O dia em que o silêncio falou

A reflexão de Maria, mulher de Cléofas

(a partir do Evangelho do dia – Jo 18, 1-19, 42)

“Eu estive lá. Não porque fosse mais forte do que as outras, mas porque já não sabia como não estar.

Tudo aconteceu depressa demais. A prisão, as acusações, o julgamento apressado como se houvesse um prazo determinado. Mas nada em mim conseguia acompanhar a pressa daquele mundo.

Quando O levaram, eu segui de longe. Não por medo apenas, mas porque há dores que nos obrigam a caminhar sem direção, sem saber onde termina o chão. E depois vi a cruz. Ele estava lá. E isso foi tudo o que eu consegui pensar durante muito tempo: Ele estava lá. Os outros gritavam, discutiam, decidiam. Eu não. Eu só olhava. Havia algo n’Ele que não tinha desaparecido com o sofrimento. Algo que continuava inteiro, mesmo enquanto tudo o resto se partia. Os Seus olhos ainda viam, ainda acolhiam, ainda falavam, mesmo sem força. E eu, que tantas vezes O tinha escutado ensinar sobre o amor, percebi que agora o amor estava a ser levado ao limite. Não havia explicações naquele momento nem respostas. Apenas presença.

A certa altura, já não sabia distinguir entre dor e silêncio. Eram uma só. Fiquei junto de Maria, a sua mãe. Não falámos muito. Não havia necessidade de palavras onde tudo já tinha sido dito pelo corpo entregue. Ela segurava o que restava do impossível. E eu, ao seu lado, aprendi que há dores que se partilham, de mãos dadas no silêncio.

Quando Ele morreu, o mundo não acabou, mas ficou diferente. Como se tivesse perdido o seu centro e ninguém ainda soubesse como caminhar nele. E depois… o silêncio. Um silêncio que não explicava nada, mas que obrigava o coração a continuar a acreditar na vida mesmo sem ver, sem saber.

Enquanto O envolviam e O levavam para o sepulcro, eu vi que o Amor era isto: permanecer quando já não há nada a resolver; ficar quando já não há nada a dizer. E eu fiquei. Escolhi ficar. Há presenças que não terminam com a morte porque são sempre maiores do que ela. E há silêncios que já estão, de alguma forma, a preparar a vida nova que nascerá…”

🖋 Ana Luísa Marafona

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *