Vamos!

Reflexão para o mês de março de 2024

 “Se conhecesses o Amor de Deus, tu correrias até o encontrar.» (a partir do Evangelho segundo São João 4, 1-29)

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Se conhecesses o amor de Deus, tu correrias até o encontrar” cantamos no refrão de uma das músicas mais bonitas que o Jorge compôs. Nesta simples frase condicional está toda a condição de vida do Cristão, está toda a razão do movimento humano – o Amor. Mas não um amor qualquer, não um sentimento passageiro, não uma mera emocionalidade. O Amor de Deus é aquela força maior que ultrapassa todo o entendimento humano, que nos torna fortes nas nossas fragilidades, que nos faz capazes de ver o que é invisível. Por isso, ter a possibilidade de poder viver este Amor maior é o maior dos presentes que podemos receber. Ou como gostava de dizer o Jorge, é uma “riqueza”. Quando escolhemos viver cada dia nosso guiados por este Amor de Deus, a vida torna-se muito maior porque o nosso coração está mais disponível para acolher, para se doar, para compreender. E quando encontramos este Amor, não há outro querer a não ser o de corrermos para ir ao encontro de quem nos ama tal como somos.

Deus sonhou-nos para a felicidade. Há dentro de cada um de nós um grito de vida que nasce connosco e que é esta vontade de nos sentirmos plenos. E esta plenitude, buscada em tantos lugares, procurada em tantos espaços, só é vivível quando nos deixamos levar pelo amor de Deus, ou seja, quando escolhemos viver com a nossa vida a vida que Deus criou para nós. Uma vida que não está isenta de sofrimento, mas que é acompanhada amorosamente nesse sofrimento. Uma vida que nem sempre é aquilo que nós esperávamos que fosse, mas que se enche da presença divina nas novidades que vão surgindo.

“Se conhecesses o amor de Deus, tu correrias até o encontrar”. O verbo correr é, sem dúvida, uma das palavras ilustrativas da geração a que pertencemos. “Andas sempre a correr”, “Já vais embora a correr”, “Andei o dia todo a correr de um lado para o outro”, são alguns exemplares inseridos nos diálogos que atualmente vamos mantendo uns com os outros durante as nossas maratonas diárias. E, tantas vezes, nos acomodamos e até nos alegramos com estas correrias desenfreadas, que nos roubam tempo e espaço para podermos simplesmente ser… Os dias esmagam-nos, a agitação diária corrompe-nos, leva-nos tantas vezes a alma e, se não estivermos atentos e preparados, deixa-nos mesmo na lama. Vivemos como se tudo dependesse só de nós, como se tudo fosse sempre de possível controle, como se conseguíssemos eliminar todos os imprevistos da vida. Envaidecemo-nos com os dias cheios de compromissos e obrigações, onde tudo nos parece importante e insubstituível. Colocamos todo o nosso esforço e dedicação em tantas coisas efémeras e passageiras. Adjetivamos as horas do dia como rentáveis e descartamos a quietude e o prazer que advém daquilo que é tão simples. No nosso íntimo, sabemos que há algo de errado nesta forma de viver e até desejamos mudar, mas nem sempre conseguimos. Há sempre motivos e razões válidas que nos mantêm nesta corrida. Investimos nos troféus errados, gastamo-nos em tarefas que se esgotam a si próprias e passamos a ser só um mero instrumento de trabalho sujeito à erosão dos dias. E as vidas enchem-se de frustração, de expectativas não superadas, de desilusões dolorosas.

É então precisa coragem para sabermos dizer não a esta lógica mercantil que domina a vida humana. É precisa assertividade para não nos deixarmos deslumbrar pela vaidade de sermos reconhecidos. É precisa determinação para não nos transformarmos em números e percentagens. É preciso ser diferente para não nos deixarmos paralisar pelas exigências mundanas. É preciso querer seguir uma vida simples sem desistir quando chega o primeiro obstáculo. A perseverança não é um caminho de facilidade, mas leva-nos à essencialidade daquilo para o qual fomos chamados. Há que viver com atrevimento e ousadia numa sociedade que nos quer impor um pensamento exclusivamente racional e, por isso, limitador.

