo necessário para ser; é tomar o tempo para si, como lugar de maturação, como história reencontrada; é perceber o tempo não apenas como enquadramento, mas como formulação em si mesma significativa.

Quem não aceitar, por exemplo, a impossibilidade de satisfação imediata de um desejo dificilmente saberá o que é um desejo (ou, pelo menos, o que é um grande desejo). Quem não esperar pelas sementes que lançar jamais provará a alegria de vê-las acenderem-se sobre a terra como milagre que nos resgata.

Não está aqui. Ressuscitou!

da Homilía do Papa Francisco na Vigília Pascal

(…) «Não está aqui, pois ressuscitou» (Mt 28, 6). A pedra do sepulcro gritou e, com o seu grito, anunciou a todos um novo caminho. Foi a criação a primeira a fazer ecoar o triunfo da Vida sobre todas as realidades que procuraram silenciar e amordaçar a alegria do evangelho. Foi a pedra do sepulcro a primeira a saltar e, à sua maneira, a entoar um cântico de louvor e entusiasmo, de júbilo e esperança no qual todos somos convidados a participar.

«Não tenhais medo! (…) Ressuscitou» (Mt 28, 5-6). Palavras que querem alcançar as nossas convicções e certezas mais profundas, as nossas maneiras de julgar e enfrentar os acontecimentos diários; especialmente o nosso modo de nos relacionarmos com os outros. O túmulo vazio quer desafiar, mover, interpelar, mas sobretudo quer encorajar-nos a crer e confiar que Deus «Se faz presente» em qualquer situação, em qualquer pessoa, e que a sua luz pode chegar até aos ângulos mais imprevisíveis e fechados da existência.

Ressuscitou da morte, ressuscitou do lugar donde ninguém esperava nada e espera-nos – como esperava as mulheres – para nos tornar participantes da sua obra de salvação. Esta é a base e a força que temos, como cristãos, para gastar a nossa vida e o nosso ardor, inteligência, afetos e vontade na busca e, especialmente, na criação de caminhos de dignidade. «Não está aqui… Ressuscitou!» (28, 6). É o anúncio que sustenta a nossa esperança e a transforma em gestos concretos de caridade. Como precisamos de deixar que a nossa fragilidade seja ungida por esta experiência! Como precisamos que a nossa fé seja renovada, que os nossos horizontes míopes sejam questionados e renovados por este anúncio! Jesus ressuscitou e, com Ele, ressurge a nossa esperança criativa para enfrentar os problemas atuais, porque sabemos que não estamos sozinhos.

Celebrar a Páscoa significa voltar a crer que Deus irrompe sem cessar nas nossas vicissitudes, desafiando os nossos determinismos uniformizadores e paralisantes. Celebrar a Páscoa significa deixar que Jesus vença aquela atitude pusilânime que tantas vezes nos cerca procurando sepultar qualquer tipo de esperança.

A pedra do sepulcro desempenhou o seu papel, as mulheres fizeram a sua parte, agora o convite é dirigido mais uma vez a ti e a mim: convite a quebrar os hábitos rotineiros, renovar a nossa vida, as nossas escolhas e a nossa existência; convite que nos é dirigido na situação em que nos encontramos, naquilo que fazemos e somos; com a «quota de poder» que temos. Queremos participar neste anúncio de vida ou ficaremos mudos perante os acontecimentos?

Não está aqui, ressuscitou! E espera por ti na Galileia, convida-te a voltar ao tempo e lugar do primeiro amor, para te dizer: «Não tenhas medo, segue-Me».

Dia da Mulher

As mil manipulações de Maria Madalena, in L’Osservatore Romano, 8.3.2018

Historiadora que há décadas estuda a realidade feminina em relação com a tradição cristã, e diretora de “donne chiesa mondo”, o suplemento mensal do jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, de que é editora e consultora, Lucetta Scaraffia explica em entrevista à edição mais recente de “Le Monde de la Bible” como ao longo dos séculos a Igreja eliminou pouco a pouco o papel de apóstola de Maria Madalena, sobrepondo-lhe o rosto de pecadora arrependida.

