A reflexão de Maria, mãe de Jesus
(a partir do Evangelho do dia – Jo 13, 1-15)
“Lembro-me sempre das mãos dele. Mãos frágeis no início, agarradas ao meu dedo quando aprendia a caminhar. Mãos curiosas que tocavam tudo, que recolhiam pedaços de madeira na oficina de José, que se enchiam de pó e de sol. Com o tempo tornaram-se mãos firmes. Mãos que abençoavam crianças. Mãos que tocavam leprosos sem medo. Mãos que levantavam quem estava caído.
Hoje, porém, disseram-me algo que nunca imaginei. Disseram-me que, durante a ceia, Jesus se levantou da mesa, tirou o manto e começou a lavar os pés dos seus companheiros. Fiquei em silêncio quando ouvi isso. Porque, de repente, tantas memórias voltaram ao meu coração. Recordei o dia em que o levei ao templo ainda bebé. Recordei as palavras de Simeão, aquela espada que atravessaria a minha alma. Durante anos, não compreendi totalmente o que significavam, mas agora começo a perceber. O meu filho ajoelha-se diante dos seus amigos como um servo. Ele inclina-se para lavar o pó dos pés daqueles que caminharam com Ele. Imagino Pedro, confuso, quase escandalizado. Conheço aquele coração impulsivo. Deve ter achado impossível que o Mestre fizesse algo assim.
Mas eu não estou surpreendida. Não completamente… Porque desde o início percebi que o caminho de Deus é diferente do que esperamos. Quando dei à luz numa simples manjedoura, já ali estava escondido este mistério: a grandeza de Deus que se revela na humildade.
Lavar os pés. Talvez o mundo nunca compreenda bem este gesto. O mundo prefere os lugares altos, os sinais de poder, as palavras que se impõem. Mas o meu filho escolhe sempre outro caminho. O caminho de quem se inclina, de quem serve, de quem ama até ao fim.
Esta noite sinto o coração apertado. Sei que algo se aproxima. Há dias que pressinto que o caminho que começou em Belém está a chegar ao seu momento mais difícil. Mas, inexplicavelmente, sinto também uma paz profunda. Porque percebo que Ele continua a ser o mesmo menino que um dia coloquei nos meus braços. Aquele que veio ao mundo não para ser servido, mas para amar sem medida.”
🖋 Ana Luísa Marafona