Há um imperativo da aceleração que devemos combater. Devemos parar. Para pensar. Para refletir. Para nos encontrarmos. Para nos questionarmos. Para onde corremos nós? O que nos move? O que nos motiva a fazer caminho? O que preenche o meu coração? O que levo nas minhas mãos? O que me faz dizer sim? O que dou de mim à vida que me foi dada? Corro para quem? Onde e a quem entrego o meu coração?

 “Abdica e serás rei” é um dos versos mais iluminados de Ricardo Reis. Foi precisamente esta a escolha de Jesus e a dos muitos homens e mulheres de boa vontade que lhe seguiram. Abdicar não implica perder. Abdicar não é ficar com o prémio de consolação. Abdicar é sinónimo de dar oportunidade a que a minha vida e a pessoa que eu sou ganhem mais espaço para ser. Abdicar do que é negativo, do que me aprisiona, do que me faz sucumbir às minhas fragilidades, do que me afasta da minha verdade. Abdicar do ter tudo para poder ser tudo. Abdicar das máscaras que me escondem para abraçar a verdade do que sou. Aquilo que vou sendo depende muito mais daquilo que abdico do que daquilo que conquisto.

O Cristianismo é altamente desafiador porque quem quer viver no concreto a ideologia cristã tem de aceitar viver num mundo às avessas. O Cristão é aquele que dá sem troca, que ama contra o ódio, que acolhe o que é desprezado. O Cristão é aquele que assume a lógica da salvação gratuita num mundo em que tudo é comercializado e comercializável.

Por isso, o Cristianismo salva-nos na medida em que a mensagem cristã nos garante que podemos ser apenas quem somos, sem necessidade de títulos ou papéis, carreiras ou prémios. Aos olhos de Deus, somos únicos e irrepetíveis e o que verdadeiramente importa (e efetivamente salva!) é aquilo que trazemos no nosso coração e o que fazemos pelo bem comum. Por meio de seu filho, Deus deixa-nos a maior das promessas: ele estará sempre connosco até ao fim do nosso tempo. É esta promessa que nos salva e nos leva a viver cada dia ancorados na confiança e na persistência deste amor.

Gosto muito da fotografia que escolhi para acompanhar este meu texto. Nela vejo a Clarinha e o Tomás – os meus amados sobrinhos do coração – quando eram mais pequeninos. Não lhes vejo as expressões, mas adivinho-lhes a alegria gigante e a felicidade plena que sentem por poderem estar no meio da natureza. Sinto-lhes a liberdade de poderem ser quem são sem preconceitos nem medos paralisantes. Decifro-lhes o entusiasmo maior de seguirem caminho acompanhados na irmandade. Eles sabem para que(m) correm. Eles sabem bem porque correm. Correm com o coração pequenino mas cheio de uma vida grande. Correm pelo coração maior a transbordar de vontade de encontrar o Infinito. Corramos também junto com eles! Não nos detenhamos, não nos boicotemos. Não tenhamos medo de escolher o que realmente importa! Não tenhamos receio de nos darmos, de fazermos comunidade, de participarmos sem reservas no dom gratuito que é a maravilha de viver. Quem compreende o Amor de Deus, compreende que a vida quer viver, que é sempre mais forte, mais soberana. Que esta alegria tão pura e doce nos contagie e nos faça também correr, sempre com vontade e decisão, ao encontro da nossa Terra Prometida.

Quarenta Dias

Mensagem para a Quaresma 2024

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Quaresma. Quarenta dias.

Quarenta dias. De oportunidades, de recomeços, de mudanças. De decisões a serem tomadas a cada dia que nos é dado com a certeza única de que fazemos e somos sempre caminho.

Quarenta dias. Para me deixar cair no colo de Deus e para me permitir que o seu Amor me erga bem alto, bem naquele lugar onde os sonhos se cruzam com a realidade, onde a vida é sempre maior, onde o coração voa até ao infinito.