Maria Madalena é mais a pecadora ou a apóstola?

Gostava de começar com uma recordação pessoal. Quando era jovem, em Milão, depois do Maio de 1968, muitas mulheres nos ambientes feministas italianos chamavam as suas filhas de Madalena. Para elas era claramente em antítese de Maria: tratava-se de contrapor à figura da mulher obediente a da dona livre e pecadora. Foi então que comecei a interessar-me por Maria Madalena, que penso ter sido uma das figuras mais manipuladas da história. Da parte quer da Igreja quer das feministas, entre outros.

Porquê este olhar dúplice sobre Maria Madalena?

Maria Madalena é uma figura forte desde os inícios do cristianismo. Mas, numa sociedade patriarcal, que Jesus ressuscitado tenha aparecido em primeiro lugar a uma mulher, confiando-lhe a missão de anunciar aos apóstolos a sua ressurreição – a mais alta missão possível! –, foi um problema para os homens do seu tempo.

Isto traduziu-se de várias formas. Por exemplo, no gnosticismo, a primeira heresia cristã, que tinha grande interesse por Madalena: os gnósticos pensavam que Cristo tinha transmitido um ensinamento secreto, recolhido na “Pìstis sophìa”. Madalena aparece como uma apóstola de pleno direito, que chega a opor-se a Pedro, ao ponto de o vencer depois de se ter tornado num homem, ou melhor, uma espécie de ser andrógino.

Com Maria Madalena coloca-se a pergunta sobre a sexualidade de Jesus, verdadeiro filão de toda uma série de autores que apreciam o escândalo, a começar por Dan Brown…

Se Jesus tivesse tido relações sexuais com mulheres ter-se-ia sabido! Nos Evangelhos ouvem-se as críticas dos fariseus porque comia e bebia juntamente com publicanos e pecadores (cf. Mateus 9, 11), pelo que se pode muito bem imaginar que se tivesse tido uma mulher, saber-se-ia. Todavia não penso que para Ele a ausência de uma mulher exprimisse antes de tudo uma recusa radical da sexualidade. Havia, porém, o risco de uma família hereditária. Se tivesse tido uma criança, a identidade de Filho de Deus seria posta em perigo e isto teria marcado o fim do cristianismo. De resto, são conhecidas as dificuldades, no seio da Igreja primitiva, entre quantos vinham do paganismo e os judeo-cristãos agrupados em torno da família natural de Jesus. Não, realmente, se Jesus tivesse tido filhos, ter-se-ia sabido!

A questão das relações familiares é em todo o caso importante porque o facto de Jesus, após a sua ressurreição, ter escolhido aparecer a Madalena em primeiro lugar, e não à sua mãe, está efetivamente em contraste com as tradições familiares da época. Daí nasceu toda uma série de lendas segundo as quais Jesus teria aparecido antecipadamente e em segredo a Maria e só depois a Madalena; era uma forma de salvaguardar as relações familiares tradicionais. Mas essas narrativas não estão reportadas nos textos canónicos. Quando penso que se os Evangelhos, escritos por homens – e por homens daquele tempo, em que a mulher era considerada como tendo uma dignidade inferior – conservaram a tradição da aparição de Jesus a Madalena em primeiro lugar, é verdadeiramente porque não podiam fazer de outra forma!

Porque é que então se impôs a imagem de Maria Madalena como pecadora?

Começou a assimilar-se a figura de Madalena à de outras duas Marias presentes no Evangelho: a irmã de Marta (cf. Lucas 10, 38-41) e a prostituta que lhe lavou os pés com as suas lágrimas (Lucas 7, 36-50). Maria de Betânia, irmã de Marta, é também irmã de Lázaro, o amigo de Jesus (cf. João 11, 1-45); é, por isso, uma figura quase de família que permite tornar menos perigosa e menos inquietante a sua proximidade a Jesus. Quanto à prostituta, é fácil lançar sobre ela um véu de suspeição e permitir assim a Maria Madalena estar menos em competição com a figura de Maria.

Por outro lado deve sublinhar-se que as tradições do Oriente e do Ocidente sobre este ponto entram em oposição: o Oriente cristão festeja separadamente Maria de Betânia e Maria de Magdala, enquanto que o Ocidente, a partir do século IV, acomunou-a com a prostituta na figura de Maria Madalena. Esta escamoteação transformou Maria Madalena em mulher arrependida que chora pelos seus pecados e por isso deixa de ser a missionária encarregada de anunciar a notícia da ressurreição.

Porquê esta escamoteação?

Escolher a imagem da pecadora arrependida permite ocultar a ligação de Jesus às mulheres, de quem, ao contrário, Ele gostava muito. Mesmo aquelas com uma vida “irregular” são sempre muito importantes em todos os Evangelhos. Jesus vê que as mulheres amam mais que os homens, que compreendem melhor do que os homens o amor. Assim é a samaritana, a primeira pessoa à qual anuncia que é o Messias (cf. João 4, 26). Mesmo se ela teve uma vida desregrada – o Evangelho refere-nos que teve cinco maridos e aquele que agora tem não o é, diz-lhe Jesus –, é uma mulher que procura amor e para Jesus esta é a coisa mais importante.

Dizer que Madalena é uma prostituta é portanto uma maneira de a diminuir, mas mostra também a proximidade de Jesus a estas mulheres à procura de amor, mulheres que Ele muito amou que são muitas vezes apagadas no Evangelho, significando o lugar que Jesus lhes dava. De resto, não se pode excluir que Jesus tenha tido outros relacionamentos com mulheres não reportados pelos Evangelhos. Mas teria sido realmente impossível esconder Maria Madalena a partir do momento em que foi uma figura central na vida de Jesus. Assim, transformá-la em pecadora permitiu eliminar o seu papel de apóstola durante dois mil anos e bloquear o papel das mulheres na Igreja.

Esta eliminação foi completa na Igreja?

Sim. À exceção, talvez, da França, onde uma tradição popular se apropriou da figura de Maria Madalena, confundindo-a, possivelmente, com a figura de Maria Egiziaca, a santa da Palestina que vive na luxúria antes de se retirar para uma gruta no deserto. Uma tradição refere que Maria Madalena teria chegado às costas da Gália e começado a evangelizá-la, antes de terminar os seus dias numa gruta no deserto, em Sainte-Baume. Fazer de Maria Madalena a evangelizadora da Gália permitia à Igreja em França reivindicar uma origem apostólica a par com Roma (Pedro), Bizâncio (André) ou Espanha (Tiago), ainda que aqui se trate de uma mulher. É assim que a tradição popular a acolheu como apóstola, enquanto a Igreja a constrangia ao seu papel de pecadora.

Na prática, como se expressou esse papel?

Um exemplo é o dos numerosos institutos criados ao longo da história e destinados às pecadoras, às prostitutas, às jovens que tinham “pecado” e que, mais ou menos obrigadas, escolhiam arrepender-se numa vida de género religioso. Quase todas essas casas, que as convertiam numa boa vida de família, estavam sob a proteção de Maria Madalena, incluindo aquelas para as viúvas, por seu lado suspeitas porque conheciam o sexo. As virgens, ao contrário, iam para outras instituições, a maior parte sob a proteção de Maria.

Vem à mente o filme “Madalena” [2001] sobre a terrível condição das jovens nesses institutos do século XX na Irlanda…

Felizmente não havia só esses. Havia também muitos conventos em que as coisas funcionavam bem. Em Itália, em muitos deles, ensinava-se um ofício às mulheres ou até se lhes dava um dote para que se casassem. Só havia a preocupação de lhes oferecer uma vida familiar honesta e regular.

