A reflexão de uma das mulheres que seguia Jesus
(a partir do Evangelho do dia – Mt 26, 14-25)
“Desde ontem que sinto algo estranho entre nós. Não sei explicar. Continuamos a caminhar, a preparar o necessário para a festa, a falar como sempre… mas há uma sombra silenciosa que nos atravessa.
Vi Judas sair mais cedo. Naquele momento, não dei importância, pois era ele quem costumava tratar das coisas práticas do grupo. Mas agora, ao recordar o seu olhar, percebo que havia ali uma pressa inquieta.
À noite, estávamos todos reunidos. A mesa preparada, o pão, as ervas amargas, o vinho. A festa que recorda a libertação do nosso povo. Sempre gostei desse momento! Há algo de sagrado em sentarmo-nos juntos depois de um longo caminho.
Mas hoje Jesus estava diferente. Não era tristeza apenas. Era uma dor serena, como quem aceita um caminho que mais ninguém consegue ver. Quando Ele disse que um dos seus o ia trair, ninguém acreditou. Cada um começou a perguntar: “Serei eu, Senhor?” Essa pergunta ficou a ecoar dentro de mim. Não era apenas medo de ser o traidor. Era algo mais profundo: o reconhecimento de que o coração humano é um território frágil.
Olhei para Jesus. Ele não falava com raiva nem com acusação. Havia apenas uma tristeza infinita… mas, ao mesmo tempo, uma ternura que continuava a ser doação. Isso tocou-me profundamente. Às vezes, penso que é isso que torna esta semana tão difícil de compreender. A traição já começou. A dor já se instalou. E Jesus continua a dar a única resposta possível: o amor.
Quando a refeição terminou, saímos para a noite de Jerusalém. Enquanto caminhava com eles, senti que esta história não é apenas sobre Judas. É também sobre mim. Sobre os momentos em que o meu medo fala mais alto, em que o coração se afasta sem perceber. Olhei para Jesus tentando guardar cada gesto, cada palavra, como quem pressente que em breve tudo será memória. E nasceu em mim uma certeza inesperada: mesmo que o coração vacile, mesmo que a noite se torne mais escura do que posso suportar, há algo que não será traído – o amor com que Ele nos amou primeiro.”
🖋 Ana Luísa Marafona