Quarenta dias. Para acolher medos e inseguranças e para transformá-los em força e ação, instrumentos de peregrinação para a Terra nossa Prometida.

Quarenta dias. Para perceber que o sofrimento e a dor caminham de mãos dadas com um Deus que só me quer bem e nunca me deixa sozinha.

Quarenta dias. Para preparar, com serenidade e alegria, aquela manhã gloriosa em que a Vida vence todas as minhas mortes e as feridas são saradas com compaixão e amor.

Quarenta dias. De silêncios e de ruídos que falam e silenciam tudo que se vê e só se compreende com um coração que escolheu amar à medida de Deus.

Quarenta dias. De luzes e de sombras, nessa mistura que a vida faz todos os dias e que me pede que seja um peregrino que observa, que contempla, que avança mas também recua.

Quarentas dias. De espera e de expectativa. De acolhimento a este Jesus que me transforma, me inquieta, me mostra que na loucura de uma entrega na cruz está toda a minha salvação.

Quarenta dias. De solidão e de deserto, esse espaço onde me recolho para escutar quem sou e onde preparo a minha escolha de viver mais o dom de cada dia.

Quarenta dias. Não para viver em penitência, mas para acolher o que também me faz sofrer. Não para viver o desespero, mas para seguir a via da esperança que também existe numa cruz. Não para me culpabilizar, mas para descobrir um novo entendimento do que significa falhar.

Quarentas dias que nos levam ao Dia Maior dos nossos dias, ao Dia da Vida prometida, luminosa e erguida. Quarenta dias que nada valem se não forem vividos com a certeza que há aquele Dia de Páscoa Eterna que espera por mim, por ti, por cada um de nós.

Estrada Quaresmal 2024

Percorram connosco a nossa Estrada Quaresmal deste ano, um tempo de oportunidade, de recomeços e de vida interior. A oração não mede a minha relação com Deus, mas é a minha relação com Deus. Que este tempo quaresmal seja propício para fazermos a descoberta desta relação única que cada um de nós tem com Deus através da meditação, da música e do silêncio.

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“Entra no teu quarto.
Entra dentro de ti, no teu coração.
Entra no teu quarto.

Toma consciência da tua vida, da qualidade da tua vida. Da qualidade espiritual, da qualidade de amor, da qualidade de generosidade, da qualidade ou não de misericórdia que tu vives.

Entra no teu quarto.
Escuta o teu coração e entra. Entra com esperança para olhares o Pai, para descobrires o Pai que te ama e que te estende a mão.

Entra no teu quarto e descobre, redescobre que Deus é teu Pai e que Deus é uma presença de amor. Ele assiste ao nosso parto, Ele assiste à reinvenção de nós mesmos, Ele assiste à transformação da nossa vida.

Celebrar o tempo da Quaresma é esperar a primavera que não está longe. Há a primavera que as árvores vão mostrando, mas há sobretudo uma primavera interior, um rejuvenescimento da alma, uma juventude de coração que cada um de nós pode ganhar.”

José Tolentino Mendonça

Laços de família

Reflexão para o mês de fevereiro de 2024

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

 “Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (do Evangelho segundo São Mateus 12, 50)

A qualidade da fotografia que acompanha este texto é inversamente proporcional à alegria e ao amor que fizeram com que ela acontecesse. Onde muitos poderão ver uma imagem muito pouco cuidada para ser exposta em redes públicas, eu vejo uma memória feliz de um encontro com a família à qual tenho a graça imensa de poder chamar de minha. Por isso, este é um texto de profunda gratidão. Pela minha vida vivida no meio de uma irmandade luminosa, pelo Amor com que amo e sou amada, pela alegria de acreditar num Deus que torna possível cada dia com que me vai presenteando. Pelos momentos felizes que me fazem rir e cantar e pelos momentos dolorosos em que me descubro capaz de ser forte no meio das minhas tantas fragilidades e onde sei que nunca estou sozinha. Este é também um texto de agradecimento imenso. Por estar rodeada de uma comunidade que personifica a presença do meu Deus e me faz acreditar que é o Amor que nos impede de cair na indiferença e na futilidade. Este é ainda um texto de reconhecimento. Por poder usar as palavras para construir propostas de caminhos, por viver em confiança plena com quem vai comigo, por partilhar esta dimensão espiritual comunitária e vivê-la em comunhão.