Outro exemplo do desenvolvimento da figura de Maria Madalena como pecadora está na pintura. Ainda que a maior parte das modelos dos pintores eram prostitutas, em Roma era proibido representá-las. Não se podia de facto admitir que houvesse prostitutas na cidade do papa! Pintavam-se por isso prostitutas “venezianas” ou Maria Madalena como pecadora arrependida. Era igualmente uma maneira para os pintores fazerem passar conteúdos eróticos, com amplos decotes e copas vermelhas, sinal da paixão sexual.

Porque é que a figura de Maria Madalena como apóstola voltou ao primeiro plano?

Nestes últimos anos muitas mulheres exegetas releram os Evangelhos e começaram a protestar. O seu trabalho permitiu compreender melhor as relações de Jesus com as mulheres, ver melhor o lugar dos vários personagens que compõem a figura atual de Maria Madalena e redescobrir o seu papel de apóstola. Restabelecer a verdade.

Mas o mesmo vale para Maria: fez-se dela um exemplo de obediência de humildade que todas as mulheres deviam seguir. Mas Maria é antes de tudo um exemplo de coragem! Esta jovem aceita ficar grávida ainda antes de se casar, mesmo sabendo que arriscava a lapidação; precisou de uma coragem incrível. Mas, durante séculos, ninguém sublinhou este aspeto.

A 10 de junho de 2016 o Vaticano elevou a memória litúrgica de Santa Maria Madalena a festa litúrgica e publicou um novo prefácio [da oração eucarística] para ela que é agora «a apóstola dos apóstolos». Porque é que esta decisão é importante?

Trata-se de uma decisão do papa Francisco. Que tenha dado a Maria Madalena o título de «apóstola dos apóstolos» é fundamental! Para mim, colocar Madalena no mesmo plano dos apóstolos é ainda mais importante que ordenar mulheres sacerdotes, porque atribui às mulheres uma igualdade ainda mais profunda no âmbito da evangelização. Retenho que é uma decisão tão importante como a de Paulo VI que, em 1970, atribuiu a Teresa de Ávila e Catarina de Sena o título de doutoras da Igreja. Creio que é uma decisão litúrgica e teológica que não será possível eliminar e a partir da qual se poderá chegar à plena igualdade em cada âmbito.

 Tradução: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura 

Quaresma

                                        MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2018

«Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (Mt 24, 12)

Amados irmãos e irmãs!

Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão», que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

Com a presente mensagem desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12). Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

  • Os falsos profetas

Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas. Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

  • Um coração frio

Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós?

O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, «raiz de todos os males» (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n’Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos. Tudo isto se permuta em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas «certezas»: o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expetativas.

A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica Evangelii gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.

  • Que fazer?

Se porventura detetamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum. Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.

A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na coleta para a comunidade de Jerusalém: «Isto é o que vos convém» (2 Cor 8, 10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem coletas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.

Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões, para podermos recomeçar a amar. (…)

Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim.

Permanecer em pé

Permanecer em pé graças a Deus

                                                                                                                                       Génesis 15,1-6

O Senhor disse a Abrão numa visão: «Nada temas, Abrão! Eu sou o teu escudo, a tua recompensa será muito grande.» Abrão respondeu, «Que me dareis, Senhor Deus? Vou-me sem filhos e o herdeiro da minha casa é Eliézer de Damasco.» Acrescentou: «Não me concedeste descendência e é um escravo, nascido na minha casa, que será o meu herdeiro.» Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida, nos seguintes termos: «Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que sairá das tuas entranhas.» E, conduzindo-o para fora, disse-lhe: «Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se fores capaz de as contar.» E acrescentou: «Pois bem, será assim a tua descendência.» Abrão confiou no Senhor e Ele considerou-lhe isso como mérito.                              

Abraão era um migrante. Com o seu pai, ele deixou Ur, a sua cidade natal no sul da Mesopotâmia, para ir a Haran, no norte. Depois retomou o caminho, com a sua esposa Sara e o seu sobrinho Lot, e chegou à Terra Santa. Mas também teve que sair de lá. Fugindo da fome, foi para o exílio no Egipto. Regressou mais tarde à Terra Santa, mas nunca mais voltou à sua terra natal.