Nesta fotografia que convosco partilho está uma parte da família de Deus. Sim, nós somos família. Em Deus e por Deus. Pertencemos uns aos outros e comprometemo-nos a ser quem somos uns com os outros. Todo aquele com quem compartilhamos o nosso crescimento faz família connosco. Uns há já muitos anos, outros mais recentemente, mas todos escolhemos fazermo-nos família. E vamos partilhando vida, acontecimentos, histórias, horários, eventos. Fazemo-nos presentes no presente de cada dia nosso. E assim vamos sendo o resultado de tudo o que cada um de nós é. Somos esta família porque Deus nos uniu e nos chamou a ser. E nós tivemos a graça feliz de podermos, em determinado momento das nossas vidas, estarmos disponíveis para perceber esse chamamento. Nas nossas escolhas feitas, fomo-nos pondo assim no caminho uns dos outros. Ao que uns chamam acasos ou coincidências da vida, nós chamamos sinais da presença de Deus. Um Deus que se fez presente num convite para um encontro de catequese, numa vontade de ir cantar para um coro, numa curiosidade em participar num grupo da paróquia, num desejo de prosseguir uma caminhada espiritual, num chamamento depois de participar numa Eucaristia. E assim nos fomos encontrando na nossa Estrada Clara.

Ser família de Deus é aceitar viver em encontro, encontro este que ultrapassa fórmulas, papéis, funções. Ser família de Deus é falar a linguagem da irmandade, da cumplicidade, da relação. Ser família de Deus é acreditar que somos abraçados, que somos escutados, que a nossa história importa, que a nossa vida é conhecida e amada, seja qual for a sua circunstância. Ser família de Deus é saber que Ele vem ao nosso encontro e nos procura. Ser família de Deus é colocar os talentos que recebemos ao serviço do(s) Outro(s) e vê-los a serem multiplicados e fecundos. Ser família de Deus é deixarmo-nos cuidar e sermos também cuidadores tantas vezes do corpo e muitas vezes da alma.

Nem sempre é fácil pertencer a uma família destas. É exigente, baseia-se numa mensagem que nem sempre é aceite e não nos protege das montanhas-russas da vida. Por vezes, aparecem as dúvidas, as tempestades, as incertezas. Mas também e muitas mais vezes aparecem a vontade de seguir viagem de mãos dadas, a alegria incalculável de uma gargalhada partilhada, o abraço reconfortante que sabe sempre a casa quente e acolhedora. O lugar onde Ele está. O lugar onde nós queremos estar. A relação com os outros também faz parte da descoberta que vamos fazendo de nós próprios, interpela-nos, questiona-nos, faz-nos agir na construção de quem somos.

“Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe». Foi esta a resposta dada por Jesus à pergunta que Ele próprio lançou sobre quem seriam a sua mãe e os seus irmãos. A leitura desta passagem do Evangelho pode causar uma certa estranheza a quem a lê na diagonal ou desconhece o seu contexto. É óbvio que Jesus não nega os seus familiares, pois tal não seria concebível na cultura judaica na qual ele próprio se inseria. Também não pretende levantar nenhuma dúvida no que concerne às relações de consanguinidade de Jesus. O que esta passagem nos mostra é, na realidade, algo bem mais simples, mas simultaneamente grandioso. O que as palavras de Jesus revelam é a grande graça que o Cristianismo nos oferece de nos reconhecermos a todos como irmãos. De facto, não há Cristianismo sem irmandade, não há história da salvação sem comunidade. Quem se afirma cristão vive com um coração permanentemente alargado e com a disponibilidade para amar sempre ativada. Jesus nasceu para nós e com Ele nasceu também a nossa condição de irmãos seus. Esta é uma das grandes maravilhas que o Cristianismo nos oferece – a de podermos viver em irmandade, em relação, em comunidade com o(s) Outro(s).

Não há Cristianismo sem relação. Não há um Nós sem um Tu e Eu. Não há Igreja sem as pequenas comunidades que a constituem. Não há espiritualidade sem ação. O coração de um Cristão estende-se, alarga-se, amplia-se para viver com os que são seus irmãos na fé, numa partilha de amor, de dádiva, de entendimento. O Cristão é, por excelência, o peregrino do encontro, a personalização de um abraço que acolhe, a mão sempre estendida para ajudar.

Jesus faz-nos irmãos ao revelar-nos o quão amados nós somos pelos irmãos que Ele colocou nas nossas estradas. Somos irmãos na medida em que, todos os dias, somos aqueles que vão a caminho, em peregrinação, uns com os outros. Que possamos escolher, em cada dia, sermos Evangelhos vivos, sermos lugares de esperança e de acolhimentos, sermos Amor.

A vida toda

Dia da Vida Consagrada – 2 de fevereiro

“A vida toda para toda a vida” foi o que dissemos os três, uns aos outros, há vinte anos, num dia bonito de Verão. Comprometemo-nos a fazer de cada dia nosso um dia de aleluia, um dia de luz que ilumina, um dia do evangelho do encontro.

“A vida toda para toda a vida” foi e continua a ser o que nos faz seguir caminho nesta Estrada escolhida e onde tanta gente boa faz também caminho connosco.

“A vida toda para toda a vida” é o mantra das nossas escolhas, decisões e perguntas, dos muitos avanços e também recuos que nos edificam sempre em busca e em procura do que somos e seremos.

“A vida toda para toda a vida” é um hino à amizade comprometida, ao amor comunitário, ao sonho de um Deus que nos eleva sempre.

“A vida toda para toda a vida” foi e é um convite à ousadia, ao fazer novas tantas e tantas coisas, à partilha do que somado se multiplica.

“A vida toda para toda a vida” é e sempre será a minha viagem com o Jorge e a Beatriz, uma viagem iniciada nesta vida terrena e que já é sonhada naquele que será o nosso dia de Páscoa eterna.

“A vida toda para toda a vida” é o nosso compromisso maior de todos os nossos sonhos, é esta nossa irmandade simultaneamente tão simples e tão rica.

Hoje é dia de agradecer esta minha e nossa escolha em comunidade.

Hoje é dia de poder dizer com a minha vida esta vida bonita que Deus me ofereceu e que me faz tão feliz.

Hoje é dia num dia em que nele cabe todo o meu e nosso sim.

“A vida toda para toda a vida”. Feliz Dia dos Consagrados!

Ana

Ser consagrado

Um testemunho escrito pela Beatriz

O papa Bento XVI diz-nos que ser consagrado significa “pertencer ao Senhor” e isso significa “arder com o seu amor incandescente, ser transformado pelo esplendor da sua beleza”.

Há muitos anos, fui surpreendida com o convite para formar comunidade com a Ana e o Jorge. Estávamos inseridos em vários projetos na nossa paróquia, passávamos muitas horas juntos, e, portanto, fazia sentido que partilhássemos também a mesma casa. Foram e continuam a ser anos de aprendizagem, de partilha, de construção pessoal e comunitária.

Hoje, mais do que nunca, as pessoas precisam de saber como ser cristãs no seu dia a dia. Depois da missa ao domingo, como posso ser testemunha de Jesus? Como posso ser luz para os outros no “mundo real”? Como pode a oração fazer parte natural do meu dia? O projeto que começámos há tantos anos pretende responder a estas questões. Para nós, é natural começar e acabar o dia com a oração. É natural que nos intervalos do trabalho, o nosso tempo seja preenchido com projetos de formação, ensaios, animação de eucaristias, mas também com partilha de testemunhos, de alegria, passeios e convívios… e em tudo isto somos testemunhas de Deus que é Amor e que arde nos nossos corações, transformando-nos.