Abraão viveu na instabilidade. Nunca construiu uma casa, viveu sempre em tendas. E teve uma experiência de desânimo, quando não via nenhum futuro possível. Como todos nós, ele precisava de uma esperança para viver. Não se pode viver fora da corrente de vida que nos faz avançar. Abraão desejou um filho e que os seus descendentes lhe assegurassem uma reputação e um futuro.

Ao ler o texto bíblico, ouvimos a sua reclamação. Numa visão, Deus promete-lhe proteção e grandes posses. Mas ele queixa-se: «Que me dareis? Vou-me sem filhos…» Deus é lento a responder. E Abraão retoma a sua queixa: «Não me concedeste descendência…». Abraão poderia ter desaparecido no esquecimento como tantos outros antes e depois dele. Mas nós, cristãos, lembramo-nos dele, e antes de nós os judeus e depois também os muçulmanos, que o chamam Ibrahim. Por que será que este homem, cujos traços se perdem na noite dos séculos, nos toca assim?

A Bíblia divulga o seu segredo: Abraão acreditou no Senhor. Mas o que significa esta frase? O significado não pode ser que Abraão começou a acreditar que Deus existe. Naquele tempo todos acreditavam que os deuses existiam.

Há 35 anos, um senhor já de idade avançada, que passou a vida a estudar a Bíblia e as línguas bíblicas, chegou a Taizé. Ele disse-nos que acreditar em Deus significa tornar-se estável em Deus. «Abraão tornou-se estável em Deus». Acreditar é manter-se firme. Acreditar em Deus é ficar de pé graças a Deus. Abraão, indo de um país a outro sem nunca se instalar definitivamente em qualquer lugar, estabeleceu-se em Deus. Descobriu que mesmo com uma vida em que faltam os apoios habituais, é possível permanecer firmes. Ele encontrou em Deus uma estabilidade inesperada.

Será que ele procurou a fé e a esperança? Em vez disso, foram elas que vieram ter com ele: «A palavra do Senhor foi-lhe dirigida», diz o texto. E Abraão confiou nessa palavra. A promessa de Deus de lhe dar filhos como as estrelas do firmamento era inacreditável. Ele poderia tê-la esquecido imediatamente. Mas ele deixou a palavra de Deus colocá-lo de pé.

O apóstolo Paulo diz: «Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou e tornou-se pai de muitos povos.» Um pai para todos nós. Ao tornar-se estável em Deus, Abraão encontrou o lugar certo: «Confiou no Senhor e Ele considerou-lhe isso como mérito». A Bíblia chama pessoas «com mérito» ou «justos» aqueles que são amigos fiéis de Deus e dos homens e sinais vivos de um futuro. «Os justos florescerão como a palmeira e crescerão como os cedros do Líbano», canta um salmo.

É preciso pouco para sermos como aqueles que, seguindo Abraão, abrem caminhos de esperança. Antes de tudo, temos de saber reclamar sobre o que está errado, como fez Abraão. Depois é preciso perseverança para aguardar uma resposta, mesmo quando Deus permanece em silêncio. A fé é a surpresa de ficar de pé apesar de tudo, de viver, de seguir em frente. Deus não existe porque confiamos nele, e não desaparece quando não o fazemos. É ao contrário: é Deus que é a fonte da nossa firmeza, a nossa garantia. A fé é o acesso à estabilidade que está sempre em Deus, mesmo que falte em nós.

  •  Entre as pessoas que conheço ou de quem ouvi falar, há quem seja como Abraão? Em que sentido se parecem?
  •  De que me quero queixar a Deus?
  •  Onde e quando vi abrirem-se caminhos para o futuro? Quem os abriu: pessoas sozinhas ou em grupo, muitas ou poucas?
  •  O que me faz permanecer de pé e seguir em frente?
Textos bíblicos com comentário, de Taizé, fevereiro