Este caminho em comunidade que vive a fé na rotina diária tem sido uma contínua descoberta para mim. É na relação que me descubro, que cresço e ajudo a crescer, que vou sendo cada dia mais aquilo que Deus sonhou quando me sonhou! Ser consagrado é, realmente, pertencer ao Senhor! Isto que é dito de forma tão simples e tão bela é suposto passar para a nossa vida em cada circunstância, quando os dias são luminosos, mas também quando anoitece e parece que não encontramos sentido no que vivemos… A vida fica pobre e muito incompleta sem esta parte espiritual! Nós somos feitos de luz e para a Luz! Precisamos do transcendente para nos elevarmos a toda a altura que temos!

Em cada dia agradeço o convite que feito há anos. Agradeço a oração de cada dia. Agradeço poder falar de Deus ou simplesmente vivê-Lo em cada dia. Agradeço ter com quem partilhar este projeto. E agradeço a vida que tem mais sentido vivida com e para os outros… e com e para o Outro!

Semana da Vida Consagrada 2024

De 26 de janeiro a 2 de fevereiro, a Igreja celebra a Semana da Vida Consagrada com o lema “Rezar a Esperança.” Esta semana culmina com a Solenidade da Apresentação do Senhor, no dia 2 de fevereiro. Este é também o dia dos Consagrados, data esta escolhida pelo Santo Padre João Paulo II.

Esta é uma semana de grande alegria e de gratidão para nós, Comunidade Estrada Clara, pois celebramos todos os consagrados que vivem a sua escolha na nossa paróquia e aqueles que com os seus carismas e percursos anunciam esta entrega a um Deus que nos faz ser sempre maiores que nós próprios. Nesta semana, agradecemos, de uma forma particular, as vidas do Jorge, da Ana e da Beatriz, que escolheram fazer das suas vidas vidas de vida para o(s) Outro(s).

Juntem-se a nós nestes dois momentos que nos são propostos na nossa paróquia, momentos de oração, de festa e de gratidão por podermos caminhar juntos com quem escolheu ser caminho no Caminho até à Terra Prometida.

Ano de Oração

O Papa Francisco deu início, a 21 de janeiro, ao Ano de Oração, um caminho de preparação para o grande Jubileu que iremos celebrar em 2025. Dedicar cada dia deste ano à oração é muito mais do que seguirmos fórmulas e esquemas, muito mais do que cumprirmos planos e orientações.

Um Ano de Oração pode ser a redescoberta de como Deus se faz presente em cada dia da nossa vida. É como uma flor que desponta teimosamente em terra árida. É como uma criança que ri mesmo quando está doente. É como um abraço que se dá quando as palavras perdem força. Um Ano de Oração pode ensinar-nos a viver esta presença tão frágil e tão forte de Deus em nós, na nossa vida, nos nossos caminhos. Um Ano de Oração pode ser um hino à vida e à descoberta da beleza, da relação, da nossa humanidade divina.

Que este Ano de Oração nos prepare o coração para vivermos plenamente a experiência jubilar em 2025. Que este Ano de Oração nos ajude a fazer caminho na Igreja que somos e para a Igreja que queremos ser. Seguimos juntos, com a grande família que somos, neste caminho que é sempre um caminho pascal!

Coisas novas

Reflexão para o mês de janeiro de 2024

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.” (do Livro do Apocalipse 21, 5) 

Um ano novo que começa é sempre uma oportunidade para revermos tudo o que fizemos e para nos projetarmos num futuro próximo. O primeiro dia do ano desperta em praticamente todas as pessoas o desejo de um recomeço, de uma novidade, de um caminho, de uma folha em branco pronta para ser escrita. Para quem é cristão, esta oportunidade de novos recomeços está sempre disponível. É o próprio Deus que o confirma quando, por meio dos profetas e dos próprio Jesus Cristo, nos garante que há sempre tempo e espaço para renascermos, para nos erguermos, para seguirmos em frente. Confiando a Deus a nossa vida, com as nossas dúvidas e medos, com as nossas dores e abalos, temos a certeza de que Ele tudo fará para o nosso bem, mesmo que, muitas e tantas vezes, não tenhamos a capacidade necessária para compreender tudo o que nos acontece. E é precisamente quando não compreendemos, quando não encontramos respostas, quando nos sentimos perdidos, que devemos deixar fluir a confiança e viver da e na fé. Viver o invisível. Viver o que não calculamos. Viver o que ultrapassa o nosso entendimento. É aqui, neste viver confiante, que Deus está, naquele tempo e naquele espaço que nós não conseguimos atravessar sozinhos. Ele está connosco. Escolheu ser um de nós e um connosco na nossa humanidade, nas nossas fragilidades e inseguranças. Um Deus que se fez humano para que a nossa humanidade se faça divina.

Há dias escrevia para uma amiga – que está a atravessar uma etapa difícil – que a vida é uma montanha-russa na qual todos viajamos. Uma montanha-russa cheia de desafios, de subidas e descidas, enfeitada com gritos de alegria e de medo, de momentos aparentemente calmos e outros de grande agitação. Todos seguimos nessa montanha-russa. Uns preferem nem vê-la e nela seguem de olhos fechados para nada verem, nem o que é bonito nem o que é mais assustador. Outros enfrentam-na de olhos bem abertos, não querendo perder nada do que lhes é dado viver. Outros ainda oscilam entre manter os olhos abertos ou fechá-los quando o medo é maior. Todos nós adotamos estratégias diferentes para enfrentar tudo aquilo que nos acontece. Porém, há algo significativo que todos temos em comum. Ninguém viaja nesta montanha-russa sozinho. Ninguém. Vamos juntos, partilhando estas emoções, os risos e as lágrimas, dando as mãos, abraçando, segurando o coração uns dos outros. E este é o maior tesouro que Deus nos oferece: o de podermos fazer esta viagem acompanhados, sustentados pelo amor de quem está connosco, seguros na confiança que a irmandade nos traz. É por isto que as coisas novas que Deus anuncia acontecem. Porque acreditamos uns nos outros. Porque seguimos nesta viagem acompanhados. Porque somos o lugar onde Deus habita e assim o anunciamos a quem quer percorrer este caminho connosco.

O maior desafio para um cristão é precisamente o acontecimento da morte. Porque somos humanos, porque não compreendemos tudo, porque não conhecemos tudo, temos dificuldade em aceitar a morte. A nossa e a de quem amamos. Temos sobretudo dificuldade em continuar a viver para lá da morte, da separação, do afastamento. Mas, precisamente porque somos cristãos e nos é dada a graça de confiar e de acreditar, sabemos que esta vida continua para quem cá fica e continua também para quem vive já na Eternidade da Terra Prometida, naquele tempo e lugar onde todos, todos, todos viveremos juntos. E esta vida continua sempre que nós acreditamos que ela possa continuar, sempre que investimos no caminho que se constrói dia-a-dia, sempre que confiamos naquilo que não vemos.

“Eu faço novas todas as coisas.”, promete-nos Deus. A nossa vida é toda ela uma promessa. Vivida na confiança em Deus, a nossa vida não está isenta de sofrimento, mas está protegida pelo Amor que não tem fim. Vivida na entrega a Deus, a nossa vida é mais esperançosa, mais eterna, mais vida! “Eu faço novas todas as coisas.”, continua o Senhor a dizer-nos. É interessante perceber que esta sua mensagem está no tempo verbal do presente do Indicativo. Deus não nos diz que fará novas todas as coisas, mas que, neste nosso tempo e neste nosso lugar, estas novas coisas já estão por Ele a serem feitas e a acontecer para cada um de nós. O nosso Deus é o Deus das novidades, das surpresas. A nossa fé reside precisamente nisto. Em confiar que estas novidades são transformadoras. Em acreditar que o que Deus nos dá de novo é o novo que nós precisamos que nos seja dado.

A fotografia que acompanha este texto é um registo do momento final da Eucaristia do dia 1 de novembro, a festa de Todos os Santos, a data em que celebramos a viagem do Jorge connosco e agradecemos a sua vida entre nós e também a nossa vida uns com os outros. Uma fotografia espontânea, desfocada e sem filtros porque a vida é isto mesmo e a alegria genuína não precisa de ser enfeitada, glamorosa ou programada artificialmente. Nós somos estes. Os que acreditam que é possível continuar a caminhar. Os que querem continuar juntos de lágrimas nos olhos, mas com muitas mais gargalhadas para partilhar. Os que confiam que mesmo não conhecendo todas as respostas, sabem que a irmandade é a solução para todas as questões importantes. Os que escolheram pertencer uns aos outros e crescer uns com os outros. Por tudo isto, somos gratos porque já descobrimos que a Vida é sempre mais forte do que qualquer morte, porque acreditamos que a alegria multiplicada é o ingrediente fundamental para continuar a seguir viagem, porque escolhemos sermos cristãos uns com os outros numa comunidade orante e pensante.

Que este novo Ano que nos é dado nos encontre totalmente disponíveis para o espanto. Que este novo Ano que nos é oferecido nos encontre preparados para olhar cada dia com gratidão, com fé, com confiança. Que este novo Ano que nos é presenteado nos encontre em caminho, no caminho para a Terra Prometida. Que este novo Ano seja o tempo e o espaço que eu possibilito para me aproximar mais do que é essencial. Que este novo Ano me encontre de braços preparados para acolher os meus irmãos, de mãos estendidas para os segurar, de olhos abertos para ver a maravilha maravilhosa que é a vida em comunidade, na comunidade e pela comunidade.

Naquele Presépio nascemos nós

“Àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” (Jo 1, 12)

Há dois mil anos, não foi só um menino que nasceu em Belém, fomos nós que com Ele também nascemos. Há dois mil anos, não foi só Deus quem se tornou humano, fomos nós que, com Ele, nos tornamos divinos. Há dois mil anos, não foram só os anjos que o anunciaram, somos nós também que o fazemos com as nossas vidas. Há dois mil anos, não foram só os pastores que o visitaram, fomos nós também que somos visitados pela Sua graça e bondade. Há dois mil anos, não foram só os Magos que se puseram a caminho, somos nós também que decidimos seguir aquela Luz estrelada lá no Alto, onde todos os sonhos, projetos, dias e vidas se edificam e nos elevam a olhar para a Eternidade da Terra para nós prometida.

Todos nós nascemos naquele presépio, naquele lugar em que a vida vence a morte, naquele lugar em que o calor aniquila o frio, naquele lugar em que a força toma conta da fragilidade. Todos nós somos frutos daquele primeiro Natal, um acontecimento acontecido contra todas as contingências, contra todas as expectativas, contra todas as condições.

Naquele presépio, nascemos também nós. Cada um de nós. Os que escolhem nascer a cada dia. Os que desejam dizer sim. Os que seguem, com dúvidas e certezas, com dores e alegrias. Os que desconhecem o caminho, mas conhecem Aquele Menino Deus que com eles caminha. Os que procuram o interior muito mais do que o exterior. Os que celebram mais com o coração do que com a decoração. Os que vivem no silêncio todo o ruído das festas. Os que acolhem tudo apesar de tudo e por causa de tudo.

Naquele presépio nascemos todos nós. Envoltos em abraços, cobertos por palavras partilhadas, aquecidos pela confiança que a vida em comum nos oferece. Naquele presépio, onde Maria e José recebem o seu Menino, este Menino recebe-nos a todos nós. E oferece-nos o maior dos presentes: a vida vivida com Ele, por Ele e para Ele.

Um Santo e Feliz Natal para todos vós! Um abraço sempre amigo e natalício!

Ana

📸@tulippainter